Os dois exércitos se colocaram frente a frente em campo aberto. O exército branco fora reunido e posto em marcha rapidamente, assim que batedores acusaram o avanço do exército negro. Isso apenas foi possível graças a impecável organização militar do reino de Astharg. O capitão de todas as tropas era o responsável por isto, além de ser um guerreiro habilidoso, um estrategista brilhante e um líder reto em sua conduta. Apenas o rei em pessoa exercia mais autoridade que ele no campo de batalha.
As duas imensas tropas se encaravam, imóveis. O silêncio era interrompido vez por outra pelo relincho dos cavalos, inquietos na expectativa do confronto, e o bater de seus cascos no solo. Na tropa branca, com suas capas e mantos alvos cobrindo o dorso de seus animais, os homens estavam concentrados e quietos, atentos ao comando de seu rei. A tropa escura tentava conter-se em sua sede de sangue, temendo a punição de sua senhora. Sabiam que a rainha feiticeira não tolerava indisciplina, e todos os seus servos, embora fossem orcs, elfos negros, goblins e trolls, temiam a fúria dela, bem como seus poderes.
Repentinamente, soprou uma brisa fria. O céu, que estivera claro até aquele momento, acolheu sem protestos a chegada de espessas nuvens. De todas direções uma neblina cinzenta se levantava do solo árido, como se a planície rochosa tivesse se transfigurado em pântano. A bruma se movia implacável, envolvendo os dois exércitos e tudo o mais à sua volta. Logo tudo estava cinzento e opressivo, deixando confortável a turba de monstros, enquanto a claridade do sol acima das nuvens lutava para fazer seu papel e clarear a visão do campo de batalha para os homens do rei.
Callael, o Justo, como era conhecido o soberano de Astharg, fez sinal para que suas tropas esperassem. Assentiu com cabeça para o capitão ao seu lado, cuja identidade estava propositalmente encoberta pelo elmo polido. O rei e seu capitão trotaram à frente, seguidos por apenas mais dois cavaleiros. Callael tentaria a diplomacia, frente àquele ataque sem propósito.
Danthor, cavalgou à frente para encontrar o rei branco. "O Inconstante" era sua alcunha, um apelido bastante válido para um mercenário. Era o único humano na tropa da rainha sombria, e desempenhava a função de estrategista, uma vez que nem mesmo os elfos negros possuíam um cérebro que suplantasse a gana pela batalha. Danthor, o braço direito da rainha, parou seu cavalo frente à montaria do rei. Olhou por sobre o ombro, esperando a aproximação do animal que o seguia. Uma tigresa enorme e cinzenta parou ao lado da montaria do mercenário, e pôs-se a observar o rei e seus homens.
Callael estava um pouco intimidado pela presença daquele animal selvagem, e pelo tamanho que o felino ostentava, mesmo sendo uma fêmea. Até mesmo a batalha tem certas regras, e elas são honradas tanto por homens como por outras criaturas com menos caráter. Mas teria um animal este discernimento? Negando seus receios, o rei ergueu a voz ao líder da tropa inimiga.
- Quem és tu, a quem me dirijo? Tu respondes pelo comando deste exército que invade as minha terras, e por este ataque sem propósito?
- Sou Danthor, o Inconstante, a serviço da rainha Zandara. Comando as tropas da dama sombria na missão de devastar suas terras. O que será um prazer para mim, devo acrescentar. - arrematou com maldade, o mercenário.
- Por quê? - exasperou-se o rei - O que fizemos contra tua nação?
O mercenário riu, como se estivesse se deleitando com alguma piada particular. Encarou o capitão, ao lado do rei. A enorme felina também o encarava, como se espreitasse uma presa. O capitão do rei retirou seu elmo, revelando a pele branca e os olhos azuis. Encarou a fera à sua frente por um momento, ignorando Danthor. Em seguida se dirigiu ao rei.
- Meu senhor, permite que eu assuma?
- O que poderia resolver o meu capitão, mais que seu rei? - retorquiu Callael, ferido em seu brio, em parte por sentir-se secretamente intimidado pela fera que continuava a observá-los.
- Meu senhor... pai. - implorou o capitão - Agora entendo que é um assunto meu. Me dê sua permissão, por favor.
O rei assentiu, e recuou sua bem treinada montaria cerca de um metro, deixando o capitão na dianteira. O príncipe então ergueu a cabeça, desafiador. Estava no comando agora.
- Por que acha que me intimidará mais que seu velho? - provocou Danthor.
- Cale-se, verme. - rosnou entredentes o capitão - Meu assunto é com a tigresa. - e, dizendo isso, desmontou de seu cavalo.
A imensa felina agitou-se, franzindo o focinho e exibindo as presas num rosnado ameaçador, enquanto serpenteava a cauda no ar. Por um breve momento pareceu que atacaria o homem de pé a sua frente, ignorando sua armadura completa. Mas algo inusitado aconteceu. A fera balançou a cabeça em negativa e começou a transfigurar-se, livrando-se da sua forma animal. Numa metamorfose impressionante, a tigresa deu lugar a uma mulher de pele cinza, que se empertigou em frente ao capitão, encarando-o com o queixo erguido e um fogo devorador no olhar.
