Mostrando postagens com marcador Marcinha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marcinha. Mostrar todas as postagens
6

[Resenha] O Terceiro Travesseiro

Posted by Marcinha on 23 de fevereiro de 2014 06:32 in , , ,
Olá, leitores e Retalhenses! Aqui vou eu, me aventurando em mais uma resenha (esse ano prometi resenhar tudo o que eu ler).

Mas... antes algumas palavrinhas.

O Terceiro Travesseiro é uma linda história de amor, mas é um romance homossexual masculino. Então, caro leitor, se você acabou de arregalar os olhinhos e exclamar "o mundo está perdido!", nem precisa continuar lendo essa resenha. O Terceiro Travesseiro é um livro para quem tem a mente aberta e acredita que existe felicidade fora das regras rígidas da sociedade.

Em segundo lugar eu gostaria de falar brevemente sobre mim, e porque eu li esse livro. Eu sou uma pessoa anti-convencional. Na verdade, eu tenho até um certo prazer em incomodar. Eu trabalho com meu marido numa oficina numa oficina especializada em carros antigos. Eu meto a mão na graxa, conheço de ouvido se um motor está bom ou não, faço pintura personalizada, lido com ferramentas pesadas e o que mais precisar. Quando viajamos para exposições de carros antigos, naturalmente os grupinhos se dividem. As esposas se agrupam para conversar sobre os mais diversos assuntos, enquanto eu me junto na rodinha dos maridos, falando sobre motores envenenados e o amor que sentimos pelos nossos carros. Os maridos terminam por olhar para suas esposas com ar de acusação, como que dizendo "você devia ser assim também!" As esposas me olham com desconfiança, ou abertamente como uma ameaça, um mau exemplo. E eu lamento informar que eu sou o que sou, gosto de mim como eu sou e não há olhar horrorizado que vá me fazer desejar me enquadrar no papel que a sociedade gostaria que eu tivesse.

Dito isso, vamos à resenha!


É difícil falar de uma história como essa sem dar spoilers. Vou me esforçar e isso acabará fazendo com que eu fale pouco. Isso é uma pena, por que eu gostaria de gritar aos sete ventos todos os motivos pelos quais valeu cada minuto eu ter lido esse livro.

Pra começar, na capa está escrito "Romance Verídico". Confesso que olhei com certa desconfiança, afinal não haveria jogada de marketing melhor. Capítulo a capítulo fui acreditando cada vez mais que a história realmente é verdade. É claro que, sendo um romance homossexual, a história vai falar de amor e preconceito. Mas por muitas vezes, há em certos personagens tamanho egoísmo e mesquinharia, como só as pessoas reais conseguem ser. No todo, a vida é retratada cruel como ela realmente é. O final então me deixou chocada. Mais, infelizmente, não posso dizer.

O romance entre os dois chega a ser fofo. Renato e Marcus estão apaixonados, são jovens, e fazem muita "zueira" juntos. Eles são amigos acima de tudo, se divertem demais um com a companhia do outro e se desejam ardentemente. Tem coisa melhor na vida do que amar assim?

Como o próprio título já diz, entra um terceiro travesseiro nessa história: Beatriz, ex-namorada do Renato. A chegada dela complica bastante as coisas entre Marcus e Renato. Posso dizer que esse livro fala sobre dois tipos de traição: a inconsequente e a premeditada. A inconsequente é quando você acaba por se deixar levar, e vai curtindo a situação achando que consequências graves não existem e que tudo dará certo no final. Foi o que rolou entre Marcus e Renato. A premeditada é quando o ser humano mostra sua verdadeira face, egoísta e manipuladora, e a vida se encarrega se ser cruel. Outros personagens do livro contribuíram muito pra isso.

Mas grande parte do livro foi um grande conto de fadas pra mim, daqueles que faz a gente acreditar no amor. No amor único de duas cara-metades. No amor familiar, quando alguém que tem o seu mesmo sangue te dá a mão e te olha como quem diz "mesmo que o mundo desabe, eu lutarei com você". Tudo isso torna o livro emocionante. Nesse quesito eu gostaria de destacar o Carlos, irmão do Renato, e o Sr. Giorgio, pai do Marcus. A hombridade e a coragem dos dois é impressionante.

Claro que os nomes todos foram trocados no livro, por uma questão de privacidade. Mesmo assim eu gostaria de fazer duas homenagens. 

A primeira, a Nelson Luiz de Carvalho, autor do livro. É necessária muita sensibilidade para contar uma história como essa da maneira honesta e apaixonante como você fez. E necessária coragem para publicá-la. Parabéns por compartilhar uma história linda e polêmica, abrindo os olhos da sociedade ao que realmente importa. Amor é a única coisa na vida inteira que nos trás felicidade.

E, por fim, eu gostaria de dedicar essa resenha ao Renato. Renato, você é "o cara". Através dos olhos do Marcus, eu também te amei em cada minuto, tanto nas horas de afeto quanto em todas as suas atitudes intempestivas. Então, essa resenha é pra você, cara.





|
Gostou?
6

[Resenha] Tesouro e Sedução - J.R.Ward como Jessica Bird

Posted by Marcinha on 7 de janeiro de 2014 19:34 in , ,

Olá, leitores e retalhenses!
Esse ano prometi-me que cada livro lido ganhará um resenha que será devidamente publicada neste blog. Então, vamos a primeira leitura terminada este ano.


Este livro ganhei da Paty (Obrigada, Paty, amei!):




Foi meu primeiro contato com J.R. Ward, embora eu também possua os dois primeiros volumes da Irmandade da Adaga Negra mas ainda não os li.

Outro detalhe que desejo ressaltar é que leio pouco, de modo que, pode acontecer de algo que seja lugar comum para os demais leitores seja um deslumbre para mim.

Enfim, esta sou eu!

Dito isto, vamos a sinopse:

Ela é obcecada em desenterrar segredos do passado, mas o que descobrirá é mais valioso que ouro... A arqueóloga Carter Wessex é atraída para a Montanha Farrell com o objetivo de resolver um mistério secular, e acaba encontrando uma preciosa ossada. Mas uma coisa está em seu caminho: Nick Farrell, um sexy empresário que não tem paciência com os invasores de suas terras. Carter abandona o projeto... mas Nick continua sua perseguição. Carter logo é tragada para o mistério e para os braços de um homem que ela jurou nunca se apaixonar. Até que os segredos do ouro desaparecido se revelam, assim como os verdadeiros motivos de Nick. Será que tudo o que se passou entre eles foi apenas parte do plano? Quantos segredos mais ele escondeu dela?

E aqui temos mais um daqueles romances que nos faz suspirar... o destino leva nossa jovem e renomada arqueóloga Carter até a montanha que faz parte da imensa propriedade de Nick. Já no primeiro encontro temos um embate regado a teimosia e tensão sexual. Carter Wessex está determinada a escavar a montanha na propriedade de Nick, depois de ter recebido um pista controversa que indicava haver no local um promissor sítio arqueológico. Mas o bilionário bonitão detesta arqueólogos que pretendem escavar a "sua" montanha, que fica praticamente no quintal de sua mansão. Fazendo o melhor estilo "mulher-de-gênio-ruim", Carter bate de frente com o homem, deixando-o bastante interessado. Além do interesse pessoal, Carter pode servir como um peça valiosa para uma manobra que ele pretende realizar envolvendo muito dinheiro, empresas e vingança.

Até aí, o romance é tudo que podemos esperar deste gênero. Um homem e uma mulher sexys se sentem atraídos um pelo outro e as intrigas e desencontros pelo meio do caminho. Entretanto, o diferencial deste livro, é que cada elemento dele tem um tempero a mais.

Carter e Nick são humanos, completamente. São pessoas como eu e você, com desafetos familiares e traumas que os levam a enxergar as coisas de uma maneira bem distorcida de vez em quando. São pessoas que acabam omitindo o que deveria ser dito apenas por defesa, ou falam tudo o que não deveria ser dito num momento de medo ou nervosismo. São pessoas com uma bagagem de vida que os faz ser como são. Uma bagagem que se descortina aos nossos olhos, a medida que vamos lendo e tentando compreender estes dois, ao mesmo tempo em que eles tentam compreender a si mesmos.

E, além de um amor arrebatador, existem amores de todos os tipos nesse livro. Nick, apesar de fazer o tipo solitário, tem em Cort (seu sobrinho), Gertie e Ivan (dois antigos empregados da casa) uma verdadeira família. Pelo seu lado, Carter conta com Buddy, seu parceiro de escavação e amigo de longa data, um cara mais fiel e amoroso que o melhor dos irmãos. Todos são personagens cativantes e ativos, em uma trama que não estaria completa sem a presença deles.

Por fim, meu parecer é de que este é um livro envolvente, de fácil leitura. Pra arrematar possui algumas histórias incidentais que merecem ser destacadas, como as memórias do anel da avó de Nick e a lenda de Red Hawk (faço questão de deixá-lo curioso, leitor!). São facetas que acrescentam um charme a mais à história.

Só posso dizer que adorei o livro... é o tipo de história que, num futuro, lerei novamente.

Recomendo totalmente!




|
Gostou?
6

[Batata Quente 3 - Parte 6] - As Crônicas de San Atório - Capítulo seis: "Muito o que Explicar"

Posted by Marcinha on 23 de dezembro de 2013 12:15 in , , ,
Recapitulando as partes anteriores da história:

Parte 1 + explicação da brincadeira - "As Crônicas de SanAtório - Na taberna do Fauno"(by Sammy)

Parte 2: "Encontros e Caminhos" (by Marcinha)

Parte 3: "Um bofe no caminho" (by Paty)

Parte 4: "O Sexto Elemento" (by Nanda)

Parte 5: "O Paladino do Mal" (by Sammy)

Muito o que Explicar


- Quem diabos estava de guarda quando aquele bastardo fugiu? - rosnou Martha, com sua habitual acidez bastante aumentada pela manhã - Ahhhhhh, esquece! Ele já se foi mesmo!

- Fui eu, guerreira, e peço perdão a todas pela minha falha. - afirmou o arqueiro - Ainda estou enfraquecido pela mutilação que sofri, e devo ter cochilado.

- Até onde me consta o único mutilado foi Bjartan... - retorquiu a guerreira, inclinando a cabeça com uma expressão de total desconfiança - O que vimos em você foram cortes nas costas, profundos até... Quer explicar sua afirmação, Halt?

- Eu me expressei mal. - revidou o arqueiro, com visível reserva - Era aos cortes que me referia. - afirmou, olhando disfarçadamente para Nardanna, tentando avaliar a expressão dela.

Nardanna, Santhara e Pethrika nada disseram, entretanto compartilharam da desconfiança de Martha. Especialmente Nardanna sentiu um aperto no peito; nutria uma súbito afeto pelo arqueiro recém chegado ao grupo, mas a lógica lhe indicava que o deslise de Halt com as palavras tinha raízes mais profundas que uma simples confusão momentânea.

O silêncio permaneceu por algum tempo, trazendo certa tensão ao grupo.

Foi Martha que falou novamente.

- Creio que esta não seja a melhor hora para explicarmos tudo o que certamente há para explicar. No momento nosso problema maior é o fato de Bjartan ter fugido sem conseguir seu intento, o que o fará voltar, sem dúvida. Teremos tempo de conversar sobre parentes desaparecidos quando estivermos em lugar seguro. - A guerreira lançou um olhar mordaz para a ruiva - E quando chegarmos lá, onde quer que seja, você terá muito o que explicar, Santhara.

A ruiva simplesmente apertou os lábios, numa demonstração de que seria quase impossível arrancar-lhe qualquer informação sobre o filho que ela protegia a todo custo.

- Posso levá-las ao Rei de San Atório. - interferiu Halt, subitamente - É o mínimo que posso fazer, para agradecer pelo meu resgate e compensá-las pelo mal que fiz perdendo nosso prisioneiro. Tenho as graças do Rei em pessoa, que as tomará em sua proteção particular, certamente, depois de meu pedido. Espero, de coração, que aceitem meu convite e a proteção que posso conseguir.

Martha arqueou a sobrancelha e correu o olhar pelas outras mulheres, tentando sondar-lhes a opinião.

- É nossa melhor chance no momento. - manifestou-se Nardanna.

- Danna... sinto um péssimo presságio. - sussurrou Pethrika para sua parceira - Não podemos simplesmente voltar à nossa rotina? Acho que é hora de dissolvermos o grupo. - sugeriu, recorrendo a lógica fundamental.

- Não é assim que funciona, Pet. - retorquiu Nardanna com doçura - Bjardan nos conhece a todas agora. Quem garante que não usará qualquer uma de nós para chegar à Santhara no futuro?

- Concordo com Nardanna. -  endossou Halt, recebendo uma olhar tão venenoso de Martha que optou por calar-se, entes que terminasse por responder à guerreira com o mesmo tom de hostilidade
.
- Eu aceito de bom grado a proteção do Rei, Halt. - interrompeu Santhara - Afinal o alvo sou eu. Espero que sob os muros do Rei estejamos todas seguras.

- Garanto que estarão. - assentiu o arqueiro - O Cidade Real é protegida por incontáveis tipos de magia e um numeroso e bravo exército.

- Vamos com ele, Pet? - insistiu Nardanna.

- Vamos, Danna. Você está certa. - concordou a maga.

- Está decidido, então. - manifestou-se Martha, quando as outras a olharam em dúvida - Irei onde meu grupo for.

- Coloquemo-nos em marcha, então. - sentenciou o arqueiro.

Em pouco tempo haviam recolhido tudo o que usaram no acampamento e cavalgavam rumo ao seu novo destino. Audaz, sendo o mais robusto dentre os animais, era montado por Martha que levava Santhara na garupa. Pethrika montava Safira, e carregava parte dos pertences da guerreira, para aliviar a carga do cavalo negro. Halt havia recebido Legolas para montar, e diminuía bastante a marcha, argumentando que não estava acostumado àquela montaria. Mas era óbvio que sua intenção era emparelhar com Palermo e fazer companhia a Nardanna no fim da fila.






Bjartan materializou-se no alto de uma torre que parecia abandonada. O cheiro no interior do aposento mais alto era nauseante, mas ele aguentou firme. Mesmo profundamente mutilado, ele permanecia de pé, o mais altivo que seu corpo sem forças poderia aguentar. Nunca demonstrava fraqueza diante de sua Mestra.

A bruxa olhou com desprezo para Bjartan, ensanguentado e pálido como estava. Gritou; um grito esganiçado e pavoroso, enquanto derrubava de cima do altar de pedra à sua frente toas as feitiçarias nas quais vinha trabalhando. Um rastro de ossos de animais e sangue se estendeu pela superfície de pedra, enquanto os encantamentos espalhavam-se pelo chão do aposento arruinado. Ela gesticulou de modo insano, e os olhos arregalados emprestavam uma expressão louca ao rosto antigo e enrugado. Gritou com ele novamente, crispando os dedos nodosos, enquanto arrastava a barra do manto esfarrapado pelo assoalho imundo à medida que caminhava.

- Energúmeno! Incompetente! Maldito! Não faz nada direito! - gritou a velha bruxa, esbofeteando-o com os dedos magros como os de uma múmia.

- Falhei... perdão... - ele sussurrou humildemente; a perda de sangue e o esforço da fuga o haviam quase exaurido - Ajude-me... estou fraco...

- Vou recuperá-lo, meu servo... para que termine o serviço que deixou para trás. Para sua sorte, consegui recentemente o que preciso para fazer a poção que salvará sua vida inútil. Não se encontram chifres de fauno todos os dias, como deve saber. - e, tendo afirmado isso, deu uma risada maléfica
.
O som do riso de escárnio se espalhou pela torre... os olhos de Bjartan vasculharam os arredores e notaram uma silhueta conhecia presa por correntes à parede, com o corpo pendente e a cabeça baixa na escuridão do canto isolado. Já havia sido sangrado, e um pedaço de um dos seus chifres já fora removido, assim como boa parte dos pelos de seu cavanhaque e cauda. Silvicha parecia desmaiado naquele momento.






As quatro montarias e seus cinco ocupantes pararam, a beira de uma encosta de onde se podia ver a Cidade do Rei. As amuradas sussessivas abrigavam inúmeras construções e torres, em camadas cada vez mais altas, até a construção maior do cume da cidade, onde se encontrava o salão do Rei. Era um bela visão; a cidade de pedra clara brilhava levemente dourada sob a intensidade do sol. Sem dúvida alguma, a vista valia a parada momentânea que fizeram para contemplá-la.

Halt e Nardanna se entreolharam, com um sorriso espontâneo. Havia orgulho no olhar dele, orgulho por poder mostrar a mulher que ele julgava única o lugar onde ele morava, mostra-lhe seu mundo. Desde o primeiro momento em que pousara seu olhar naqueles enormes olhos castanhos da arqueira, tinha sido como se algo dentro dele despertasse imediatamente. Não sabia o que era, e estava longe de ser uma paixão súbita e superficial. Era algo que vinha... do fundo de sua alma.

Nardanna baixou a cabeça e focou novamente o a Cidade do Rei. Apenas focou, pois na verdade nem a estava vendo. Sua mente trabalhava sem descanso, tentando entender a confusão de sentimentos dentro dela. Sentia uma confiança inabalável em Halt, esse homem que mal conhecia. Achava que tinham afinidade por que ambos eram arqueiros, e por que possuiam tantas coisas em comum de que gostavam, como descobriram na noite em que caçaram juntos. Mas havia algo mais. Mais intenso, mais profundo... e mais perigoso. Por nada deste mundo Nardanna permitira-se alguma vez aproximar-se de alguém, e depositar sua confiança tão prematuramente. Mas , em se tratando de Halt, algo naqueles olhos de aparência sábia parecia falar ao fundo da sua alma...

Sem aviso, o local onde estavam foi coberto por uma densa sombra, enquanto a Cidade à frente prosseguia iluminada pelo sol. Os cinco pares de olhos atentos voltaram-se para o céu simultaneamente. Nuvens sombrias se formavam velozmente e não eram nuvens naturais, com toda a certeza. Pareciam serpentes enfumaçadas, desenhando espirais enquanto se aproximavam, com sua cor cinza doentia. As serpentes de nuvens se espalhavam pelo céu, evoluindo rapidamente, e terminaram por formar um símbolo no firmamento. Era uma runa única e amaldiçoada, conhecida de Santhara.

- É Bjartan! Corram! - gritou a ruiva, enquanto a cor lhe sumia do rosto.

- Para a Cidade! - ordenou Halt, atiçando as montarias e pondo as mulheres em movimento.

O arqueiro murmurou uma palavra antiga e desceu a palma da mão com toda a força sobre o lombo de Palermo. A lhama soltou um resmungo que não lhe era comum, e disparou com Nardanna ladeira abaixo, rumo à entrada da cidade. Atrás dela, seguiram os outros, tirando a maior velocidade que podiam de suas montarias, fugindo do mal que os perseguia.

O céu se tornava cada vez mais coberto pelas serpentes escuras, que pareciam já quase sólidas. Sem aviso, partes delas começaram a tocar o chão, parecendo cometas que caíam, deixando crateras do tamanho de um homem onde atingiam o solo. As mulheres gritaram, em pânico, quanto atiçavam ainda mais suas montarias.

- Cavalguem e zigue-zague! - gritou Martha - Desviem!

Todas passaram a oscilar no trajeto, muitas vezes quase se chocando umas às outras em meio ao desespero da fuga. Palermo continuava a liderar o grupo, como se o próprio Pégasus tivesse se apossado de seu corpo. Cobrindo a retaguarda vinha Halt, cavalgando Legolas enquanto sussurrava palavras de poder e vigiava de perto as mulheres que tomara sob sua responsabilidade. À volta deles, os tentáculos nebulosos continuavam a vir do céu, golpeando o chão, por vezes perto demais.

Ao final da evocação de Halt, uma luz se fez acima deles, como um globo luminoso. A luminosidade conjurada se espalhou, intimidando temporariamente as serpentes maléficas no céu. A bola de luz também foi percebida pelos guardas nas ameias da murada da Cidade. O portão elevadiço começo a se abrir lenta e firmemente.

Sem diminuir a marcha, os cinco passaram pelo portão da cidade a todo o galope. Imediatamente o portão começou a se fechar, mas eles já estavam a salvo. Podiam ver a barreira invisível de magia que cobria toda a cidade, repelindo o mal que os perseguia, fazendo-o recuar.

Halt saltou de Legolas com agilidade, entregando-o a um sentinela que corria em sua direção, e dando instruções ao homem para que desse descanso e alimentação aos animais exaustos. Palermo parecia a ponto de desfalecer, com as narinas dilatando-se aceleradamente. Halt passou a mão pela fronte da lhama antes que o sentinela a levasse, e o animal pareceu imediatamente um pouco mais confortável.






Halt levou as mulheres à presença do Rei. Explicou tudo o que havia acontecido desde que elas o haviam encontrado desacordado no rio, o resgatado e curado. O rei ouvia a tudo, consternado. Agradeceu às mulheres com sinceridade por tudo o que haviam feito por Halt, e lhes ofereceu abrigo e proteção enquanto precisassem. As mulheres agradeceram e aceitaram.

Então o rei voltou-se para Halt, com uma voz sombria e pesarosa.
- Quem foi o maldito que o mutilou?
- Podemos falar mais tarde, meu senhor? - retorquiu Halt imediatamente, e o Rei entendeu que as mulheres de nada sabiam.






Quando Martha, Santhara e Pethrika já estavam acomodadas nos aposentos que foram destinados para elas, Halt levou Nardanna até seu aposento particular. Embora isso fosse algo que Nardanna jamais fazia, a confiança que sentia naquele homem não a deixava ter dúvidas cada vez que ele propunha algo.

Eles cruzaram a pesada porta de madeira que dava para o quarto onde Halt vivia. Nardanna ficou boquiaberta com a paz que o lugar exalava. Haviam arcos de vários formatos em uma das paredes, que poderia ser definida como "a parede das armas". Mas, tirando este detalhe, tudo o mais era claro, limpo e cheio de sutis obras de arte. Havia um quadro a óleo na cabeceira da espaçosa cama que retratava um anjo em pleno vôo, com sandálias trançadas nos tornozelos e um esvoaçante manto branco. Na pintura, os braços do ser celestial pareciam retesar um arco, embora o ser alado não segurassem arma alguma.

Halt pediu licença por um momento, para buscar algo que pudessem comer. Saiu deixando Nardanna só em seu quarto.

A arqueira começou a vagar pelo aposento, investigando com curiosidade os objetos pessoais do homem que ela aprendera em pouco tempo a admirar. Olhou para os inúmeros livros e pergaminhos, que jaziam em uma estante abarrotada deles. Viu esculturas em formas de asas e várias medalhas, provavelmente concedidas pelo Rei.

Então viu algo que fez seu coração diminuir dentro do peito.

Havia uma boneca de pano no canto do quarto, uma diminuta boneca imunda de terra, com parte de seus cabelos de lã arrancados e as pernas chamuscadas e enegrecidas. Uma pontada de dor aguda atingiu-a de imediato, e ela levou a mão a testa, tentando conter a dor e as lembranças.

Havia fogo. Havia cavalos; homens montados cavalgavam em círculos em torno dela e traziam tochas acesas nas mãos enquanto gritavam uns para os outros. Ela e um menino se abraçavam no chão. Ela era uma criança, suja e apavorada, em meio ao ataque repentino e brutal que seu vilarejo sofria. O menino se agarrava a ela, e a pequena Nardanna abraçava sua boneca mais querida, tentando protege-la dos homens malvados. Ouviu a voz de sua mãe gritando seu nome. Sentiu-se ser levantada pelos braços maternos no instante em que um dos malfeitores agarrava o menino que a abraçava. A mãe conseguiu agarrá-la e correr com ela para a mata. O menino tentara agarrar-se a ela, à pequena Nardanna, mas conseguira pegar apenas a boneca. Nardanna chutava e se debatia na colo da mãe, enquanto via o menino carregado à força por um dos invasores, agarrando com força sua boneca mais querida.