Apesar do aspecto cinzento, que denunciava sua condição de morta viva, a mulher possuía um beleza marcante e exótica. Tinha cabelos longos e negros que se derramavam até a cintura, e uma boca pequena e feminina que estava contraída num ódio mortal. As formas do corpo eram sólidas e volumosas, numa constituição própria de uma mulher que possui habilidade com armas pesadas. Mas seu dom maior vinha de seus poderes de feiticeira, e a força das trevas transparecia nela através das íris acesas como brasas. Vestia uma túnica ocre, com longas fendas laterais, o que deixava suas pernas e parte seu tronco à mostra. Calçava sandálias de tiras douradas que pouco lhe cobriam os pés, arrematadas por fitas que lhe ziguezagueavam pernas acima, terminando em uma amarrado nas coxas. Na testa alta ela trazia uma tiara de ouro, com a face da morte estampada no centro. A rainha era terrível e bela, a ponto de descompassar a respiração do capitão a sua frente.
- Não tenho nenhum prazer em revê-lo, príncipe Chaerlisson. - disse a senhora sombria, com sua voz rouca e impregnada de veneno - Que assunto pode ter comigo, que já não tenha sido dito na sua despedida?
- Zandara... - ele proferiu o nome dela em tom firme, mas suave - Eu sinto muito. Eu lamento o que aconteceu, mas está além da minha decisão. Eu tenho obrigações com meu reino.
- Lamenta o que aconteceu... Exatamente o que você lamenta? A sua partida repentina ou todo o tempo que passamos juntos? - sua boca se contraía ao final de cada frase, os seus olhos pareciam querer-se incendiar.
- A minha partida. O seu sofrimento. O meu sofrimento... Zandara. - ele afirmou com convicção - Mas é preciso que seja assim.
- A sua princesinha é mais rainha que eu? - indagou a feiticeira com desdém - Qual a vantagem em desposá-la? Ela nem mesmo senta-se ainda ao trono de sua nação!
- Zandara, esse casamento será a aliança entre o reino dela e o meu. Trará muito benefício para o meu povo, que sofre com a fome e a seca. Belrim é um terra próspera e as transações comercias que irão...
- Você a ama? - interrompeu-o a rainha sombria, como se tentasse apunhalá-lo com suas palavras.
- Não!! - esbravejou ele, com os olhos arregalados de indignação - Não, Dara... eu não a amo. - ele cruzou os dedos à nuca, e arrastou as mãos pela barba até o queixo, num gesto de profunda frustração - Sabe que só há uma mulher em meu coração. Ou não consegue mais acreditar em minhas palavras?
- Eu lhe ofereço meu reino, Charlie, meu querido. Meu trono. Meu corpo. Meu poder. Pegue tudo o que você quiser. - ela mantinha a voz firme, mas seu rosto era uma súplica desesperada.
- Dara... - o príncipe tentava escolher palavras que não a machucassem tanto - Dara, minha rainha... seu povo é selvagem, sem nenhum ofício; suas terras foram devastadas por eles. Seu reino... não pode acrescentar nada ao meu povo. Zandara, você não tem nada a me oferecer, a não ser essa paixão que me assola, queimando meu corpo e meu coração dia e noite. - ele sustentou o olhar dela, que havia endurecido novamente, despejando nele ódio e repulsa. - Eu não posso ser seu. Meu povo precisa de mim.
A rainha sombria tinha então o rosto transtornado de tal maneira que toda a sua beleza se fora, dando lugar a uma face vingativa, como uma máscara de mau agouro. Ela assentiu com a cabeça como se concordasse, mas seus olhos de fogo revelavam os pensamentos que lhe ardiam por dentro, como óleo fervente.
- Belrim é que recusará esta aliança, depois da batalha de hoje, Chaerlisson. - ela sussurrou entredentes, como uma serpente chiando antes do bote - Ao fim deste dia, seu reino não será mais que cinzas e escombros!
- Zandara, não! - ele ordenou, mas em vão; ela nem mesmo o ouviu.
- Danthor! - ela chamou, cheia de fúria - Lidere meu povo à vitória! Quero sangue, fogo e devastação cobrindo esta terra agora! Matem todos!!!
- Pelo poder de Zandara! Vitória ou morte, criaturas sombrias! - gritou o Danthor, apontando para frente sua espada, e avançando com sua montaria - Pela rainha! À batalha!
A turba de monstros grunhiu como feras confinadas e avançou seguindo Danthor, brandindo suas rústicas armas em busca do sangue adversário. O príncipe montou imediatamente e empinou seu cavalo, erguendo com orgulho o estandarte do rei, enquanto bradava palavras de comandado aos seus homens, instigando o ataque.
Em meio a névoa, Zandara se desmaterializou rapidamente, deixando para trás o campo de batalha.