Exatamente a mesma boneca que acabara de encontrar no quarto de Halt.



|
Gostou?
4

#Tag "Se Eu Fosse..." by Marcinha

Posted by Marcinha on 2 de dezembro de 2013 21:24 in , ,


Achei interessante a Tag postada pela nossa Sammy Freitas, como vocês podem conferir aqui: #Tag: Se eu fosse....
Abaixo, compartilho as minhas respostas...
Quem mais quer entrar na brincadeira?

Se eu fosse um mês: janeiro (um novo começo, sempre)
Se eu fosse um dia da semana: domingo (dia ideal pra relaxar)
Se eu fosse uma hora do dia: 6h (amo ver o sol nascendo e aquela luz relaxante da manhã)
Se eu fosse uma estação do ano: primavera (o recomeço dos ciclos)
Se eu fosse um planeta: Marte (planeta vermelho!!)
Se eu fosse uma direção: Norte (me atrai, por alguma razão)
Se eu fosse um móvel: mesa de jantar (é onde nos reunimos com aqueles que amamos)
Se eu fosse um pecado: Luxúria (ram-ram... acho que não vou explicar esse pequeno vício..)
Se eu fosse um sentido: olfato (muitas vezes o cheiro revela o que os olhos não conseguem ver)
Se eu fosse uma pedra: pedra brita nº 1 - pedra de obra  (não tem nada de especial, mas é a base do concreto)
Se eu fosse uma planta: cacto (tem espinhos, mas o líquido no interior pode matar sua sede, quando se está no deserto)
Se eu fosse uma flor: orquídea (reza a lenda que a orquídea foi criada pelo diabo, pra superar a beleza da rosa, criada por Deus - essa lenda me fascina por alguma estranha razão)
Se eu fosse um clima: tropical (o mais propício a que tudo floresça a sua volta)
Se eu fosse um prato: salmão grelhado (aquela carne gordinha que faz bem à sua saúde!)
Se eu fosse um instrumento musical: saxofone (melancólico, pungente e sexy)
Se eu fosse um elemento: fogo (pode aquecer ou destruir)
Se eu fosse uma cor: negro (forte e sóbrio)
Se eu fosse um animal: cachorro (lealdade, é o que mais importa)
Se eu fosse um som: seria uma gargalhada, daquelas que contagia
Se eu fosse uma música: Brigde Over Troubled Water - Elvis Presley (uma mensagem de companheirismo)
Se eu fosse um sentimento: perseverança (ou teimosia)
Se eu fosse um lugar: a selva (densa, e cheia de vida e de mistérios em seu interior)
Se eu fosse um sabor: pimenta (se agrega a outros sabores, dando um toque especial)
Se eu fosse uma palavra: obrigada (agradecer e reconhecer o esforço alheio, sempre)
Se eu fosse um objeto: motor V8 (muita força e muito barulho, com um que de encantamento)
Se eu fosse uma parte do corpo: mãos (acariciam, cuidam, preparam alimentos, desenham, escrevem, levam "pela mão" quem precisa ser guiado...)
Se eu fosse um número: 8 (o formato me remete sempre ao símbolo do infinito)
Se eu fosse um símbolo: coração (o amor é o sentimento mais forte em mim, e o que eu mais tento compartilhar)



|
Gostou?
4

Crônicas de San Atório em HQ (HQ de R$1,99)

Posted by Marcinha on 5 de novembro de 2013 11:41 in , , ,
Olá gente!
Um idéia louca me passou pela cabeça hoje e pus em prática rapidamente, só pra não perder a piada! rss..

(clique na imagem para ampliar)

Nanda, eu não queria revelar seu segredo... hahahahahahahahahaha...
Beijos!



|
Gostou?
4

RESENHA: "O Beijo Escarlate" por Marcinha

Posted by Marcinha on 3 de novembro de 2013 06:00 in , , , ,
O Beijo Escarlate é o segundo livro da Série Midnigth Breed de Lara Adrian. A resenha de três outros volumes desta mesma série podem ser conferidos nos links abaixo:

"O Beijo da Meia Noite" (volume 1) - por Marcinha

"O Despertar da Meia-Noite" (volume 3) - por Nanda Cris

"A Ascenção da Meia-Noite" (volume 4) - por Nanda Cris


O Beijo Escarlate é o segundo volume da Série Midnight Breed, que conta a história da Raça. O termo Raça se refere à Raça dos vampiros, originada do cruzamento entre seus antepassados extraterrestes e algumas raras humanas especias, conhecidas como as Companheiras da Raça. Apenas essas humanas, que podem ser reconhecidas por uma característica marca de nascença, conseguem gerar filhos dos vampiros, e estes sempre nascem machos. Dessas uniões sobrevive a Raça, em abrigos onde vivem todos os vampiros Civis ou no quartel general onde residem os membros da Ordem, os vampiros guerreiros guardiões da própria Raça e dos humanos que desconhecem a existência dos vampiros com os quais convivem. Esse anonimato dos vampiros me fez lembrar a trama do RPG Vampiro - A Máscara.

Vamos à sinopse deste volume:

"Unidos pelo sangue e por sombrios segredos, eles mergulham em um mundo repleto de perigos e prazer intermináveis.

Tess Culver é uma sensual veterinária que se envolve com um desconhecido ao tentar salvá-lo. Ela luta pela vida de Dante que não é realmente um homem, e sim um dos guerreiros da Raça dos vampiros, que estão envolvidos em uma batalha desesperada. Em um momento único repleto de sensualidade, Tess invade seu mundo – um lugar obscuro em que gangues de vampiros renegados espreitam pela noite, causando terror por onde passam.

Aterrorizado por visões de um futuro sombrio, Dante vive e luta como se não houvesse amanhã. Tess é um contratempo de que ele não precisa – mas agora, com seus irmãos sob ataque, Dante deve protegê-la de uma ameaça crescente que inclui ele mesmo. Pois, com um beijo imprudente e irresistível, Tess se torna parte importante de seu reino no submundo. Ligados por um vínculo de sangue, Dante e Tess precisam se unir para acabar com inimigos letais, enquanto descobrem uma paixão que transcende às próprias fronteiras da vida."

Neste segundo volume já há uma guerra claramente se formando entre a Ordem e os Renegados. A facção conhecida como Renegados é o lado obscuro de Raça, vampiros que se deixaram dominar pela besta interna, cedendo à Sede de Sangue e sendo dominados por ela. São viciados em sangue. Assassinos. Perseguidos e combatidos pela Ordem, eles resistem e retaliam, organizados sob o comando de um obstinado vampiro de primeira geração que engrendra sombrios planos para multiplicar rapidamente o seu exército.

Nesse cenário temos o guerreiro Dante e veterinária Tess, e a paixão avassaladora que se desenrola entre eles, sob a qual a sinopse já contou bastante. Existem cenas bem hot durante o livro, como não poderia deixar de ser, dada a deliciosa e incansável libido destes deuses vampíricos com dois metros de altura.

Roubando a cena, há um saga paralela sobre um vampiro civil chamado Sterling Chase, que se une à Ordem em caráter temporário a fim de combater a nova ameaça imposta pelos Renegados. Chase tem toda uma história paralela, seus próprios problemas e motivações para lutar nessa guerra, e eu achei esse permear de tramas um dos pontos altos do livro.

Em contrapartida, achei que a saga de Dante e Tess deixou a desejar em originalidade, pois ela recria exatamente os mesmo passos de Lucan e Gabrielle (os mesmos desencontros, conflitos, perigos, personagens paralelos envolvidos) deixando que toda a trama do livro dois se pareça demais com o livro um. Em certo ponto a trama já está tão repetida e previsível que cheguei a achá-la enjoativa.

Mas, continuei lendo sem parar, por que a leitura é leve e rápida. E cada vez que Dante revelava suas pupilas fendidas  imersas nas íris cor de âmbar, seus caninos se alongando nas gengivas e se apossava de Tess repentindo efusivamente que ela lhe pertencia, meu coração acelerava concordando que a leitura valia a pena. ;)





|
Gostou?
5

RESENHA: "O Vampiro Lestat" por Marcinha

Posted by Marcinha on 2 de novembro de 2013 19:21 in , , ,
"O Vampiro Lestat" (publicado em 1985) é o segundo livro da série "As Crônicas Vampirescas" de Anne Rice. Esse volume dá continuidade ao livro "Entrevista Com o Vampiro", embora a maioria dos fatos narrados se refira a uma época anterior ao relato de Louis.


Sua sinopse:

"Lestat, o herói sombrio deste intrigante romance de Anne Rice, é uma criatura de sombria e rica imaginação. Um aristocrata na absolutista e tumultuada França pré-revolucionária, ele atravessa os séculos para se tornar um demoníaco idólo do rock'n'roll no final do século XX, sempre em busca de seus semelhantes e das respostas para o mistério de sua maldição. É uma história poética, desesperada e apaixonante, elaborada por uma escritora de complexa criatividade e desafiadora imaginação."

Neste volume, Lestat nos narra em retrospecto todos os acontecimentos marcantes de sua vida, antes, durante e após a transformação em Vampiro. Durante a narrativa começamos  a entender por que ele é um vampiro tão singular: ele já o era quando mortal. Existem fatos de sua adolescência mortal que mostram a face sensível, corajosa e obstinada  de Lestat  de Lioncurt, que chegam a ser tão emocionantes quanto sua vida vampiresca.

Sonhador, impetuoso e por muitas vezes inconsequente, Lestat traça uma rápida trajetória mental atrás de tudo o que deseja, realizando tudo que sua mente lhe sujere ainda que seja o mais insano pensamento. Assim, ele atravessa os séculos lidando com suas paixões e suas perdas, e com as consequências de suas próprias escolhas. E, mais do que procurar respostas, Lestat trava um incansável luta para encontrar o que é mais importante para ele: amor.

Enquanto em "Entrevista com o Vampiro" nutrimos inúmeras perguntas, neste segundo volume obtemos junto com Lestat respostas a várias indagações sobre a origem dos vampiros e seu mundo, e conhecemos outros de sua espécie, cada vampiro com sua pesonalidade própria e seus demônios internos.

Longe de serem vampiros-super-heróis-certos-de-seu-lugar-no-mundo, os personagens de Anne Rice são cheios de questionamentos, e tentam lidar com o mundo ao seu redor da mesma forma com que lidam com suas próprias características monstruosas. São vampiros realísticos, cheios de nossas mesmas paixões, sonhos e incertezas mortais, que para eles são tão intensos quanto seus poderes sobre-humanos.

Em última análise, um livro intenso, com tanto sentimento quanto aventura, que vale a pena ser lido. Anne Rice mostrou mais uma vez neste volume, por que é considerada a mãe da única linhagem "verdadeira" de vampiros contemporâneos.



|
Gostou?
8

Desafio de Halloween by Marcinha

Posted by Marcinha on 31 de outubro de 2013 06:00 in , , , , , ,
Olá leitores e Retalhenses!
Fizemos um espécie de sorteio entre as autoras do blog, para que cada uma de nós fosse desafiada por uma companheira. E minha desafiante foi a Paty Deuner! As cinco palavras com as quais ela me desafiou foram:

trambiqueira 
jumento
algar 
vassoura
ora-pro-nobis

A titulo de explicação (pois eu não sabia, e calculo que meu leitor também possa não saber), algar é um espécie de cova profunda, um abismo, um cratera (http://www.dicionarioinformal.com.br/algar/) e ora-pro-nobis é um erva, muito usada na culinária mineira ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Ora-pro-nobis).

Obrigada, Paty, querida! Pelo desafio e pela ajuda com as palavrinhas difíceis!

E... vamos ao texto!


Má Sorte

Sentada sobre uma sepultura, vestindo uma fantasia improvisada para a Noite das Bruxas, ela se sentia simplesmente ridícula. Há muito reivindicava à família um tempo só para si, para fugir da rotinha, algumas poucas horas para ser apenas Dilza Tomazoni... na verdade para resgatar quem era ela. Sentia-se tão perdida, soterrada em sua rotina de cuidados e responsabilidades com os outros que julgava não mais saber quem ela era, nem do que ainda gostava. Escolhera a noite do Dia das Bruxas para se dar o direito a um pouco de divertimento, como boa fã de Anne Rice e Tim Burton e de toda atmosfera gótica. Mas seu intento não estava dando muito certo.

Suspirou enquanto olhava novamente para o vestido negro, o chapéu pontudo de cartolina que improvisara e a vassoura de piaçava que trazia consigo. Naqueles trajes já saiu de casa sentindo-se tão envergonhada que não chegara muito longe. E lá estava agora, sentada no cemitério, meditando entre a possibilidade de voltar derrotada para casa ou esperar por ali e ver se algo acontecia. Se um grupo de jovens aparecesse por lá e resolvesse fazer uma pequena bagunça ali perto, ela pelo menos veria algo e sua noite não seria totalmente em vão. 

"Um grupo de jovens", pensou com amargura. Só depois de formular esse pensamento, se dera conta do quanto um grupo de jovens era algo tão distante para ela. "Eu só tenho 22 anos", refletiu. "Quando me tornei velha dessa forma como me sinto agora?"

Pensou no marido, e no quanto ele havia mudado no pouco tempo juntos. De um parceiro atencioso e solícito, ele se transformara em alguém distante, quase um estranho, por vezes até cruel. Pensou em seu bebê, uma inocente alma dependente dela, mas que colaborava em muito para o estresse que já sentia. Pensou nos pais, dos quais sempre esperava um mínimo de aprovação, embora recebesse apenas reprimendas e críticas. Sentiu o peso da incompreensão, da falta de condescendência e colaboração, da falta até mesmo de uma palavra amiga. Sentiu os olhos arderem, no momento em que lutava para conter as primeiras lágrimas. 

Olhou em volta, tentando se distrair. Reparou pela primeira vez que, de uma árvore um pouco distante, um líquido escorria como seiva e brilhava refletindo a pouca luz da noite. As várias gotas reluziam como pequenos diamantes, de modo tão insistente para a pouca luz do local, que ela terminou por se levantar para olhar mais de perto. Examinou os entalhes no tronco, de onde a seiva escorria. Era uma inscrição, entalhada com uma lâmina, talvez um canivete. Parecia recente, e era óbvio que se tratava de uma travessura de Dia das Bruxas. A quadrinha, bastante pueril, dizia:

"Que a má sorte me abençoe!", três vezes repita;
Na Noite das Bruxas, se o medo, antes, vencer.
Se invocada três vezes, mesmo por quem não acredita,
Sua demônia-madrinha há de aparecer.

Olhou em volta, na vã esperança de ainda encontrar o adolescente que grafara aquelas letras. "Que bobeira", falou para si mesma. Mas já começava a rir com os devaneios que passavam por sua mente. "Um conto de fadas gótico; já pensou? Uma fada madrinha perversa, com um tridente e chifres. E que desejos concederia? Algo profano, com certeza. Que idéia absurda."

Releu a mensagem e, num ímpeto, resolveu que faria uma loucura. Sim, queria fazer uma loucura! Faria a invocação, três vezes. Ou nada aconteceria e ela riria a valer, ou então estaria ferrada de verdade.

- Que a má sorte me abençoe! Que a má sorte me abençoe!! Que a má soooorte me abençoeeee!!! - gritou para cemitério, a plenos pulmões.

Nada aconteceu.

Esperou um pouco mais, sentindo-se quase tonta pelo que acabara de fazer. Seu coração estava acelerado, e sua mente oscilava entre o alívio e a decepção.

Encarando a árvore, releu a mensagem mais duas vezes, como se tentasse entender o que dera errado. Mas quando percebeu seu pensamento, sentiu-se uma perfeita idiota. Virou-se num rompante para ir embora, e quase colidiu com uma mulher alta que estava de pé silenciosamente atrás dela.

- Olá, meu bem. - saudou-a a estranha.

Dilza recuou tão rápido que bateu de costas na árvore, e ali ficou paralisada a apenas dois passos da mulher. Sentia-se congelar de medo, enquanto avaliava a intrusa à sua frente. Além de alta, tinha um corpo sólido, e vestia preto da cabeça aos pés. Cabelos negros e muito lisos lhe escorriam pelos ombros e cessavam abaixo da cintura. Tinha um sorriso convidativo, mas seus olhos não sorriam... ao contrário, perscrutavam Dilza com a astúcia de um felino. Apesar do tom de voz amistoso que a recém chegada usara, havia uma advertência pungente em seu coração.

- Quem é você? - foi uma pergunta-clichê, mas num momento de total desamparo, não lhe ocorrera nada melhor.

A mulher de cabelos negros apontou para a árvore atrás dela, como se a resposta fosse óbvia. Sorrindo, afirmou:

- Sou sua demônia-madrinha.

- Xessuisss... 

- Bem, se era esse que você esperava, devia ter usado outra invocação. - comentou, enquanto conferia a aparência das próprias unhas de modo displicente. - Mas, vamos ao que interessa. Em que posso ajudá-la, meu bem?

- Em nada! Eu... eu não preciso de ajuda. Está tudo perfeito na minha vida! Além do mais... - ela tomou coragem, e disse num só fôlego - Não acredito que seja quem diz.

- Meu amor, eu não estaria em um cemitério na noite do Halloween, aproximando-me de você como uma autêntica aparição, se eu fosse apenas uma trambiqueira. Concorda comigo?

Dilza chegou a abrir a boca para dizer algo por duas vezes, mas não tinha argumentos. E começava a sentir medo de verdade.

- Escute, eu preciso ir. Está tarde...

- Me diga como está sua vida "perfeita", e eu a deixo ir. Aliás, eu adorei a ênfase, foi muito convincente. - satirizou a demônia.

- Por favor... - ela implorou - Eu preciso ir. Meu marido vai ficar uma fera se eu demorar demais...

- Aquele jumento pode perfeitamente tomar conta de um bebê que dorme como um anjo por alguns minutos a mais. Seu bebê está dormindo a sono solto agora e seu marido está navegando no computador, aparentemente calminho e bem entretido por sinal. Sim, eu posso vê-los, e estou lhe dando minha palavra sobrenatural de que está tudo bem na sua casa. Agora, me conte.

- Não quero lhe contar nada. - Dilza afirmou, a voz baixa como um lamento, as lágrimas começando a irromper novamente.

- Mas precisa. - a demônia abaixou o tronco levemente, para que seus olhos ficassem na altura do olhar de Dilza, e a segurou de leve pelos braços, como se conversasse com uma criança - Você me invocou em um momento de angústia, imersa em tanto pesar que "fazer uma loucura" parecia valer a pena. Você pediu ajuda. Deixe-me ajudá-la. - a demônia se ergueu novamente, e a enlaçou pelos ombros, trazendo-a para si num abraço protetor. - Eu quero ajudá-la. Deixe-me ajudá-la.

Dilza abraçou de volta a mulher que a acolhia da forma como ela tanto precisava. As lágrimas rolavam enquanto ela contava por alto sobre alguns dos problemas mais brandos com seus pais e com seu marido. Achou que contar apenas um pouco, sem devassar tanto a sua intimidade, seria o bastante para que a misteriosa mulher parasse de insistir. Mas, uma vez tendo começado seu relato, foi como se uma represa se rompesse.  A pobre jovem falava sem parar, contando várias histórias dolorosas para ela, enquanto o choro só aumentava e aumentava. Houve um momento em que as palavras não podiam mais ser entendidas, e ela chorava emitindo um som contínuo, quase como se uivasse de dor. Engasgou-se algumas vezes, de tão estrangulada que estava a garganta, por toda a mágoa que a oprimia. Então passou um bom tempo calada, apenas soluçando em meio ao seu choro convulsivo, abraçada àquela mulher alta como se agarrasse sua tábua de salvação. A demônia apenas a acalentou, afagando os cabelos loiros e curtos da jovem mulher em seus braços... esperando.

Quando finalmente Dilza pareceu se acalmar, a demônia segurou seu rosto entre as mãos, um rosto vermelho que mais parecia o de uma boneca de porcelana recém-cozida. Secou-lhe as lágrimas e beijou os olhos inchados pelo choro com delicadeza.

- Eu posso te ajudar. Eu posso realmente te ajudar, e você verá que os problemas com aqueles que você ama serão todos resolvidos. Eu só preciso que você peça. Diga que quer a minha ajuda, meu bem. Você só precisa dizer.

Dilza estava completamente consciente de tudo o que acontecia. A demônia não a encantara, apenas a convencera com palavras e afeto. Tudo o mais se esvaziava de sua mente, como se fossem coisas tão distantes. "Todos os problemas com aqueles que você ama serão resolvidos". Era tudo o que Dilza desejava, tudo o que fazia sentido naquele momento.

- Diga que quer que eu a ajude. - repetiu a demônia.

- Eu quero sua ajuda. - Dilza afirmou, sem pensar duas vezes.






A demônia tirou de um bolso um ramo de erva ainda verdejante que Dilza reconheceu como sendo ora-pro-nobis, e debulhou algumas folhas, macerando-as em seguida entre as palmas das mãos. Então, segurou um dos pulsos de Dilza e, com habilidade e rapidez, usou um anel para fazer um diminuto corte na pele da loira. Quando esta protestou, a demônia justificou-se, divertida: 

- Hoje é dia das Bruxas, e um pacto em grande estilo tem de ter sangue!

Então misturou algumas gotas do sangue de Dilza com as ervas maceradas. Usou a mistura para escrever dois X com a ponta do indicador, um na testa de Dilza, outro na sua própria. No momento seguinte a mistura de ervas e sangue desapareceu de suas testas e das mãos da demônia, sendo completamente absorvida pela pele.

- Está selado nosso pacto. A parte fundamental da magia já está em andamento, para resolver suas aflições. A segunda parte do pacto é que estarei sempre com você, lhe ajudando a resolver seus problemas com eles, para que tudo se resolva de uma maneira mais branda. Mas, de um modo ou de outro, nenhuma das pessoas que te afligem te incomodará por muito tempo.

Estas últimas frases foram preocupantes. Dilza começou a sentir o peso de sua imprudência, de ter aceitado ajuda sem saber exatamente em que termos essa ajuda viria. Estava completamente apreensiva quando perguntou, articulando as palavras lentamente:

- O que acontece a seguir? Que parte da magia já está em andamento? 

- Como poderei explicar? Bem, é simples. Estão todos amaldiçoados, condenados a morte a partir desse instante, todos aqueles que a fazem sofrer hoje e qualquer outro que vier a fazê-la sofrer no futuro. Terão apenas um ano de vida caso não parem de te atormentar.

Dilza caiu de joelhos no chão do cemitério, sem forças nem mesmo para respirar normalmente. Seu coração acelerara de tal maneira que ela pensou por um instante que fosse morrer. Sentia-se como estivesse se equilibrando na borda de um algar, e a tivessem empurrado em queda livre nesse momento.

- Como?... morrer... amaldiçoados... - a respiração se tornava cada vez mais curta e rápida - Eu vou perder todos? Todos vão morrer, é isso que está me dizendo?! - ela gritava agora, beirando a histeria.

- Ei! se acalme. - ordenou a demônia, de modo autoritário, tentando conter o crescente descontrole da jovem ofegante, jogada ao chão - A maldição é real, e isto já está feito. Mas é um plano B. O plano A é que você se entenda com eles nesse espaço de um ano. E nisso eu irei ajudá-la. Estarei sempre com você, e apenas você poderá me ver, eles não. Vou aconselhá-la momento a momento, em cada embate, em cada discussão. Juntas, faremos com que você se imponha, que trace limites, que argumente com eles de igual para igual. Se tiver sucesso nessa empreitada, eles respeitarão e amarão você, as brigas se transformarão em diálogos onde as pessoas conversam sem se agredir, reivindicam sem se acusarem, falam e não gritam, se solidarizam em vez de atribuir culpas.

- Eu não posso fazer isso. Eu não sei me impor. Eu não vou conseguir. - a loira balançava a cabeça em negativa, e chorava copiosamente, já derrotada por seu infortúnio.

- Vai conseguir se os ama, pois a sobrevivência deles agora depende inteiramente da sua mudança de atitude. - afirmou a demônia, muito séria - Ou vai se acovardar e se livrar do problema do modo mais fácil? Todos eles morrem e param de te aborrecer; não deixa de ser uma saída.

- Mas eu não quero que morram; eu os amo! – Dilza gritou, em desespero.

- Prove! - ordenou a demônia, e tinha um olhar tão severo que a fez calar-se - Prove que os ama e os quer. Lapide-se! Mude! Por eles! Por você mesma!

- Eu não sei fazer... não sei como...

- Eu vou te ajudar. - afirmou a demônia com plena convicção.

- Você jura?

- Eu juro, meu bem. Juro pelo meu coração negro e eterno. Vamos fazer isso dar certo.

Dilza pensou por um momento, ponderando se devia fazer uma última pergunta.

- Você os condenou a morte por que é uma demônia? Sente algum prazer em fazer isso?

- Condenei-os por que uma calamidade foi a única forma de tirar você da inércia. Você estava acomodada e conformada. Sentindo-se vítima das fatalidades, com pena de si mesma. Preciso fazê-la agir de modo tão intenso, por que não há tempo para pensar; um ano é um espaço curto de tempo para curar cicatrizes de vários anos. É tudo ou nada. Ou você se dedica a conservá-los, impondo a eles seu desejo de construir um relacionamento saudável, ou os perderá. É com você.

- Eu vou me dedicar.

- E eu desejo que você tenha sucesso. E farei tudo que puder por você, meu bem.

A demônia tomou a mão da loira e, de mãos dadas, elas caminharam para a casa de Dilza.






Dilza entrou em casa, com a demônia atrás de si, logo após esta ter repetido que não podia ser vista por mais ninguém. Avançou até a sala, onde o marido ainda navegava no computador, com vários lenços de papel usados e amassados ao seu lado.

- Aonde estava até essa hora?! - ele indagou rispidamente, e logo teve outra crise de tosse, que só cessou quando ele cuspiu mais um bocado de sangue em um novo lenço de papel - Você devia estar em casa, cuidando da sua família. Não vê que fiquei doente esta noite? Em vez de ter uma mulher em casa para cuidar de mim, você zanzava pela rua, negligenciando suas obrigações...

Dilza sentia o sangue inflamar dentro dela numa fração de segundo. Mas que droga, nunca tinha tempo pra si mesma, sem que fosse acusada e cobrada por isso. Começava a sentir-se injustiçada e diminuída, e já ia começar a protestar e chamá-lo de egoísta, e a chorar como de costume.

- Não grite e não se abale. - ordenou a demônia - Responda com calma e convicção, ok? Como você se sente? Diga a ele. Mas esqueça as mágoas. Argumente, converse. – sua expressão era de fé e encorajamento – Vá em frente.

Dilza olhou a demônia por um momento, o que para seu marido pareceu apenas um olhar perdido. Sentiu que pela primeira vez alguém apostava nela, de verdade. Então tomou fôlego e disse ao marido: 

- Bernardo, estamos todos cansados, eu e você. E você visivelmente precisa de descanso e cuidados agora. Vamos pra cama, sim? Por favor? Amanhã conversamos.

- Excelente. - encorajou-a a demônia.

Bernardo parecia atordoado, pois era a primeira vez que sua mulher se dirigia a ele nesse tom, firme e conciliador ao mesmo tempo. Chegou a pensar em retrucar, mas sentia as costas doerem pela tosse súbita e insistente que o castigara a noite toda. Resolveu apenas levantar-se em silêncio, e acompanhá-la até o quarto.

- Isso, amor, vamos dormir. - afirmou Dilza, enquanto o conduzia para o quarto, sentindo-se mais confiante. - Amanhã conversaremos. Aliás, amanhã teremos muita coisa mesmo o que conversar.



|
Gostou?
2

Desafio Muito Desafiante by Marcinha

Posted by Marcinha on 11 de outubro de 2013 06:00 in , , , , , ,
Olá, retalhenses e leitores!
Nossa Paty bolou um "desafio muito desafiante" para nós todas. Nele, partiríamos de um mesmo início, para desenvolver uma aventura pessoal, cada uma ao seu modo. Eis aqui de onde partimos:

“Uma viagem inesperada de trabalho foi requisitada, e você só teve tempo de juntar algumas coisas pessoais e seu inseparável livro, que nos últimos dias ocupava não só grande parte do seu tempo quanto também de sua mente. Era uma viagem curta para uma cidade do interior, então você não precisou se preocupar com aparências, e deixou-se relaxar sobre a poltrona reclinável enquanto absorvia com avidez a escrita inteligente e sedutora da autora. Quando se deu conta do tempo, o sol já se recolhia no horizonte traçando linhas alaranjadas sobre o verde da paisagem, e sua mente viajou por aquelas imagens... e de repente tudo ficou escuro. Você só sentiu uma forte fisgada na nuca e o som brusco de uma freada.”

Me apaguei à idéia do livro, e quis homenagear uma autora da qual sou fã; tive a pretenção mergulhar em seu universo e contar minha história permeada em sua magia. Quis exalar a atmosfera, os sentimentos, os dilemas, a sensualidade e a visão que encantam em seus muitos volumes publicados. Espero ter conseguido.

 Viagem Sombria


Depois de tanta correria, finalmente havia me acomodado na poltrona do ônibus de viagem. Jogara uns poucos pertences dentro de uma mochila; minha agenda, meus celulares, o livro que venho devorando nos últimos dias. Pretendia ficar fora apenas dois dias, o que seria mais do que suficiente para fazer o orçamento da personalização de três carros antigos de um único dono, em Paraty. A insistência do homem, seu entusiasmo por ter conhecido meu trabalho e a enorme bonificação em dinheiro que me oferecera apenas pela minha visita e orçamento me fizeram largar tudo e viajar.

Recostei-me na poltrona do ônibus assim que pegamos a estrada, e abri meu livro mais uma vez. Mergulhei nas sedutoras páginas de Anne Rice, com sua visão poética e melancólica do mundo dos vampiros. Que imaginação ela possui, e que sensibilidade! Seres sobrenaturais com dilemas totalmente humanos. Me fundi mais uma vez ao segundo volume das Crônicas Vampirescas, esquecendo do mundo ao meu redor.

A medida que a luz do dia baixava, tornou-se impossível continuar a leitura. Aproveitei o quanto pude e, em dado momento, abracei-me ao livro e passei a observar a paisagem. O céu exibia o belo azul profundo que antecipa a noite e havia pouquíssimo movimento naquele trecho da estrada, o que permitia que a cantoria das aves permeasse tudo à volta. Muitos e muitos metros para trás e para a frente do ônibus só havia estrada e mata nativa. Apenas a natureza, intocada, gigantesca... e um ônibus intruso, cruzando uma solitária pista de asfalto, como única marca de civilização naquele trecho selvagem entre a serra e o mar.

De repente, ouvi um barulho seco, como metal partido, e uma freada. Senti uma forte fisgada na nuca e a escuridão desceu sobre mim como um véu. Nem mesmo compreendi o que acontecia.

Em dado momento, abri os olhos, pesadamente, tentando me situar. Sentia-me como se tivesse acordado de uma longa noite de sono. Estava escuro. Entre as árvores pude ver as estrelas no céu, bem a minha frente. Deduzi que estava deitada no chão; mexi os braços, tateei o chão molhado, a terra e as folhas caídas formando uma espécie de lama. Tentei me levantar, não consegui. Tentei novamente erguer meu corpo, me apoiando no cotovelos. Dor. Todo o meu corpo doía horrivelmente. Respirei fundo e desisti por um instante, tentando recobrar as forças. Comecei a ouvir os gemidos dos outros passageiros. Um acidente. Um acidente bem feio pelo jeito. Comecei a entrar em pânico, me sentia fraca, e não conseguia mais respirar com naturalidade. Meus olhos se encheram dágua.
 
Então eu o vi. Caminhou em minha direção, um homem vestido de cinza escuro, e se agachou ao meu lado. Não exibia ferimento algum, nem me lembrava de tê-lo visto antes no ônibus. Achei que vira o acidente e viera ajudar. Ele me olhou fundo nos olhos e toda a dor que eu sentia saiu da minha mente. Ele tinha olhos azuis que pareciam cintilar em tons de violeta, e cabelos loiros densos e cacheados que tocavam seus ombros. Fiquei imaginando se aquele belo anjo viera me buscar.

- De certa forma, sim, vim buscar você. - ele me respondeu, como se lesse claramente meu pensamento - É sua única chance, Márcia. Não há tempo.

- Tempo? O que houve? - indaguei, confusa.

- Você perdeu muito sangue. E não há socorro a não ser a quilômetros daqui. Não há tempo para você.

- Não! - protestei, e me ergui nos cotovelos com minhas últimas forças.

Finalmente percebi a mim mesma. Estava presa nas ferragens do ônibus, com ele tombado de lado na mata, cobrindo metade do meu corpo. A lama na qual eu estava deitada era meu próprio sangue.

- Lhe darei a vida eterna, se você desejar. - ele me disse - Será sempre bela e sedutora como é agora, e me terá para sempre ao seu lado. Apenas peça. Peça para ser como eu.

Desatei a rir. Bela e sedutora, eu? Sim, claro, ainda mais imersa em uma poça de sangue, eu deveria estar um tesão. Eu não conseguia parar de rir, e já começava a me engasgar e cuspir sangue.

- Você quer ser como eu? Me responda agora! - exasperou-se o belo loiro agachado ao meu lado.

- E o que você é? - indaguei, em desafio; coisas impossíveis se passavam na minha mente.

- Você sabe, e sabe quem eu sou. Diga. - ele me observou, severo - Diga!

- Lestat... o vampiro. - respondi, desistido de enfrentá-lo; eu estava a ponto de desfalecer.

- Boa menina. - ele pareceu aliviado - Diga que me quer, como eu a quero. Diga que quer ficar comigo. É a única saída pra você. Diga, agora.

Pensei em meu marido. Pensei em nossa convivência, cheia de harmonia e amor nos últimos tempos. Pensei em nossos planos, na vida boa que teríamos juntos depois que todos os problemas que juntos enfrentávamos fossem resolvidos. Pensei em todas as nossas conversas, todos os sonhos, todas as metas. Tudo o que significávamos um para o outro. Meu companheiro, "eu e ele contra o mundo", ele me disse sempre. Pensei que ficaria com ele para o resto da vida. Mas agora eu estava morrendo.

Pensei na minha irmã, e em todas as vezes que ela disse que me amava, e eu sabia que era verdade. Pensei em mamãe, a mãe do meu marido, que me acolheu no coração como se eu fosse filha dela. Pensei nas minhas amigas de blog, e como elas nunca saberiam que pensei nelas nessa hora, inclusive naquela que não está mais no blog, mas está sempre nos meus pensamentos. Pensei em mais algumas pouquíssimas pessoas que habitam meu coração. Nunca mais as veria. Eu estava morrendo.

- Vai se entregar ao pó, sem lutar? - exasperou-se novamente - Você pode viver! Pode viver por mais tempo e mais intensamente do que viveria em dez vidas mortais! Apenas me diga que quer! Diga, agora!

- Lestat... eu quero. - respondi com dificuldade.

Ele me envolveu em seu abraço, com urgência. Senti a perfuração da garganta, como a espetadela de duas agulhas. Então a paz... um bem estar indescritível se apossou do meu corpo, como um êxtase, como se eu pudesse tocar o paraíso se apenas esticasse os dedos. Agarrado a mim ele sugava o pouco que havia restado do meu sangue, levando-me a fronteira da morte, onde nossos corações rufavam juntos como tambores em meus ouvidos.

Afastou-se de mim bruscamente, como se o fato de se obrigar a me soltar fosse doloroso para ele. Então rasgou a própria garganta com uma unha, e tornou a me abraçar, oferecendo-me o sangue que vertia do corte.

- Beba. - ele ordenou; sua voz era pura sensualidade.

Colei os lábios em seu pescoço, e o suguei como em um beijo selvagem. Sentia o sangue quente e espesso descer-me a garganta, matando a sede que me ressequia. Bebi dele longamente, sentindo a pele lisa do pescoço, os cachos loiros a roçar-me o rosto, o cheiro da sua pele, que me lembrava amêndoas. O sangue doce que me alimentava e preenchia toda a minha existência, dava sentido a tudo, e eu poderia beber dele eternamente. Tudo que eu fui, tudo que senti, tudo o que almejei ia se apagando em mim rapidamente. Se havia Paraíso ou Inferno, o que era ou não pecado, se as Grandes Leis foram realmente ditadas por Deus, nada disso me importava. Não havia mais nada em minha mente que não fosse aquele anjo negro que me oferecera uma nova existência na hora de minha morte. Sentia seus músculos me apertarem contra si, com a paixão dos sobrenaturais, fundido-nos, como se fôssemos um só. Então ele me afastou suavemente.

- Já chega. - ele disse.

Soltei um profundo gemido quando ele se afastou. Olhei as estrelas novamente, quando me prostrei no chão, exausta e saciada. Eram luzes fulgurantes, que pulsavam cada uma a seu ritmo, e eu compreendia que elas compunham uma sinfonia a medida que piscavam entre si. O vento acariciou meu rosto como mãos de fadas, e agitou as folhas nas copas das árvores com uma graça e perfeição que eu jamais vira. As árvores pareciam dançar lentamente, como amantes a meia-luz.

- Oh... então isto é o Dom Negro? - sussurrei - Tudo... é belo... demais...

- Sim, minha criança. É meu presente para você.

- Quero me levantar. - afirmei - Estou presa. Me ajude.

- Mova o ônibus, Márcia. Você tem força para isso.

Lembro-me de ter sorrido. Sim, eu tinha força para isso e muito mais. Ergui a carcaça retorcida do ônibus sobre o meu corpo e o empurrei para o lado. Pus-me de pé.

Olhei para mim mesma, no reflexo de uma das janelas do veículo. Eu havia emagrecido e ostentava um corpo volumoso e torneado, e parecia completamente saudável. Meus cabelos à altura da cintura haviam se cacheado por completo, como sempre foram antes do alisamento. E, sobretudo, o detalhe que mais me seduziu: eu possuía presas. Duas presas agudas e vampirescas assumiram o lugar dos meus caninos mortais. Eu parecia mais selvagem do que nunca.

- Quero caçar com você, Lestat... como li em seu relato, no livro. Aliás, nunca pensei que tudo o que estava escrito fosse verdade, que "O Vampiro Lestat" fosse realmente um livro de memórias. Afinal, então... quem é Anne Rice?

- Minha "ghostwriter". - ele afirmou, com um sorriso travesso.

- Ah, Lestat de Lioncourt... sempre vivendo entre humanos. - brinquei.

- Interagindo entre humanos, sim, minha bela, mas somente isto. Não é possível viver entre eles, ou me apegar tanto a eles quanto eu precisaria. Sou um monstro e, mais cedo ou mais tarde, essa verdade acaba prevalecendo. Preciso de amor de minha própria espécie.

- Ainda não conseguiu isso, não é? - indaguei me aproximando dele, acariciando sua face branca e perfeita como uma escultura de mármore - Magnus, Gabrielle, Armand, Louis... até mesmo Claudia... foram amados por você, mas não conseguiram amar você como precisava.

O anjo loiro baixou a cabeça, pensativo. Ergui seu rosto gentilmente, com ambas as mãos, e beijei os lábios do meu amante eterno.

- Eu o amarei, Lestat. Tenho em mim a mesma ânsia desesperada por amor. Sei exatamente como se sente. Por isso sei que posso amá-lo como você deseja.

Lestat me olhou nos olhos, como se conversasse com a minha alma. Havia amor, gratidão, desejo, cumplicidade e uma promessa eterna naquele olhar azul que iluminava o rosto do meu anjo das trevas. Ele acariciou meu rosto e me disse mentalmente "dois anjos da morte, juntos para sempre".

Então ele me conduziu pela mão, e saltamos para dentro da mata, quase voando. Estávamos indo caçar pela primeira vez juntos. Tomaríamos uma vida juntos, eliminaríamos alguém da face da terra hoje, como faríamos noite após noite para todo o sempre. E eu escolheria minhas vítimas como Lestat sempre o fizera, entre os criminosos, os sem caráter, os malfeitores, os traidores, os desonrados. Sorri de lado, satisfazendo-me antecipadamente com a minha escolha. Eu sabia exatamente quem morreria esta noite.




 


|
Gostou?
1

DICAS: Aonde ou onde?

Posted by Marcinha on 30 de setembro de 2013 06:00 in , , ,
Aonde ou onde? Entenda as diferenças e veja dicas para não errar
"Esta é a rua ONDE ou AONDE fica o nosso depósito"?

O mais adequado é: "Esta é a rua ONDE fica o nosso depósito." ONDE significa "no lugar" (=o depósito fica NA RUA).

AONDE significa "ao lugar". Só pode ser usado com verbos cuja regência pede a preposição "a" (IR, CHEGAR, DIRIGIR-SE, LEVAR…): "Esta é a praia AONDE fomos no sábado passado" (=fomos À PRAIA).

Observe a diferença: "Esta é a cidade ONDE ela nasceu" (=ela nasceu NA CIDADE); "Este é o bairro ONDE ele mora" (=ele mora NO BAIRRO); "Esta é a sala ONDE estamos" (=estamos NA SALA); "Esta é a cidade AONDE gosto de ir nas férias" (=gosto de ir À CIDADE); "Este é o estádio AONDE fui ontem" (=fui AO ESTÁDIO); "Este é o lugar AONDE ele quer chegar" (=ele quer chegar AO LUGAR).

Fonte:
Professor Sérgio Nogueira

http://g1.globo.com/platb/portugues/

|
Gostou?
4

O Mulão Ruge

Posted by Marcinha on 21 de setembro de 2013 06:00 in , , , , , , , ,
Olá leitores e retalhenses!
Para apresentar este texto, eu gostaria de fazer um adendo. Embora eu costume tomar sempre cuidado para que meus contos estejam escritos de acordo com o aceitável, neste em especial tomo algumas liberdades poéticas. Existem várias palavras grafadas em língua estrangeira, em especial por causa da nacionalidade das personagens. Também existem várias palavras grafadas com "r" duplo, para marcar o sotaque francês de uma das personagens. É algo que eu realmente acho um charme, esse "r" forçado quando franceses falam Portugês. Peço perdão a quem essas inovações incomodarem, mas não pude abrir mão delas para essa história.
Por fim, esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

O Mulão Ruge


Francine deu a última olhada no letreiro novo de seu estabelecimento comercial. "Centro Recreativo e Terapêutico O Mulão Ruge" estava escrito em néon, com letras elegantes sobre a porta de vidro dupla na entrada. Era um trocadilho interessante, bastante sarcástico como ela própria; além de aproveitar a semelhança sonora com a expressão Moulin Rouge ainda fazia alusão às gírias aprendidas no Brasil. "É aqui que o mulão ruge, mon cher", pensava ela consigo mesma enquanto um meio sorriso travesso lhe coroava a face empoada.
Cruzou a porta rumo ao balcão do pequeno bar que servia como recepção, ouvindo o suave "toc toc" de seus saltos 15 no assoalho de madeira. Serviu-se de um copo de uísque, e o saboreou lentamente com os cotovelos apoiados sobre o balcão de madeira rústica. Tamborilou as longas unhas vermelhas sobre o bar umas três vezes, antes de se empertigar decidida. Buscou na agenda de seu smartfone a número de Giovanna, e iniciou a ligação. Queria confirmar se sua sócia chegaria da Itália em tempo hábil para a inauguração do Mulão Ruge.
Três semanas depois da inauguração, o estabelecimento estava bombando, como se diz aqui no Brasil. Francine estava eufórica com o sucesso e os lucros que sua idéia lhe trouxera. Criara um ambiente discreto, revestido da fachada de um bar temático exclusivamente para homens. Por fora, parecia um centro terapêutico realmente e podia ser confundido facilmente com uma clínica, a exceção do nome estranho. Por dentro o ambiente lembrava uma taverna, com seus móveis rústicos e toda a decoração feita com réplicas de armas medievais e quadros a óleo que reproduziam batalhas e embates entre guerreiros e criaturas místicas.
No interior deste ambiente, os homens se sentiam bárbaros e se portavam como tal. Com o detalhe de que Francine aceitava em seu seleto clube apenas os bárbaros barbaramente ricos.
Naquela aura lúdica, o Mulão Ruge nem parecia um bordel. É claro que havia "as meninas", que circulavam alegremente entre as mesas como taverneiras atenciosas, servindo bebidas e esbanjando charme, cada uma representando sua personagem. Francine desempenhava com maestria a personagem que realmente era: a prostituta francesa. Sempre doce e sexy com suas echarpes de plumas rosadas, espartilhos e meia arrastão, delicadas saias de tule e cílios postiços que lhe davam um ar de boneca. Trazia uma piteira sempre consigo, embora não fumasse e um chicotinho enrolado a cintura. Apesar de aura de Lotita, havia um quê de sádico no seu tratamento com os homens, o que fazia dela a mais requisitada dentre todas, todas as noites.
Por passar grande tempo nas suítes com os clientes, ela precisava de Giovanna consigo. Já haviam trabalhado juntas em um bordel na Europa, e ela conhecia bem sua sócia italiana: era honesta, limpa, tinha um tino absurdo para os negócios e possuía uma personalidade forte e até mesmo rude. Quando qualquer tumulto acontecia no estabelecimento, o que era raro, mas podia acontecer, era Giovanna quem falava grosso com seu sotaque da Toscana e colocava as coisas nos eixos novamente sem que Francine precisasse nem mesmo lascar suas unhas. Era uma espécie de guarda costas, a sua sócia, sempre vestida como "a metaleira", com seus trajes negros, blusas com demônios estampados e bijuterias com cruzes e caveiras. Apesar de ser meio "endurecida" no sexo, o que lhe trazia poucos clientes, Giovanna tinha seu lugar cativo na vida e nos negócios de Francine por essas outras imprescindíveis qualidades.
Certa noite, pensava exatamente em todas estas coisas, quando um novo cliente passou pela porta. Pareceu um pouco desconcertado quando foi abordado entusiasticamente pela jovem Cowgirl logo na entrada. Trocou algumas breves palavras com a loira, que apontou com o chapéu de rodeio em direção a Francine.
O homem agradeceu com um aceno de cabeça e pôs-se a caminhar em direção ao bar, onde a francesa estava. Ele perscrutava o ambiente com os olhos de modo discreto, embora parecesse absorver cada detalhe. Era um homem maduro, que usava óculos de grau e um cavanhaque parcialmente grisalho. Vestia um jeans escuro e uma blusa negra com um brasão à altura do peito que lembrava um dragão. Seu corpo era volumoso e sólido, e até mesmo suas mãos largas como patas faziam com que ele lembrasse a figura de um ogro. Em contraste, seus modos lembravam os de um aristocrata quando se dirigiu a francesa.
- Senhora Francine?
- Senhorrita. - respondeu ela, exagerando ainda mais o sotaque que considerava seu charme, e sorriu - Mas pode me chamarr somente de Frrancine. Prrocurrando meus serrviços?
- Não, sinto muito, senhorita. Procuro por Giovanna. Ela está?
- Infelizmente non, mon cher. Ela teve prroblemas pessoais essa noite, e non vem. - disse, fisgada pelo ciúme - Entrretanto, non há nada que Giovanna pudesse fazerr porr você que eu non faça ainda melhor. - afirmou ela, com um meio sorriso sugestivo, enquanto esticava as pontas dos dedos para acariciar o brasão bordado no peito do homem.
Ele baixou os olhos, encabulado, e se esquivou sutilmente do contato dela.
- Temo que meu assunto seja apenas com Giovanna, senhorita Francine. Bem, lamento ter tomado seu tempo; continuarei tentando contato com ela pelo celular. Foi um prazer conhecê-la, mademoiselle. - ele apertou a mão de Francine de maneira tão formal que pareciam fechar um negócio - Se puder, diga a ela que Marcus esteve a sua procura, por favor.
Então, com um aceno de cabeça, ele se virou e seguiu para a porta. Francine acompanhava com o olhar atônito enquanto o homem de costas largas se dirigia para a saída. Que diabos fora aquilo? Por que um cliente de Giovanna se recusaria de maneira tão veemente a ser atendido por ela? Que novas façanhas sexuais estaria praticando a italiana que Francine sempre considerara ser ruim de cama?
Naquela noite a francesa custou a dormir. E antes que finalmente pegasse no sono, quase ao amanhecer, decidiu que investigaria tudo o que pudesse sobre o tal Marcus.
Na noite seguinte, Francine chegou ao Mulão Ruge já em pleno horário de movimento. Fora atrasada pela insônia da noite anterior e pelas olheiras negras que ficaram em seu rosto. Precisou de compressas de chá gelado nos olhos e uma camada extra de maquiagem para se tornar apresentável antes de sair de casa.
Giovanna estava no bar, de onde fiscalizava o movimento das meninas com olhos atentos. A italiana observava se o cliente da mesa oito não seria engraçadinho demais com a enfermeira ruiva que se exibia para ele, uma vez que ele só tinha pago por uma lap dance. Nesse momento Francine chegou e desabou na poltrona ao lado do bar, parecendo exausta. Cruzou as pernas exibindo as meias-ligas negras, com laçarotes em cada uma das coxas. Estendeu a mão direita para Giovanna, com uma expressão exageradamente suplicante, e a sócia imediatamente lhe serviu uma cuba libre lotada de gelo. A francesa ergueu os cabelos segurando-os como um coque, e encostou o copo gelado na nuca depois de beber o primeiro gole.
- Estou morrtinha.
- Estou imaginando. Você nunca chega atrasada, bela mia. O que houve?
- Nada demais. Como está sua mãe? Rresolveu tudo ontem?
- Si, grazie. Mama está ótima, novamente. Foi solamente una travessura.
- Que ótimo, Gio. - afirmou a francesa, forçando-se a dar uma pausa antes de entrar no assunto que realmente queria - Ah! Ontem a noite um cliente deixou um rrecado parra você.
- Recado pra mim?
- Oui. Pediu parra dizer que Marcus esteve aqui prrocurrando porr você.
- O Marcus? Veio aqui? - indagou a italiana, corando levemente.
- E non quis serr atendido porr ninguém. Perrguntou por você e vasou, como dizem. É seu cliente parrticularr?
- Si. Sim, é meu cliente. Não deve ter conseguido me ligar ontem. O celular estava péssimo.
- Giovanna... - iniciou a francesa, com um tom de repreensão - Exclusividade non é bom parra os negócios. Deverriam ser todos clientes da casa, non de uma só...
- Você mesma disse que ele não quis ser atendido por outra, não foi? Então não me culpe. Cáspita!
E, tendo praguejado, deixou o bar para que Francine cuidasse, e foi vagar entre as mesas, conversando com os clientes.
 
 
 
 
Três dias depois, Giovanna estava ao bar como de costume, vigiando a movimentação, enquanto Francine a observava. A italiana estava diferente, havia se arrumado mais, como se fosse a um show de rock pesado. Havia finas mechas roxas no seu cabelo escuro, o que deixava sua face habitualmente dura com uma atmosfera mais leve e sensual. Não tardou a que Francine descobrisse o porquê do visual caprichado naquela noite.
Quando Marcus cruzou a porta dupla de vidro, os olhos da italiana exibiam um brilho diferente. Ele a cumprimentou, beijando-lhe a mão, e deu um tímido "boa noite" para Francine. Estava belo como sempre, com suas roupas escuras e uma blusa onde havia um estampa frontal, retratando um mago medieval e seu dragão, a observá-lo através de uma janela de pedra. "Trouxe algumas coisas de que vai gostar, Giovanna", disse ele, levantando levemente o braço para sinalizar a maleta executiva que trazia consigo. Giovanna corou e fez um breve aceno de cabeça concordando e o conduziu sem demora para uma das suítes. Francine já se contorcia de curiosidade quando a porta se fechou, interrompendo sua visão do casal.
 
 
 
No dia seguinte, a francesa havia convocado todas as meninas durante a tarde, para o balanço mensal. Era um dia de relatórios sobre faturamento e prestação de contas, além do pagamento das meninas que, fora as gorjetas, recebiam seu salário por mês. Essas tardes nunca contavam com a presença de Giovanna, que cuidava da mãe durante o dia. Era a oportunidade perfeita para Francine inquirir suas funcionárias, longe da presença de sua sócia.
Uma a uma, Francine perguntou diretamente o que sabiam sobre o tal cliente misterioso de Giovanna. Permaneceu sem resposta até chegar a Kelly, a cowgirl, que afirmou conhecê-lo anteriormente. A francesa a conduziu imediatamente ao seu escritório privativo, a fim de obter dela todas as informações possíveis.
- Porr que Giovanna aprresentou vocês? Fizerram um prrogrrama a trrês?
- Não! - riu a loira - Foi no dia em que tive problemas com a polícia. Foi ele que apareceu para me ajudar.
- No dia em que te pegarram com drrogas?
- Exato.
Ela se calou, envergonhada. Entretanto respirou fundo e resolveu contar toda a história, vendo que Francine não desistiria de saber cada detalhe.
- Eu nunca te contei isso, por que não vinha ao caso, mas as drogas com as quais os porcos me pegaram não eram pra mim. Aquele meu namorado, o Rato, tinha acessos tão furiosos que eu acabava subindo o morro pra comprar droga pra ele. Naquela noite um PM me pegou na saída da boca de fumo. Chegando à delegacia, eu não tinha pra quem ligar, então liguei pra Gio. E ela disse que mandaria um amigo pra me ajudar.
- Ela mandou o Marcus pra te tirrarr da delegacia?
- Foi. Ele conversou longamente com o delegado, pagou a fiança e tudo o mais, e me levou pra casa de carro.
- Só isso? Está faltando coisa aí, Kelly. Da maneirra como você fala dele, nom ficarram meia horra juntos e prronto. Me conte tudo.
- Está bem. Não fomos diretamente pra minha casa. Eu estava apavorada e chorava sem parar. Então ele disse que me levaria a algum lugar onde pudéssemos conversar um pouco. Tomou um caminho que eu não conhecia e logo estávamos subindo uma serra. Ele bateu um pega na subida, com um engraçadinho que o provocou. Aquela banheira que ele dirige anda um bocado, além de ter um ronco infernal. - ela riu - A cada curva acelerada eu sentia a traseira do carro deslizar sobre o asfalto, enquanto os faróis do Fiesta novo em folha tentavam se aproximar de nós. Eu estava apavorada. Mas foi uma adrenalina tão incrível que me fez parar de chorar e esquecer a delegacia e a humilhação.
A loira se calou um momento, como se repassasse na memória as imagens daquela noite, como um filme. Francine ordenou que ela continuasse, com sua habitual impaciência.
- Quando ele parou o carro no alto da serra, estávamos em um mirante de onde se podia ver toda a cidade acesa lá em baixo. Era uma visão deslumbrante. Saímos do carro e ele me deixou sentar sobre a mala do Dodge para admirar a vista. Me perguntou se eu queria conversar sobre o que havia acontecido. - a loira levantou os olhos que mantivera baixos até então, e encarou Francine - Contei tudo a ele. Minhas subidas à boca, meu namorado drogado que brigava comigo a ponto de me fazer dormir chorando quase todas as noites, minha dependência emocional desse relacionamento falido, minha solidão... tudo. Me abri com ele naquela noite como não me abri com ninguém durante minha vida inteira. Sentia que ele me entendia e não me recriminada. E fui em frente, sem parar de falar. Acho que passei toda a minha vida a limpo naquele momento, para mim mesma.
- E ele não te disse nada? - inquiriu a francesa: queria saber sobre o homem, não a história de vida de sua funcionária mais problemática.
- Disse que eu era corajosa por encarar os fatos da minha vida com tanta sobriedade. E que eu tinha tudo para encontrar uma pessoa que me ame de verdade, por que o Rato nunca me amou. Ele me disse que quem ama cuida, quem ama não expõe o outro dessa maneira. - ela baixou a cabeça novamente, como se se sentisse envergonhada - No final da noite eu estava tão envolvida que tentei transar com ele. Só que ele não quis.
- Como assim ele non quis?
- Eu me ofereci abertamente. Eu não tinha mais nada pra dar a ele em agradecimento por tudo o que ele havia feito por mim, a não ser o meu corpo. Eu quis dar prazer a ele, como nunca quis dar a outro homem. E eu disse tudo isso a ele. Então ele me deu um beijo no rosto e me disse que, se eu quisesse agradecer, que fosse amiga dele, por que é disso que ele mais precisa.
- Esse carra é bicha?
- Eu duvido. Eu pude ver nos olhos dele o desejo sendo controlado enquanto ele se negava a me ter. Ele simplesmente foi nobre comigo, Francine. Eu nunca havia sentido isso com nenhum homem. Ele ignorou o meu corpo, e conversou diretamente com a minha alma.
 
 
 
Francine ainda permaneceu atônita em sua cadeira giratória muitos minutos depois de Kelly ter deixado o escritório. Não podia aceitar nada do que a cowgirl lhe contara. Os homens não são assim. Não existem homens assim. Homem algum resistiria a Kelly quando ela estava disposta a seduzir, com seu corpo voluptuoso e aquela carinha de menina inocente, se fosse hetero. Ela simplesmente não podia aceitar. Havia algo obscuro em toda essa história.
O pior de tudo é que a fantasia que se criava na cabeça de Francine começava a deixá-la encantada. Se fosse possível, apenas "se", um homem com essas atitudes seria um reflexo de tudo o que ela desejara um dia. Em suas fantasias de menina, era assim que seu príncipe encantado sempre fora. Era sólido, um audaz guerreiro de aparência rude, que falava pouco e sempre faziam o que era certo. Podia ser alvo do assédio de todas as mais formosas donzelas do reino, que isso não importaria. Esperaria pacientemente por sua eleita. E em seus devaneios infantis, a eleita fora sempre ela.
Fora ela. Não era mais digna de um príncipe assim, agora que estava na idade adulta. A vida a marcara profundamente, e as horríveis cicatrizes a tornaram insensível, amarga, desonesta, egoísta. Teria vergonha de si mesma se seu príncipe aparecesse hoje.  
 
A curiosidade a acossara tanto que ela resolveu endossar a imagem de si mesma, do quanto podia ser mesquinha e torpe. Girou a cadeira para o seu notebook, que possuía conexão com todo o programa de segurança. Digitou a data da noite anterior, selecionou a suíte de Giovanna nos arquivo e passou a examinar a gravação registrada dentro do quarto.
Mantinham esse sistema e essas gravações como segurança; caso acontecesse uma tragédia ou um acidente grave em uma das suítes, assim teriam material em vídeo para entregar à polícia. Havia um acordo tácito entre ela e sua sócia de que aquelas imagens jamais seriam assistidas por nenhum motivo que não fosse irrefutável. Sabia que sua curiosidade inquieta não se encaixava no caso, mas nada iria detê-la até que ela descobrisse o que estava acontecendo entre Giovanna e aquele homem tão incomum. Queria saber que artimanhas sua sócia usara para fisgar um peixe impescável.
Adiantou o vídeo até o ponto em que o casal entrou no quarto. Viu Giovanna se sentar na cama redonda forrada de cetim, sorrindo como uma menina, enquanto Marcus pousava a misteriosa maleta na cama e se ocupava com o frigobar, servido refrigerante com gelo para Giovanna e para si mesmo. Então ele se sentou frente a ela, e conversaram um pouco sobre a mãe dela e como fora a semana dos dois.
Em dado momento ele tomou os dois copos e os pôs de lado, sobre um aparador. Então deu um sorriso de quem estava completamente seguro de si, e abriu a maleta, mostrando o conteúdo a Giovanna, que exibiu uma reação entre o espanto e o divertimento. Mas bem mais espantada estava Francine, ao descobrir o quão bizarro era o conteúdo da maleta que a incomodara desde a noite anterior.
Marcus foi retirando da maleta os objetos um a um, e dando algumas explicações cada vez que passava algo às mãos de Giovanna. Havia quatro álbuns grandes, que em vez de fotografias continham inúmeros recortes de jornais e revistas, relativos a bandas de rock que Francine desconhecia. Havia ainda dois livros importados e raros, como ele mesmo explicara, e alguns DVDs e pendrives repletos de shows de bandas clássicas e de "barulho", seja lá o que isso queria dizer. Giovanna estava extasiada com tudo e fazia uma pergunta atrás da outra. Marcus explicava cada detalhe com paciência e carinho, sentindo-se recompensado com a alegria e o interesse dela. Ao final de tudo, ele disse a Giovanna que ela podia ficar com maleta e seu conteúdo o tempo que fosse necessário para assistir tudo, desde que todo o tempo necessário não excedesse uma semana. Os dois riram, e Giovanna o tranquilizou, dizendo que em uma semana sem falta devolveria tudo. Sabia o quanto ele tinha ciúme e cuidado com suas coisas, e com aquela coleção em particular.
Então veio a parte mais surpreendente. Ele olhou a italiana nos olhos, e acariciou o cabelo dela, dizendo que as mechas haviam ficado lindas. Ela sorriu e o beijou no rosto, e eles se deitaram na cama um de frente para o outro, totalmente vestidos como estavam, unidos num abraço cheio de ternura. Enquanto ele afagava os cabelos dela, ela lhe acariciava a barba, e conversavam sobre coisas íntimas dos dois, inclusive o fato de Giovanna ter uma namorada, coisa que Francine não sabia. A mulher com quem a italiana estava ha cerca de um ano constantemente a fazia sofrer, e Marcus a aconselhava sobre o relacionamento, afirmando de várias formas diferentes que o diálogo sincero é a pedra fundamental de um relacionamento e o primeiro passo para a solução de qualquer problema.
Depois de conversarem por horas, o silêncio tomou conta do quarto. Continuavam acariciando um ao outro ternamente, mas não houve mais palavras. Parecia que apenas a presença e o conforto de estarem juntos era o suficiente. Permaneceram assim, silenciosos e aconchegados, até que o avançar da hora o fez despedir-se dela para ir embora.
 
 
Na noite que se seguiu a Francine ter assistido ao vídeo de segurança, a francesa retornou cedo ao Mulão Ruge, para aguardar a chegada de sua sócia. Estava lindamente vestida, com um vestido nos estilo das dançarinas de can can, rodado e mais curto na frente do que atrás, e com muitas camadas de babado interno. Sentia-se poderosa vestida dessa forma, e tinha os cabelos presos em um elegante coque alto adornado com uma flor negra que lembrava um crisântemo.
Esperou o passar das horas com certa impaciência, perguntando-se internamente por que sua sócia estava atrasada justamente naquela noite. Quando finalmente Giovanna chegou, Francine já se sentia irritada como uma jaguatirica engaiolada. Praticamente avançou sobre sua sócia assim que a viu.
- Está atrrasada!
- Ma quê?! Quinze minutos, ragazzina! Qual seu problema hoje?
- Prreciso falarr com você, em parrticularr. Vem comigo. - disse a francesa acenando com a cabeça na direção de seu escritório.
Assim que a francesa fechou a porta do escritório atrás de si, passou a chave para trancá-la, coisa que não tinha o hábito de fazer.
- Que diabos a está deixando tão impertinente, Francine?
- Querro lhe fazerr una perrgunta, e querro que seja absolutamente sincerra, oui?
- Va benne... pergunta. - ordenou a italiana.
- O que você sente pelo Marcus, Giovanna?
A italiana ficou estarrecida por um momento, sem articular uma palavra. Esperava que Francine perguntasse qualquer coisa, menos sobre os sentimentos dela e principalmente sobre esses sentimentos em relação ao Marcus.
- Por que pergunta? - retorquiu, desconfiada.
- Querro saberr, Gio; prreciso saberr. - respondeu Francine com sinceridade, e respirou profundamente, tentando serenar seus pensamentos - Me diga, porr favorr. É mais imporrtante parra mim saberr se você o ama do que se estão tendo um caso. - e insistiu na pergunta - Está apaixonada porr ele, Giovanna?
- Não. - afirmou a italiana com serenidade, observando na expressão de sua sócia que havia algo de muito sério nessa questão - Não estamos apaixonados, nem ele, nem eu. E não temos um caso. Somos amigos, muito amigos. Marcus é como un fratello mio... estou dizendo um irmão. Capisci?
- Está sendo honesta comigo, Gio? É imporrtante.
- Si, cara mia. Por que tantas perguntas?
- Porque estou serriamente interressada nele, chérrie.
 
 
Duas noites mais tarde, Marcus abria a porta de seu apartamento para Francine, que chegou pontualmente como o combinado. Vestia preto da cabeça aos pés e estava linda no corselet de veludo que marcava as curvas de seu corpo, e fazia um belo conjunto com a saia longa e volumosa, e as luvas de cetim que ultrapassavam os cotovelos. No pescoço trazia uma gargantilha de contas negras que lhe caía pelo colo nu como ornamentos de um lustre, e a maquiagem e o cabelo preso para cima tinham algo de sóbrio e sensual ao mesmo tempo. Marcus pareceu bastante impressionado enquanto aquela dama gótica cruzava sua sala como um anjo negro.
Tentando não perder o foco, ele lhe serviu uma água tônica com limão e gelo assim que ela se acomodou no sofá. Então passou a lhe mostrar o que ela viera ver.
Em suas mãos havia vários CDs e DVDs de Folk Metal, e ele falava com desenvoltura sobre a mistura de som pesado com música celta, sobre os instrumentos que reproduziam com perfeição os medievais como a mandola e a viola de roda, e sobre bandas que tocavam esse estilo como Eluveitie e Arkona. Discorreu sobre os músicos e suas crenças, sobre as mensagens mitológicas nas letras, e sobre tantos detalhes que deixaram Francine fascinada. Enquanto os acordes do álbum Helvetius enchiam a sala, ela admirava o homem que fala com paixão sobre música e mitologia. E estava cada vez mais certa do propósito que a levara até ali.
- Então, creio que seja material suficiente para encher com música mais adequada sua taverna todas as noites, mademoiselle. - ele disse, encerrando os esclarecimentos.
- Oui! - ela sorriu - Agrradeço prrofundamente pelo emprréstimo de seus CDs e por todas as explicações. Tudo o que me contou foi muito interressante. Sua companheirra certamente adimirra o mesmo tipo de música, non?
- Seria o lógico. - ele concordou com um erguer de sobrancelas - Mas, no momento, não tenho com quem dividir meus gostos.
- Você e Giovanna non estão juntos?
- Não. - ele respondeu sem se alterar em nada - Giovanna é uma amiga muito querida. Mas é apenas isso. Nada mais.
- E seu corração está aberrto parra a chegada de uma companheirra, Marcus? - indagou a francesa, que agora estava de pé frente a ele, olhando-o nos olhos - Está prrocurrando por alguém?
- Não, não estou procurando. - respondeu ele, muito sério - Acredito que as pessoas certas nos chegam no momento certo, sem que precisemos procurar.
Francine ficou bastante abalada com a frase dele. Era um pensamento profundo, cheio de sensibilidade. Nunca conversara com um homem daquela forma.
Ela havia se aproximado dele, lânguida e receptiva e ele continuava inabalado. Qualquer homem que conhecera em toda a sua vida já a teria beijado ou estaria prestes a fazê-lo. Mas Marcus não dava sinal de que moveria um músculo.
- Acha que posso serr a pessoa cerrta, Marcus? - ela provocou, por fim.
- Se quiser fazer as coisas do jeito certo, Francine, podemos descobrir. - ele afirmou, com uma expressão de que se encontrava inteiramente compenetrado nela.
- E o que serria o jeito cerrto?
- Procuro uma companheira, Francine. Uma mulher que goste da minha companhia, que queira estar ao meu lado, para que possamos compartilhar nossos momentos bons e maus. Uma mulher que seja minha amiga, minha amante, minha irmã... essa mulher será minha amada, minha razão para lutar e meu descanso após a luta. Para a mulher que me amar com esse comprometimento eu darei meu coração, arrancando-o do peito e entregando-o nas mãos dela sem receio. Por que é apenas dessa maneira que eu sei amar, Francine.
- É isso tudo o que eu querro parra mim. - ela afirmou, convicta, mergulhada nos olhos castanhos do homem a sua frente.
 
 
 
 
Epílogo
 
- Já escolhi a cor como me pediu, mademoiselle.
- Oui! - Francine se virou e sorriu, em expectativa, enquanto continuava mexendo o recheio de leite condensado e limão - E que corr elegeu o meu namorrado?
- "Rock". - ele riu, admitindo o clichê, e admirou mais uma vez o vidro de esmalte enquanto explicava - Não escolhi pelo nome, e sim pela cor. Há outros pretos em sua frasqueira de esmaltes, mas este é realmente negro e tem uma pigmentação metálica verde muito bonita. Se houvesse uma tinta automotiva exatamente assim, eu com certeza pintaria meu carro com ela.
- Então está escolhido. - ela afirmou, animada - Pintarrei as unhas com ele, assim que terrminar de fazer minha obrra prrima.
- Que seria...?
- Torta de limão. Non vai se arrependerr de prrová-la, mon cherr. - ela piscou, com um sorriso maroto.
- Quer ajuda, Francine? – ele se ofereceu, de boa vontade.
- Ah, que lindo! Como poderrei recusarr? Prrecisarrei de ajuda com a farrinha de trrigo daqui ha pouco. Porr enquanto, um abrraço já ajuda bastante.
Marcus a abraçou por trás, pousando o queixo barbado ao lado do pescoço dela. Enquanto a admirava cozinhar, indagou:
- O que mesmo estamos comemorando hoje, Francine?
Ela demorou um momento para responder:
- Duas coisas. A prrimeirra é que, finalmente, consegui uma aluna de frrancês. Desde que me afastei da rrotina do Mulão Ruge estou inquieta porr não terr um trrabalho, além de fazerr a contabilidade parra Giovanna. Agorra vou começarr a darr aulas!
- Muito bom, Francine! Fico feliz, querida. Que essa seja a primeira de muitas alunas para você. - ele disse, ainda abraçado a ela da mesma forma.
- Obrrigada... - ela respondeu, respirando fundo
- E qual é a segunda comemoração? - ele indagou.
- Fazemos dois meses de namorro hoje. - ela explicou, com a voz mais suave que de costume.
- Fazemos? - ele exclamou, um pouco encabulado - Nunca me lembro de datas assim, me perdoe.
- Perdoo se você parrar de falarr com essa barrba no meu pescoço... - ela ronronou - non vou conseguirr terrminarr a torrta dessa maneirra...
Ela roçou a lateral do rosto na barba dele, enquanto ele a apertava mais para perto de si. Francine começou a mexer os quadris lentamente, atiçando reações imediatas no corpo dele, e sentindo-se recompensada por fazê-lo perder o controle tão facilmente.
- Francine... assim não vai terminar sua torta... - ele sussurrou, lutando para se conter - eu não sou de ferro...
- Non? - ela deu um sorriso de lado, com uma expressão de menina travessa - Com essa rrigidez que sinto, eu jurrava que erra...
Ela se virou e o beijou com paixão, e ele correspondeu na mesma intensidade. Ela arranhava as costas dele, enquanto se acariciavam, perdidos naquele beijo eterno e ofegante.
Em poucos minutos a torta havia ficado para trás e estavam na cama. À medida que as carícias se tornavam mais quentes, Francine abria mais e mais portas para ele. Queria compartilhar com aquele homem o que jamais compartilhara em sua vida. Queria que o amor fosse profundo, arrebatador, selvagem, extasiante. E ela o provocava cada vez mais devassamente. Em dado momento ele parou, ofegante, e acariciou os cabelos desarrumados dela com uma ternura angustiada. Havia um esforço imenso nele para controlar o ímpeto que explodia dentro dele, quando falou:
- Francine... vá devagar, minha menina. Eu te amo, Francine, muito... verdadeiramente. Você merece todo o meu amor, e todo o meu respeito. Mas me enlouquecendo desse jeito... você desperta o animal em mim.
- Essa é a última frronteirra, mon cherr. - ela afirmou, enquanto ardia em desejo - Querro você sem barreirras, querro toda a sua paixão, querro tocarr o céu com você cada vez que fizerrmos amorr. Querro conhecerr esse animal que me esprreita como um prredadorr e que você tem mantido trrancado todo esse tempo. Querro sentirr você, porr inteirro.
Marcus a observava, perscutando cada reação do rosto dela. Então algo nele parou de lutar. Ele a encarou com seriedade e enrolou os cabelos dela firmemente em uma das mãos, enquanto o outro braço a puxava com firmeza para junto de si. Então mergulhou em sua boca, beijando sua amada com o calor e a selvageria de um guerreiro que vem da batalha.





|
Gostou?

Copyright © 2009 Retalhos Assimétricos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive.