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Matizes e Cores (A Guerreira e o Ogro - capítulo 2)

Posted by Marcinha on 26 de maio de 2013 06:00 in , , , , ,
Em pouco tempo o sol começou a se recolher fora da caverna, espalhando um azul profundo por todo o firmamento, graciosamente pincelado por nuvens matizadas de dourado e rosa.
Markka permanecia sentada à entrada da caverna já há algum tempo, contemplando o espetáculo que a natureza lhe oferecia. Nesses raros momentos ela conseguia atingir a calma, contemplando passivamente crepúsculos, tempestades, marés furiosas. Imersa nos sons, odores e belezas destes espetáculos naturais ela esquecia a si mesma, como se sua essência pudesse tocar de leve outra atmosfera, bem mais sublime que este mundo de atrocidades e desonra.
A guerreira se virou para observar o interior da caverna. O ogro recolhia alguns pertences, organizando o local que ele chamava de lar. Em seguida atiçou o fogo, a fim de aquecer a refeição para eles. Markka se aproximou da fogueira, acompanhando com o olhar seu anfitrião, que por fim lhe entregou uma cuia de caldo fumegante.
– Também gosto de ver o por do sol. – afirmou ele casualmente, e se sentou em seguida, levando a cuia à boca.
Markka o observava em silêncio, enquanto parecia concentrada na sopa. A cada momento aquele ogro a intrigava mais.
Pouco tempo depois o ogro se deitou, em uma segunda cama que havia ao redor da fogueira. Ele havia dito à guerreira que encerrava seu dia cedo, para que estivesse descansado e pronto para trabalhar assim que o dia clareasse.
A guerreira decidiu dormir assim que o ogro se deitou, tencionando acordar antes dele. Embora ela estivesse mais a vontade na presença dele, ele ainda era um ogro, e ela não se esqueceria do perigo que ele podia representar.


O dia seguinte chegou, mostrando um céu perfeitamente limpo. Markka se levantou de um salto quando, olhando à volta, percebeu que o ogro não estava.
Ela se aproximou da fogueira já quase extinta, e achou sobre a bancada um pedaço de pão torrado. Roendo o pão, ela se aproximou da entrada da caverna e lá permaneceu por um bom tempo, esperando a volta do ogro.
Zenthor não tardou a regressar, trazendo pequenas bolsas de couro cheias de ervas tenras e pequeninas frutas avermelhadas.
– Ainda bem que achou o pão. Precisei sair muito cedo. – disse o ogro enquanto passava pela guerreira na porta da caverna.
– O que é isso? – perguntou ela, mesmo com a boca cheia, para manter a conversa.
– Frutas que contem uma excelente pigmentação vermelha, e ervas suculentas que soltam uma espécie de... baba. Uso as ervas como aglutinante para a pigmentação vermelha. – explicava o ogro, enquanto esvaziava as bolsas –  Desse modo consigo uma tinta espessa e resistente. 
– O que vai pintar com isso? – indagou Markka, observando o ogro que começava a macerar as ervas.
– Estou construindo um veículo grande, o primeiro que faço para mim. Por ser meu, pretendo pintá-lo.
– Por quê?
– Para que fique bonito. E me deixe satisfeito. E orgulhoso. – respondeu o ogro.
– Hã... – ela se limitou a dizer.
O ogro a observou, sem deixar de macerar suas ervas. Ela, por sua vez, estava atenta ao modo como ele socava as plantas com um cilindro de madeira dentro de uma cuia larga, resultando em um salpicado verde que já soltava um líquido viscoso e transparente.
– Sou artesão, como lhe disse ontem. Fabrico carroças. – disse o ogro, enquanto ela o olhava – Gostaria de ver o meu trabalho?
A guerreira quase esboçou um leve sorriso, mas permaneceu sóbria. Sem dúvida ela havia ficado curiosa sobre o que ele fazia desde que ele se apresentara como artesão. A guerreira também possuía algum talento; e adorava criar coisas. Sua vida não era feita apenas de batalhas e sangue, ela admirava as invenções e as artes, e encontrava um enorme prazer em ver sair de suas mãos algo que não existia antes no mundo. Ela via a criação como algo extremamente prazeroso, e costumava dizer que entendia por que Deus fora tão insaciável na diversidade de sua criação.
– Posso levá-la até lá, se desejar. – continuou o ogro, já que ela nada dissera.
– Sim, eu gostaria de ver no que está trabalhando. – respondeu Markka, tentando não parecer ansiosa, mas por dentro a curiosidade a espetava como uma lança.

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(Nota da Autora: O primeiro capítulo desta saga pode ser lido clicando aqui .)

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HUMOR: Emergência

Posted by Marcinha on 24 de maio de 2013 06:00 in , , , ,
Emergência
(Luís Fernando Veríssimo)

É fácil identificar o passageiro de primeira viagem. É o que já entra no avião desconfiado. O cumprimento da aeromoça, na porta do avião, já é um desafio a sua compreensão.
- Bom dia...
- Como assim?
Ele faz questão de sentar num banco de corredor, perto da porta. Para ser o primeiro a sair no caso de alguma coisa dar errado. Tem dificuldade com o cinto de segurança. Não consegue atá-lo. Confidencia ao passageiro ao seu lado:
- Não encontro o buraquinho. Não tem buraquinho?
Acaba esquecendo a fivela e dando um nó no cinto. Comenta, com um falso riso descontraído: “Até aqui, tudo bem”. O passageiro ao lado explica que o avião ainda está parado, mas ele não ouve. A aeromoça vem lhe oferecer um jornal,
mas ele recusa.
- Não, obrigado. Não bebo.
Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar vôo, ele é aquele com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! No rosto. Com o avião no ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela.
Mas o pior está por vir. De repende ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha para todos os lados para descobrir de onde sai a voz.
“Senhores passageiros, sua atenção , por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de emergência na frente, nos dois lados e atrás.”
- Emergência? Que emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém falou nada de emergência. Olha, o meu é sem emergência!
Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.
- Isto é apenas rotina, cavalheiro.
- Odeio rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai, meu santo.
“No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão automaticamente de seus compartimentos.”
- Que história é essa? Que despressurização ? Que cabina?
“Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque a máscara sobre o rosto e respire normalmente.”
- Respirar normalmente? A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio caindo sobre nossas cabeças - e ele quer que a gente respire normalmente?!
“ Em caso de pouso forçado na água...
- O quê?!
“...os acentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do aparelho e...”
- Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!
- Calma, cavalheiro.
- Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!
- Cavalheiro, por favor. Fique calmo.
- Eu estou calmo. Calmíssimo. Você é que está nervosa e, não sei por que, está tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que aliás , também parece consternado e levemente azul.
- Calma! Isso. Pronto. Fique tranqüilo. Não vai acontecer nada.
- Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante.
- Certo. Ninguém mais vai falar em banco flutuante.
Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a respiração, e pede desculpas. Perdeu a cabeça.
É que banco flutuante foi demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado. Fazendo sala no meio do oceano Atlântico!
A aeromoça diz que lhe vai trazer um calmante e aí mesmo que ele dá um pulo:
- Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me escondendo alguma coisa!
Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Ele fica rígido na cadeira. Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço. Pergunta se pode receber sua comida em dinheiro. Deixa cair a cabeça para trás e tenta dormir. Mas, a cada sacudida do avião, abre os olhos e fica cuidando a portinha do compartimento sobre sua cabeça, de onde, a qualquer momento, pode pular uma máscara de oxigênio e matá-lo do coração.
De repente, outra voz. Desta vez é do comandante.
- Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo. Neste momento. À nossa direita, podemos ver a cidade de ...
Ele pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto:
-
Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!



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Enquanto o "Caboclo" não vem...

Posted by Marcinha on 19 de maio de 2013 12:54 in , , , ,
Aproveitarei esse domingo para fazer um segundo post falando rapidamente sobre os meus desafios. Achei interessante explicar um pouquinho dos nossos "bastidores" para os leitores do nosso blog.

Atualmente, somos cinco autoras ativas aqui. Postamos nossos textos, que podem ser criados ou não a partir dos desafios que lançamos umas às outras. Também postamos textos relevantes que não sejam de nossa autoria, mas que mereçam ser destacados nesse blog. Postamos ainda dicas de português, muito úteis ao eterno aprimoramento de quem escreve, ou seja, nós mesmas, inclusive.

Então... quem é esse Cabolclo do qual falamos tanto???

O "Caboclo Escrivinhadô" é um ícone cultural do nosso blog. Ele representa a inspiração quando chega, aquela inspiração mágica tão citada por quem trabalha com a arte no geral, incluindo aí a arte de escrever. Muitas vezes recebemos um desafio e ficamos matutando sobre ele, digerindo a proposta, sem nem saber por onde começar. De repente o Caboclo "baixa" e um texto inteiro flui de uma maneira espantosa. É aquele momento mágico a que o escritor e desenhista Fábio Yabu citou como sendo uma epifania.

E enquanto o Caboclo não vem? Aí é um desespero. Perguntamos umas às outras quem de nós está mantendo o Caboclo em cativeiro. Por que o Caboclo é temperamental, tem horas que se agarra com uma de nós e deixa as outras a ver navios!

Brincadeiras à parte, o próprio ato de escrever é escorregadio, como qualquer arte. Está subordinado às nossas tensões, preocupações, cansaço, estado de espírito. Não é apenas uma questão de sentar-se para escrever. E quando você se senta por minutos em frente ao editor de texto e nada acontece? Os desafios acumulam! Justamente! (Marcinha fazendo uma careta de mea culpa)

E, nesta posição, venho republicar aqui meus desafios pendentes, só pra constar que eu não os esqueci!

Mas antes, uma novidade, e eu esqueci de falar dos desafios que recebemos "em off". Alguns desafios nos vêm de fora do blog, de amigos ou familiares, qualquer pessoa que queira nos desafiar para uma peleja vale, e cabe a cada uma de nós aceitar o desafio ou não. Esse aqui foi o maridão que me deu, e firmo aqui o compromisso público com esse Desafio de Imagem:



Meu Desafio de Páscoa, fiquei com o Desafio das 5 Palavras (by Nanda):
* Cogumelo
* Hidratante
* Girafa
* E-mail
* Copo
(Eu sei, seu sei, a páscoa já vai longe... mas o texto está ficando engraçado, e ainda vale a pena publicá-lo!)

Desafio de Imagem (by Nanda):


Desafio Das 5 Frases + Tema "Word of Warcraft" (by Sammy):

"No coração da floresta, há um herói desconhecido enterrado."
"Se de verdade permanercermos unidos, nada e nem ninguém poderá nos vencer."
"Até nós, trevas dos confins do universo, defenderemos a Aliança."
"Nosso único império são nossos atos heróicos em busca de justiça."
"Socorro! Que dor! Sangue.... Estou morrendo..."

E, por último, estamos preparando "em off" um desafio coletivo, no qual eu já escolhi dois temas para desenvolver, mas ainda não comentarei nada sobre isso por que os temas ainda não estão todos distribuídos e o desafio ainda não foi lançado oficialmente aqui no blog. Então... comming soon...

Estes são os seis desafios com os quais estou compromissada neste momento.

Minhas companheiras autoras, podem me puxar a orelha se eu tiver esquecido algum! (*medo*)

Cumprida esta tarefa de refrescar minha própria memória, despeço-me, para ter um particular com o Sr Caboclo que me deve algumas visitas.

Desejo a todos um ótimo domingo!


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O Despertar Na Caverna (A Guerreira e o Ogro - capítulo 1)

Posted by Marcinha on 06:00 in , , , , ,
Quando ela abriu os olhos, percebeu que estava dentro de uma caverna. Manteve-se imóvel, enquanto tentava ambientar a vista para divisar o que havia à sua volta. Os instintos de guerreira sempre guiavam sua ações; precisava saber se estava sozinha ou se alguém a vigiava, antes de fazer qualquer movimento que demonstrasse que havia recobrado a consciência.
Percorreu com os olhos o interior da rocha bem iluminada por inúmeras tochas; havia vários utensílios de uso doméstico sobre uma bancada de madeira, alguns alforjes de couro encostados a uma parede, uma caixa de madeira com vários objetos de metal e uma imensa massa de combate. Mais adiante uma fogueira crepitava, e em frente ao fogo havia um ogro sentado de costas para ela. Era uma criatura imensa, vestida modestamente com roupas de couro bem surradas, que remexia o fogo lentamente com um galho seco. A guerreira o observou durante um tempo; o ogro parecia calmo e pensativo. Então ela se moveu lentamente, tentado enxergar o restante da caverna, e sentiu-se mais confortável ao ver que sua espada estava guardada na bainha e colocada no chão ao seu lado, ao alcance de sua mão. Ela esticou o braço para alcançar sua arma e houve um farfalhar neste momento, só então percebeu que estava deitada sobre peles com forro de palha.
– Finalmente acordou. – comentou o ogro em tom casual, com sua voz grave e baixa.
– Quanto tempo dormi? – indagou a guerreira, tratando de estabelecer prontamente um diálogo.
– Três dias. – respondeu o ogro, que se virou finalmente para olhar para ela. – E apenas hoje a febre e a palidez cederam. Como se sente?
– Estou ótima. – respondeu a guerreira imediatamente, mesmo sem ter certeza de como estava sua saúde; mas não iria demonstrar vulnerabilidade ao ogro.
– Que bom. – retorquiu o ogro, um pouco menos amistoso, por ter notado a hostilidade dela. – Se tiver fome, venha comer; há caldo de carne e raízes no vasilhame de pedra.
Tendo dito isto, o ogro voltou-se para o fogo novamente. Mas em vez de revolver as chamas com o galho, colocou-o no chão com um gesto brusco, e ficou imóvel, sentado com os cotovelos apoiados sobre os joelhos.
A guerreira se levantou da cama improvisada onde dormira, e olhou para sua espada num momento de dúvida que durou apenas um instante. Então pegou a arma e prendeu a bainha à cintura; era melhor estar segura do que demonstrar gentileza. O ogro a olhou por sobre o ombro quando percebeu o que ela fizera, depois voltou a fitar o fogo novamente.
Ela se aproximou do vasilhame que continha a sopa, ainda estava quente. Destampou-o e sentiu o cheiro da carne cozida, dando-se conta então do quanto estava faminta. Serviu-se numa generosa cuia de cerâmica, e se sentou para comer perto da fogueira, há uma distância segura do ogro, que ainda fitava o fogo. Só então ela pode perceber o ogro com nitidez; era enorme e corpulento, com mãos grandes e calejadas, com dedos nodosos e unhas incrustadas de sujeira. Tinha a cabeça totalmente lisa, e orelhas grandes demais, em contraste com os olhos pequenos que ficavam praticamente escondidos à sombra da testa proeminente. A boca enorme estava contraída e, acompanhando o cenho franzido, demonstrava a quantidade de pensamentos que deviam agitá-lo naquele momento. Entretanto, o ogro não parecia sentir raiva, nem demonstrava agressividade. Ele parecia sombrio, com uma expressão torturada de quem carregasse todo o peso do mundo sobre seus ombros.
A guerreira sentiu compaixão por ele, mas logo respirou fundo e voltou à postura defensiva. Precisava pensar com praticidade, saber como havia chegado ali e descobrir se conseguiria partir com o consentimento do ogro ou se precisaria usar de violência para isso. Perguntou então, como quem apenas inicia um conversa casual:
– Como cheguei aqui?
– Eu a trouxe. – respondeu o ogro – Eu estava de passagem pelos ermos quando a vi de longe; vi quando perdeu os sentidos, então a recolhi e trouxe para cá, para que pudesse ser cuidada.
– Por que eu perdi os sentidos? – indagou, confusa – O que viu naquele dia?
– Você tentava mover sozinha uma pedra que daria trabalho a dois homens. – respondeu o ogro – Em meio ao esforço caiu, e quando me aproximei a palidez dos mortos estava no seu rosto. Seu cenho estava franzido, acredito que estava sentindo muita dor.
– Eu sangrava? Estava ferida?
– Examinei você o melhor que pude, e não encontrei nada. Não aparentava estar ferida, e não havia nenhum membro quebrado ou mesmo luxado. A única anormalidade é que sua testa queimava... pra dizer a verdade, a cabeça inteira estava quente como a lâmina de um espada esquecida ao sol.
– Ah. – disse ela, assim que compreendeu do que se tratava, e praguejou – Maldição.
– Você sabe o que aconteceu.
– Que pergunta tola, é claro que não. – retorquiu a guerreira, na defensiva.
– Não foi uma pergunta. Você sabe. – o ogro a encarava, fazendo uma pausa enfática – Mas não é obrigada a me contar.
– Eu não sei! – mentiu ela, odiando as dores constantes na cabeça que constantemente a inutilizavam por dias – E também não é da sua conta!
– Não há motivo pra se alterar. Baixe a guarda, está bem? – afirmou o ogro, com um tom decidido e uma expressão dura e repreensiva.
Ela pensou em pelo menos três respostas desaforadas no minuto seguinte, mas acabou por manter-se calada. Um conflito gratuito com o ogro não a levaria a lugar nenhum, e a afastaria das informações que precisava. Respirou fundo, e decidiu ficar calada por algum tempo, enquanto tomava a sopa que já esfriara, esquecida, em seu colo. Em dado momento, olhou para o ogro discretamente, e arriscou mais uma pergunta.
– A pedra que eu tentava mover... eu consegui?
– Não.
– A gruta ficou aberta. – ela lamentou, a voz era um sussurro para si mesma.
– Não. Eu a fechei. Está selada, não se preocupe. – afirmou o ogro.
– Por quê? – ela indagou, aliviada e perplexa ao mesmo tempo – Por quer se deu ao trabalho de fechar algo que... que não significava nada para você?
– Porque eu olhei lá dentro, e compreendi por que você se esforçou até a exaustão para fechá-la. É um sepulcro, não é?
– É. – respondeu ela, com uma expressão sombria, os olhos fixos no chão.
– Quem jaz lá dentro? – indagou o ogro, com real interesse.
– Sepultado lá está tudo que eu já fui um dia. – respondeu ela, cada vez mais sombria – Meu passado. Meu coração. Minhas lágrimas. A dor lancinante no meu peito. Minha alma. – ela ergueu os olhos e encarou o ogro. – Arranquei tudo de mim e enterrei lá.
O ogro fez um silêncio reverente. Compreendia perfeitamente o que ela dissera. Não ficou decepcionado em saber que o sepulcro era simbólico, nem demonstrou escárnio, como por um momento ela temeu que ele fizesse. Em vez disso ele se calou, partilhando por um momento da dor dela. Então, finalmente, a inquietação que ela sentia em relação ao ogro se afastou.
– Ninguém sabe sobre o sepulcro. – ela afirmou, sustentando o olhar dele quando ele despregou os olhos do chão. – Agora você é o único além de mim que sabe que ele existe e o que ele significa. Gostaria que tomasse essa revelação como um agradecimento.
– Não precisa me agradecer a acolhida. – afirmou o ogro com sinceridade – Muitos outros viajantes poderiam ter feito o mesmo por você se a tivessem encontrado primeiro.
– Eu agradeço, sim, por me acolher e por me cuidar; mas estou agradecendo principalmente por se importar. Foi honrado de sua parte se dar ao trabalho de selar um sepulcro. E seu gesto preservou o que há lá dentro; objetos e lembranças que eu não gostaria de ver violados ou saqueados. Tem minha gratidão e meu respeito, ogro – e, dito isto, ela pôs o punho fechado sobre o coração, e se curvou em reverência – Meu nome é Markka, guerreira da Costa Alta, nação que escolhi para mim.
– Sou Zenthor, ogro artesão nascido no Planalto Árido. Minha caverna é sua morada enquanto precisar. – e logo se corrigiu – Pode partir quando quiser, é claro, mas acho que ainda não está forte o bastante.
– Se eu não for um fardo, aceito a oferta. Não tenho pressa de partir.
"Não mais", pensou a guerreira consigo mesma.


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DICAS: Entenda mais sobre o verbo "haver"

Posted by Marcinha on 13 de maio de 2013 06:00 in , , ,

‘Há muito tempo atrás’ é redundante; entenda mais sobre o verbo ‘haver’

O verbo HAVER

É frequente ouvirmos a expressão “HÁ MUITO TEMPO ATRÁS”. Trata-se de uma redundância, pois, se ocorreu “HÁ MUITO TEMPO”, só pode ter sido “MUITO TEMPO ATRÁS”.

Aprendemos, faz tempo, que devemos usar a forma “HÁ”, do verbo “HAVER”, quando nos referimos a um tempo já transcorrido: “Não nos vemos HÁ dois dias”; “HÁ dez anos que ele partiu”.

É interessante observar que a redundância “HÁ…ATRÁS” só ocorre com o verbo “HAVER”. 

Quando se opta pelo verbo “FAZER”, ninguém diz “FAZ dez anos ATRÁS”. Aí todos falam corretamente: “FAZ dez anos”; “FAZ muito tempo”.

É importante lembrar também que, caso a ideia seja de “tempo futuro” ou de “distância”, devemos usar a preposição “a”: “Só nos veremos daqui a dois dias”; “Estamos a dez quilômetros do vilarejo”.

Vamos ver se consigo simplificar as “coisas”.

A dúvida é uma só: é verbo ou não é verbo?

Se for, devemos escrever “HÁ”; se não for, trata-se da preposição “a”. Para provar que é verbo, podemos usar o “macete” da substituição do “HÁ” pela forma “FAZ”: “Não nos vemos há (=faz) dois dias”, “Há (=faz) dez anos que ele partiu.”

Caso a substituição não seja possível, significa que não é verbo. Em “Só nos veremos daqui a dois dias”, não é possível substituirmos por “daqui faz dois dias”. O mesmo ocorre em “Estamos a dez quilômetros do lugarejo” (“Estamos faz dez quilômetros” não faz sentido).

Usamos “ano-luz” para medir distância: “…um astro semelhante ao sol a 153 anos-luz de distância da Terra.” O certo, portanto, é “…estão a anos-luz de distância…”

Por outro lado, está correto o leitor escrever: “o eclipse ocorreu há (=faz) 153 anos” e “…ocorreu há (=faz) muitos anos terrestres atrás”. O “atrás” é que é desnecessário. Agora, temos a ideia de “tempo transcorrido”.

HÁ ou HAVIA?

Leitor quer saber: “Ela estava em cena HÁ ou HAVIA mais de uma hora”.

Segundo o princípio da correspondência dos tempos verbais, devemos dizer que “ela ESTAVA em cena HAVIA mais de uma hora”.

O princípio é o seguinte: devemos usar “HAVIA” em vez de “HÁ”, quando o verbo que acompanha está no pretérito imperfeito (=estava, fazia, era) ou no pretérito mais-que-perfeito (=estivera, fizera, soubera, tinha estado, havia feito).

Em caso de dúvida, podemos usar o seguinte “macete”: substituir o verbo “HAVER” pelo “FAZER”. Se o resultado da troca for “FAZIA” (e não “FAZ”), use “HAVIA” (e não “HÁ”):

“ESTAVA sem comer HAVIA (=fazia) três dias.”

“HAVIA (=fazia) dez anos que o clube não ERA campeão.”

“Ela ESTIVERA naquela cidade HAVIA (=fazia) muito tempo.”

É importante observar que a ação se encerrou. A forma HÁ (=faz) indica que a ação verbal prossegue. Veja a diferença:

a)    “HAVIA dez anos que o clube não era campeão.” (=o clube acabou de ganhar o campeonato);

b)    “HÁ dez anos que o clube não é campeão.” (=o clube continua sem ganhar o campeonato).

TEM ou HÁ?

Leitor considerou uma vergonha o anúncio: “No Brasil não TEM maremotos, vulcões, terremotos, furacões.”

Comentário de outro leitor: “Aprendi que não devemos confundir os verbos “HAVER” e “TER”: ‘Nesta banca HÁ (=existe) várias revistas’ e ‘Esta banca TEM (=possui) várias revistas’. Os gênios da publicidade são os que mais cometem tal erro.”

Os nossos leitores têm razão em parte. Segundo a gramática tradicional, não devemos usar o verbo “TER” no sentido de “HAVER” (=existir).

Não podemos, entretanto, esquecer que o uso do verbo “TER” em lugar do verbo “HAVER” é uma das características do Português falado no Brasil. Isso significa que, num texto informal que queira retratar a linguagem coloquial brasileira, o uso do verbo TER é aceitável.

Não devemos reduzir o caso a simples discussão de certo ou errado. Inadequado seria usar o verbo TER (=haver, existir) em textos formais que exijam uma linguagem mais cuidada, que siga os padrões da chamada norma culta.

* Fonte:
Professor Sérgio Nogueira
http://g1.globo.com/platb/portugues/

 


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Mãe Sem Filha, Filha Sem Mãe (Desafio de Imagem - Tema: Dia das Mães)

Posted by Marcinha on 12 de maio de 2013 06:00 in , , ,
12/05/2013
14:00h
São quatorze horas agora, de domingo, o segundo do mês. Estamos em maio e venta bastante lá fora nesse momento, embora o ar condicionado do carro mantenha meu mundo estabilizado, do jeito que eu gosto.
Como o meu motorista me informou que chegaremos em vinte minutos, aproveito o tempo para atualizar o diário que mantenho no notebook. Não sei onde meu terapeuta quer chegar me obrigando a fazer essas anotações.
Dona Germana me telefonou hoje, misteriosamente, logo após o almoço, me interrompendo enquanto eu relaxava na banheira. Me perguntou quando vou visitá-la. Não entendo o motivo de tanta carência, já expliquei à minha mãe que trabalho demais e não tenho tempo. Repeti isso para ela mais uma vez. Ela me respondeu que sabe como eu sou e que foi por isso que marcou o compromisso desta tarde para mim. Ah, mamãe e seus trabalhos assistenciais. Não sou contra, mas detesto quando ela me envolve nisso.
Divaguei por algum tempo sem escrever e já chegamos ao endereço. Orfanato São Francisco de Assis, diz a tabuleta na porta. Ah, meus sais... isso vai ser pior do que eu pensava.

14:38h
Acabei de sair do orfanato, depois de assinar um termo de responsabilidade pela guarda de Emily Eduarda da Silva por uma tarde. Ela está sentada no banco traseiro ao meu lado agora. Se pela manhã alguém me dissesse que esta tarde teria uma criança de seis anos sentada no meu banco de couro importado, eu teria dado uma sonora gargalhada. Mamãe está cada dia mais engraçadinha em suas piadas comigo.
Ela já havia acertado tudo previamente com a diretora do orfanato. Minha função desta tarde é conduzir Emily Eduarda à uma escola de ballet, onde uma professora lhe dará uma aula demonstrativa. É um sonho da menina, ao que parece. Depois devo levá-la a minha casa e mantê-la lá por um mínimo de uma hora. Não vi sentido algum nisso, mas a diretora me disse que mamãe insistiu nesse ponto. Só então poderei devolver a criança ao orfanato e dar este dia bizarro como encerrado.

14:57h
Meu Jesus! É normal uma criança fazer tantas perguntas ou eles tomam estimulantes no orfanato?

15:30h
Um momento de paz. Já estamos na Escola de Dança que pertence à Madame Eslava, uma bailarina de muito talento, que aparenta beirar os 70 anos agora. A polaca em pessoa fez questão de ensinar Emily hoje. As duas parecem estar se divertindo. A menina é mais esperta do que pensei à primeira vista. Calçou sozinha as sapatilhas que trouxe consigo e reproduz com bastante exatidão os movimentos que lhe são demonstrados. Me faz lembrar minha infância, quando também fiz aulas aqui.
Entre um passo e outro, Emily sempre me olha e sorri. Parece estar eufórica. Pobre menina, parece que não sai daquele orfanato há bastante tempo.

Ops... fiquei tanto tempo observando as duas que agora Madame está me chamando para participar. E, em se tratando de Madame Eslava, não posso dizer não. Ai... lá vou eu...


16:25h
Estamos de volta ao carro, rumo à minha casa. Emily finalmente se distraiu com um dos jogos do meu iPad. Estava tão entusiasmada que pensei que nunca mais pararia de falar.
O final da aula de ballet foi, no mínimo, inusitado. Emily disse que queria dançar comigo assim que entrou uma sinfonia de "Betouuuven" (eu nunca vi ninguém fazer um bico tão grande para pronunciar esse nome).
Eu não tinha idéia do que ela pretendia até que colocou os dois peszinhos sobre os meus. Minha Nossa Senhora da Griffe Européia, a pimentinha da garota subiu no meu Scarpin Italiano! Ela segurou minhas mãos bem apertado e aquele par de olhinhos brilhava tanto que eu não consegui fazer outra coisa senão rir. Então começamos nossa "vauuusa", como a bicudinha havia me pedido. Eu conduzia a pequena pelo salão de tábua corrida, a largas passadas, com os peszinhos dela sempre sobre os meus. Madame Eslava aplaudia, dizendo que estávamos indo muito bem, enquanto Emily ria como se lhe fizessem cócegas.

18:39h
Já estou em casa há cerca de uma hora e meia, mas não tive um minuto para escrever, exceto agora.
Emily estava com fome assim que chegamos. Pedi à Socorro, minha cozinheira, que preparasse a mesa para um lanche. Emily se sentou e se serviu sozinha! Não me lembro de ter tamanha desenvoltura nessa idade. A parte mais interessante foi vê-la "esculpir" a pasta de nozes sobre a torrada integral. Creio que nem Michelangelo tenha alisado uma superfície com tanta concentração nem por tanto tempo.
Depois do lanche, levei-a para ver a sala de Home Cinema. Ela pareceu adorar o tamanho da tela. Me perguntou sobre um filme... "Investigando Nemo" ou algo do gênero. Manuseou meus DVDs em vão, por que só tenho filmes cult. Mas fiquei intrigada quando ela me mostrou a capa do "Drácula", me perguntando se aquele da foto não era o "Lugouuusi". Onde essa menina assistiu a um filme de 1931?!
Ainda estava imersa nesse pensamento quando Fluffy, meu Lulu da Pomerânia, invadiu a sala como se corresse pra salvar sua vida. Foi uma espécie de amor a primeira vista quando Emily e ele bateram o olho um no outro.
Desde então ela o chama sem parar de Fofinho enquanto estala os dedinhos para chamá-lo, ou os dois correm feito loucos, brincando de pegar. Fluffy está esbaforido, pára de vez em quando com uma língua enorme para fora enquanto respira ofegante. Emily está suada a ponto dos cachos grudarem no pescoço, mas ela não se cansa nunca. Os dois saltam e rolam sobre os sofás e os tapetes. Rio comigo mesma enquanto penso que dona Jacira terá um bocado de trabalho extra amanhã. Há marca de pequenas pegadas suadas por todo o sofá...
Pela primeira vez testo a acústica perfeita que o corretor me prometeu quando comprei esse imóvel. Realmente, a gargalhada de Emily ecoa por toda a casa, como uma melodia.

20:21h
Estou no carro, voltando para casa. Acabei de deixar Emily de volta no orfanato.
Ela se pendurou no meu pescoço quando nos despedimos, com um abraço tão apertado que eu achei que ela nunca mais me soltaria. Ela me disse "eu te amo". Meu Deus, por que ela me disse isso de modo tão doce?
Depois que ela se foi, conversei longamente com a diretora da instituição. Assinei mais papéis do que achei que assinaria essa noite.
Estou tremendo tanto que nem consigo digitar. Estou apavorada e... eufórica! Que Deus me ajude e eu não esteja fazendo nenhuma besteira.

22:50h
Jesus! Nem sei por onde começar!
Germana... Mamãe me telefonou ainda há pouco. Queria saber como tinha corrido o compromisso da tarde. Eu disse a ela que tudo tinha corrido bem e que eu tinha algo muito sério para dizer.
Ela ficou muda ao telefone. Ela sabe que extrapolou desta vez, me enviando sem o meu consentimento na missão tomar conta de um criança. Ela sabe que isso é algo que eu jamais deixaria passar sem dar uma faniquito.
"Eu preciso te comunicar algo", eu disse, muito séria. "Eu vou adotar a Emily. Já assinei os papéis dando entrada no pedido de adoção hoje mesmo."
Ela continuou muda. Então começou a chorar. Eu senti o chão desaparecer sob meus pés. Esperava qualquer reação, menos um choro tão sofrido.
Desesperada, perguntei se ela estava bem.
Ela me disse que estava ótima. Que estava emocionada, mas estava ótima.
Então ela me disse que eu acabara de dar a ela o melhor presente de dia das mães que eu poderia dar.
Dia das Mães. Hoje. Meu Deus. Isso nem me passou pela cabeça.
Ela me disse que sabia que eu esqueceria, como sempre. Disse que queria me dar a oportunidade de ver como uma família pode fazer falta para alguém em um dia como hoje. Nunca pensou porém que meu coração fosse tocado a ponto de eu desejar ser mãe daquela criança.
Ela me disse que estava mais que feliz.
Desejei Feliz Dia das Mães a ela. Ela me desejou o mesmo. Isso foi inusitado, e divertido. Perguntei a ela se já estava indo dormir, e ela me disse que não. Pedi que me esperasse então, pois estava indo vê-la.
Estou no carro, a poucas ruas de sua casa. Ainda há tempo de dar um abraço na minha mãe no dia dela.


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Desafio da Imagem: Dia das mães!

Posted by Nanda Cris on 7 de maio de 2013 05:00 in , , , , , ,
Meninas! Vamos botar a cabeça para funcionar e escrever um desafio de dia das mães?

Denize


Marcinha


Nanda


Paty


Sammy

Valendooooooooooooooo!

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Rumppelsthorn Cava-Rocha

Posted by Marcinha on 5 de maio de 2013 06:00 in , ,
 Embora não houvesse maneira alguma de ver o sol nascendo lá fora, o anão sabia, como todos os anões sempre sabem, que já era manhã. Rumppelsthorn, ou Rumppel, como era conhecido nos seus bons tempos, desceu os degraus de sua casa rumo ao trabalho. Havia saído pelo alçapão, habilmente escondido sob o tapete de pele no chão de seu quarto. Após fechar o alçapão atrás de si, apenas seu alforge com ferramentas e o candeeiro que carregava lhe fariam companhia enquanto descia os degraus de pedra da mina subterrânea há tempos escavada.
 O anão olhou a sua volta, e respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar frio e úmido das entranhas da terra. O cheiro de terra e rocha molhada sempre o revigorava, o fazia sentir-se como nos tempos em que desfrutava do respeito de muitos de sua raça. Agora estava velho demais, e desacreditado demais; seu tempo havia passado, era o que muitos lhe diziam.
 Por outro lado, as coisas haviam mudado muito desde a Última Batalha; a vitória sobre o inimigo de sua terra havia cobrado seu preço a muitos povos, dentre eles, o seu. Os anões não haviam ficado de todo pobres, mas já não possuiam a riqueza de outros tempos, e isso havia dispersado a sua nação de uma maneira que incomodava o velho anão. Havia anos que muitos anões jovens haviam partido para outras terras, em busca de trabalho. Os jovens demais haviam ficado; mas já não levavam em conta os antigos valores, nem se detinham mais a dar atenção ao que os mais velhos falavam. E assim o prestígio dos mais sábios ficara esquecido e grandes anões, como ele fora um dia, agora figuravam em conversas onde o desdém e a zombaria estavam sempre presentes. E isso entristecia enormemente o velho Rumppel.
 Ele ajeitou o pesado alforge às costas com um solavanco, enquanto descia a escada estreita, ora dobrando à direita, ora à esquerda nos patamares de rocha que separavam os inúmeros túneis. Logo voltava a descer, uma escada após a outra, orientando-se pela frágil luz do candeeiro e pela agudeza de sua memória. Há vários dias fora difícil encontrar o antigo caminho, mas agora estava acostumado a ele mais uma vez. A vontade de encontrá-lo o havia guiado através dos túneis, sem nunca desistir.
 Rumppel chegou ao fundo da trilha, à parte que ele escavara sozinho nos últimos dias. Colocou o alforge no chão e pendurou o candeeiro em um gancho que instalara na parede. A tímida luz iluminou a parede de rocha, que ele analisava demoradamente enquanto retirava as ferramentas. Observou a rocha molhada à sua frente, que ele escavara tão fundo, metros incontáveis abaixo da superfície. Sentia que estava perto. Algo lhe dizia que estava próximo de encontrar o que procurava, embora não soubesse exatamente o que era. Mas, incontestavelmente, buscava algo que lhe devolvesse o prestígio de seus velhos tempos. Queria mostrar a todos os anões que ele ainda era Rumppel, o grande; intrépido e desbravador como nos tempos de sua juventude. Os anões não lhe davam o devido valor, assim como não davam valor à sua própria terra e suas origens, afastando-se de sua nação em busca de fortuna em outros reinos. Rumppel lhes mostraria como os anões de verdade se erguiam, explorando e mineirando a terra sob seus próprios pés, como seus antepassados haviam feito quando todas jóias possuídas já não eram suficientes para satisfazer-lhes a sede de riqueza. Ele reviveria os túneis que sua família escavara, os veios abertos para a prosperidade da terra que fizeram o nome do clã Cava-Rocha na era de ouro dos anões.
 O velho anão enfiou sua barba ruiva, quase toda tomada por fios prateados, no desgastado cinto, preparando-se para o trabalho. Tocou a rocha molhada com seus dedos nodosos, tentando sentir diferenças de temperatura ou vibrações, procurando pistas de em que direção deveria cavar. Foi então que ele sentiu um pulsar. Retirou subtamente a mão, com assombro, e logo recolocou-a na mesma velocidade, temendo perder a sensação que sentira. Mas o pulsar estava lá, nítido, sob a rocha. Rumppel agarrou sua picarenta e começou a cavar com avidez, um golpe após o outro, sem parar um instante até que um objeto se revelou à sua frente. Ele continuaou a escavar seu entorno, usando ferramentas menores, a fim de não danificá-lo. Após algumas horas de trabalho, Rumpell retirou da rocha um objeto antigo e desgastado, que revelava em seu interior o pulsar que ele havia sentido.
 O velho anão examinou o objeto à luz do candeeiro, era um urna de aparência antiga, até mesmo ancestral, diria ele. O recipiente esculpido em pedra escura e muito lisa se assemelhava a um jarro com tampa, ricamente ornado com desenhos e símbolos em baixo-relevo por toda a superfície. De cada lado havia uma alça circular, por onde Rumppel o segurava, e inscrições em um dialeto que o velho anão não conseguia reconhecer. Ele respirou fundo, comtemplando seu achado, que ainda transmitia o mesmo pulsar à sua mão, e  experimentou a tampa; estava trancada. No mesmo instante foi tomado de inquietação, o que ele ainda estava fazendo debaixo da terra? Já havia encontrado algo, provavelmente uma grande descoberta, a julgar pelo aspecto misterioso e o fato de estar trancada. Isso sem contar aquele rufar pulsante que não cessava! O velho anão recolheu as ferramentas ao alforje; logo em seguida, mudando de idéia, despejou-as todas no chão novamente. Então, com todo o cuidado, colocou apenas a urna no interior do alforge; amarrou-lhe a boca e jogou-o as costas com delicadeza. Em seguida recolheu o candeeiro da parede de pedra e partiu, escada acima.
 À medida que subia, Rumppel tentava pensar rapidamente no que deveria fazer. Não podia anunciar sua descoberta abertamente, sem ao menos saber do que se tratava. Precisava encontrar alguém que abrisse a urna, que parecia estar selada magicamente, já que não possuía nenhuma tranca ou fechadura visível. Também deveria de ser alguém de confiança, para não lhe roubar o achado. Além disso seria interessante ter um mago por perto, com poder suficiente para algum imprevisto; pois aquele pulsar constante o estava deixando bastante inquieto.
 O velho anão ruivo subiu todos os degraus sem nenhuma pausa, no mesmo ritmo frenético de seus pensamentos. Entretanto, quando alcançou o alaçapão no chão de seu quarto, Rumppel já sabia exatamente a quem devia procurar.

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Desafio de Páscoa

Posted by Nanda Cris on 27 de março de 2013 22:26 in , , , , ,
A Páscoa está chegando e nada como um desafio para animar nosso feriado!
Quem topa???


Denize - Desafio das 5 frases!
* Ei, ei, ei, Sr. Coelho!
* Mas qual o significado das cores?
* Ei, aquilo é um dromedário???
* Seu celular está tocando.
* No final do túnel acharemos o que estamos procurando.

Marcinha - Desafio das 5 palavras!
* Cogumelo
* Hidratante
* Girafa
* E-mail
* Copo

Paty  - Desafio Musical!

Letra aqui: http://www.lyrics59.com/A-Festa-Dos-Coelhinhos-lyrics-2165391.html

Sammy - Desafio do Tempo e do Espaço!
O sol está queimando a tudo que toca, até as folhas parecem meio murchas, sedentas. A floresta está silenciosa em expectativa. Aqui e ali vemos pedacinhos de ovos brilhando ao sol. Risadas de crianças são ouvidas ao longe.

Nanda - Desafio da Imagem!

Escritoras, gonna escrever!


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Livre - resposta ao desafio musical (tema estrangeiro)

Posted by Marcinha on 18 de fevereiro de 2013 05:00 in , , ,
Livre
(Nota da Autora: Estes acontecimentos sucederam os do texto "Acelerando", que pode ser conferido aqui.)

Me exercito com pesos no quarto onde ficam meus aparelhos de ginástica. Olhando-me no espelho, confiro a postura enquanto conto mentalmente as flexões feitas com o braço direito. O som do Queen se espalha pelo quarto, compassando o exercício.

"I want to break free
I want to break free
I want to break free from your lies
You're so self satisfied I don't need you
I've got to break free
God knows, God knows I want to break free."

A letra da música dá o que pensar. É impressionante como a mente voa quanto fazemos algo que mantém o corpo mecanicamente ocupado.

Nesse momento ouço uma voz que me é tão familiar.

- Eu sabia que você ia voltar. Tanto rebuliço, tanto barulho por nada. Voltou exatamente pro mesmo lugar de onde saiu. Como sempre.

- Não me lembro de ter pedido sua opinião. - respondi com amargura, continuando meu exercício - Fiz isso por minha própria conta, independente do que você pense ou tenha a me dizer. Eu decidi voltar. Estou dando uma segunda chance a mim mesma. Ponto.

- Você é fraca, isso sim. - retorquiu, com um risinho debochado - Desistiu da fuga. Mas não pode se ver livre de mim e sempre estarei aqui para dizer o quanto você é fraca e imperfeita. Ah, e covarde!

- E porque você não cala essa boca?! - cuspi, num rompante - Sempre me atormentando, sempre enchendo a minha cabeça com intrigas. Grande parte do que você diz não se aproveita. Estou farta das suas mentiras!

- Você precisa de mim, querida... - afirmou, com sua falsa doçura - Tudo que você é hoje, fui eu quem te ensinou. Eu fiz de você a mulher forte que você é hoje. Toda essa pose... agradeça a mim! Você era uma completa submissa, sem nenhuma tenacidade.

- Eu sei o quando a sua ajuda me fez crescer, eu reconheço isso. Mas me envenenou um bocado também. - afirmei com convicção - Agora eu já posso tomar decisões por mim mesma, sem ter de ouvir o seu veneno o tempo todo, sem me basear somente no que você acha. - disse, cada vez mais irritada - E escute aqui! Eu estou tentando me apaixonar, eu optei por isso! Quero entrar de cabeça nesse retorno e fazer meu casamento dar certo! Mas você não está ajudando nem um pouco!

- Cadê a pessoa que afirma que "o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas"? - riu abertamente, num misto de desdém e sarcasmo - Se apaixonar! Agora entregou os pontos de vez... Está é acomodada! Você não é mulher suficiente pra tomar uma iniciativa na vida, não é?

- Sou! E vou te mostrar! Sou capaz, sim, de tomar uma atitude e me libertar de você de uma vez por todas!

A raiva me corrói por dentro, queima, fere, embaçando minha visão. Ódio! Rancor! Mentiras! Chega de mentiras! Preciso me libertar disso! Preciso me libertar agora! Chega!!!

Numa descarga de adrenalina, levantei a barra cromada com quatro anilhas de dez quilos. Arremessei quarenta e tantos quilos de pura ira contra o sorriso debochado que me feriu tantas vezes. O projétil pegou bem no meio dos olhos. Esse foi o meu "basta". Eu não vou mais precisar te ouvir! Nunca mais!
Silêncio. Enfim o silêncio.

Observo satisfeita os restos do meu adversário no chão. Era apenas um espelho, eu sei. Agora o espelho jaz em cacos sobre o piso à minha frente. Foi uma ação simbólica. Mas para o meu subconsciente, quer dizer muita coisa.

Essa parte de mim, essa mulher cruel que me encara no espelho, que me subestima e ridiculariza, e que me envenena todo o tempo terá de ficar calada de agora em diante. Eu preciso ser livre, livre de preconceitos que distorcem a minha visão, livre de mentiras que eu contei a mim mesma e que transformaram meu companheiro de vida num inimigo distante.

Agora eu estou livre.

Estou livre para me prender novamente, segundo a minha vontade.


 
I Want To Break Free
Eu Quero Me Libertar

I want to break free
Eu quero me libertar
I want to break free
Eu quero me libertar
I want to break free from your lies
Eu quero me libertar das suas mentiras
You're so self satisfied I don't need you
Você é tão auto-suficiente, Eu não preciso de você
I've got to break free
Eu tenho que me libertar
God knows, God knows I want to break free.
Deus sabe, Deus sabe que eu quero me libertar

I've fallen in love
Eu me apaixonei
I've fallen in love for the first time
Eu me apaixonei pela primeira vez
And this time I know it's for real
E dessa vez eu sei que é verdade
I've fallen in love, yeah
Eu me apaixonei, sim
God knows, God knows I've fallen in love.
Deus sabe, Deus sabe  que eu me apaixonei

It's strange but it's true
É estranho, mas é verdade
I can't get over the way you love me like you do
Eu não posso superar o jeito que você me ama
But I have to be sure
Mas eu tenho de agir certo
When I walk out that door
Quando eu ando para fora daquela porta
Oh how I want to be free, baby
Oh, como quero ser livre, querido
Oh how I want to be free,
Oh como eu quero ser livre,
Oh how I want to break free.
Oh como eu quero me libertar

But life still goes on
Mas a vida continua,
I can't get used to, living without, living without,
Eu não posso me acostumar a, viver sem, viver sem,
Living without you by my side
Viver sem você ao meu lado
I don't want to live alone, hey
Eu não quero viver sozinho, hey
God knows, got to make it on my own
Deus sabe,eu tenho de fazer isso sozinho
So baby can't you see
Então, querido, você pode ver
I've got to break free.
Eu tenho que me libertar


I've got to break free
Eu tenho que me libertar
I want to break free, yeah
Eu quero me libertar, sim
I want, I want, I want, I want to break free.
Eu quero, Eu quero, Eu quero, Eu quero me libertar



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Resposta ao Desafio Musical

Posted by Marcinha on 15 de fevereiro de 2013 05:00 in , , , ,

Acelerando
(texto inspirado na música "Trancado", de Ana Carolina)



Enxugo as lágrimas num movimento rápido, passando o antebraço pelo rosto, a fim de desembaçar a visão da estrada à minha frente. Mudo a marcha, "mandando uma pra baixo", e acelero mais do que deveria. O motor V8 ronca debaixo do capô, enfurecido. Não está mais enfurecido que o meu coração, entretanto.

Droga! Deu tudo errado! Merda! Eu rosno entredentes. Agora acabou. Vida nova.

Preciso de música. Onde está meu pen drive? Não está no porta luvas. Que droga. Olho pelo retrovisor interno, para a montanha dos meu pertences pessoais amontoados no banco traseiro do meu Dodge. Não vou encontrar meu pen drive nessa montanha de coisas. No mínimo o deixei pra trás, no rompante da minha saída de casa.

Nem um maldito AC/DC eu posso escutar pra me consolar!

Rádio. Odeio, mas ter de servir.

"Eu tranco a porta
pra todas as mentiras
E a verdade também, está lá fora
Agora, a porta está trancada"

Música nacional, eu mereço... se bem que eu amo a voz da Ana Carolina. E a música é muito pertinente nesse momento. Minha porta agora está bem trancada. Tranquei meu coração, minha alma, minha vida. E vou jogar a chave fora!

"A porta fechada
me lembra você a toda hora
A hora me lembra o tempo que se perdeu"

Oh, droga... estou chorando de novo. O tempo é um carrasco... como, depois de 20 anos, não lembrar de alguém a toda hora?

"Perder é não ter a bússola
É não ter aquilo que era seu
E o que você quer?
Orientação?"

Aquilo que era meu... eu sempre tive certeza que ele era meu. E ainda tenho certeza que é meu. Oh Deus, como foi que tudo se perdeu? O que faltou? Do que ele precisava pra me amar da maneira pela qual eu tanto ansiei? Orientação? Mais? Precisava que eu fizesse um gráfico? Meus Deus, eu falei tantas vezes...

Piso mais fundo no acelerador, ouvindo o ronco ensurdecedor do oitão. Ainda bem que a estrada está vazia.

"Eu tranco a porta pra todos os gritos
E o silêncio também está lá fora
Agora a porta está trancada"

Chega dos gritos, dos dele, dos meus próprios. Chega dessa fera raivosa na qual eu mesma me transformei. Não quero esse ódio que eu carrego no meu peito. Se os momentos bons compensassem... se fossem a maioria. Silêncio, paz. Companheirismo. Afinidades. Hoje, deixei isso tudo para trás...

"Eu pulo as janelas
Será que eu tô trancado aqui dentro?
Será que você tá trancado lá fora?"

As lágrimas afloram, incontroláveis. Alivio um pouco o pé do acelerador. A estrada é uma massa disforme na minha frente. É melhor eu parar no acostamento. Ligo a luz de alerta e estaciono o Dodge.

Eu sinto uma dor no meio do peito quase como se um alien fosse saltar por ali. Ele sempre foi a única pessoa na minha vida inteira capaz de me fazer sentir uma dor assim. Será essa dor a minha companheira de agora em diante? Resolvi me trancar e partir, achando que a dor não me seguiria. Ledo engano. E agora estou só, sozinha pra lidar com essa dor no meu peito. Ele está longe, pra sempre. Ele que me fez sentir dor tantas vezes. Ele... que tantas vezes também foi meu bálsamo. Inúmeras vezes ele foi tudo de que eu precisava. Ele que sempre esteve ao meu lado. Para tudo, sempre me estendendo a mão. Por mais de vinte anos.

"Será que eu ainda te desoriento?
Será que as perguntas são certas?"

Cruzo os braços sobre o volante negro à minha frente e descanso sobre eles a cabeça. Não sinto nem sombra da raiva que me movia quando saí de casa. Agora eu sinto apenas o pesar, imenso e insuportável, como o peso do mundo inteiro sobre os meus ombros.

Eu que desconfio tanto das pessoas, eu que tenho tantas incertezas... Sobre ele, há tanta coisa que eu sei! Eu sei que ele me ama, eu sei que eu o desoriento a ponto de nem sempre ele fazer o que eu preciso, mas... o amor dele é incontestável. Disso eu sempre soube.

Merda, o que eu estou fazendo?!

Choro. Choro até meu rosto ficar vermelho, até os soluços sacudirem violentamente o meu corpo. Eu fiz todas as perguntas erradas, foi isso? Me perguntei exaustivamente como sair dessa situação, quando deveria ter me perguntado como melhorá-la?

Levanto a cabeça e recosto-me no banco do motorista. Fecho os olhos, enquanto sinto o tremor do V8 funcionando em marcha lenta. É como um acalento, uma canção de ninar. Os carros tem sido meu mundo, desde que conheci aquele homem. O ronco do motor me acalma, a velocidade me alegra.

Choro recostada ao banco, até não ter mais lágrimas. Mantenho os olhos fechados. Fico em silêncio por tanto tempo, que o choro que banhou meu rosto seca totalmente.

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

Abro os olhos. Respiro fundo, tomando coragem. Há uma estrada à minha frente. Não posso voltar atrás agora. Eu sei exatamente o que devo fazer.

Engreno a primeira e saio do acostamento cantando pneus. Ganho a estrada a minha frente, retomando o percurso que fazia, o caminho que me leva para longe de casa. Olho pelo retrovisor todos os meus pertences no banco traseiro, a estrada vazia que ficou para trás...

A estrada totalmente vazia. É agora ou nunca.

Tiro o pé do acelerador, puxo o freio de mão sob o painel e viro o volante todo para a esquerda, mandando "um cavalo" no meio da pista. O Dodjão canta os pneus enquanto desliza num elegante ângulo de cento e oitenta graus. Eu o alinho na pista rapidamente, no sentindo contrário ao que eu vinha. Empurro uma marcha pra baixo e catuco fundo o acelerador, deixando um rastro de borracha no asfalto e uma nuvem com cheiro de pneu queimado que me é tão peculiar.

Estou voltando para casa.

"Então eu me tranco em você
E deixo as portas abertas"



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Desafio da Imagem para todas!

Posted by Nanda Cris on 4 de fevereiro de 2013 05:00 in , , , , , ,
Recebi uma imagem da Marcinha me desafiando e pensei... porque não desafiar a todas!? Então, lá vai... não é obrigatório e quem quiser, topa, quem não quiser, não topa!

Denize


Giulia


Marcinha


Nanda


Paty


Sammy

Coming soon! Rs.

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Desafio de Imagem

Posted by Marcinha on 30 de janeiro de 2013 06:00 in , , , , , ,
Há cerca de quinze dias eu estava pensando sobre voltar à ativa na roda dos escritores, mas o medo de estar enferrujada demais sussurava no meu ouvido que eu devia me concentrar apenas nos meus lápis de desenho.
Então eu expliquei a um amigo como funcionava o Desafio de Imagens e pedi que ele escolhesse uma imagem para mim. O texto a seguir é o produto desse desafio encomendado, juntamente com a linda imagem que recebi.
Obrigada, Nar, pela imagem. Fiquei bastante satisfeita com o texto que nasceu dela.

Dia Cinzento


Os dois exércitos se colocaram frente a frente em campo aberto. O exército branco fora reunido e posto em marcha rapidamente, assim que batedores acusaram o avanço do exército negro. Isso apenas foi possível graças a impecável organização militar do reino de Astharg. O capitão de todas as tropas era o responsável por isto, além de ser um guerreiro habilidoso, um estrategista brilhante e um líder reto em sua conduta. Apenas o rei em pessoa exercia mais autoridade que ele no campo de batalha.

As duas imensas tropas se encaravam, imóveis. O silêncio era interrompido vez por outra pelo relincho dos cavalos, inquietos na expectativa do confronto, e o bater de seus cascos no solo. Na tropa branca, com suas capas e mantos alvos cobrindo o dorso de seus animais, os homens estavam concentrados e quietos, atentos ao comando de seu rei. A tropa escura tentava conter-se em sua sede de sangue, temendo a punição de sua senhora. Sabiam que a rainha feiticeira não tolerava indisciplina, e todos os seus servos, embora fossem orcs, elfos negros, goblins e trolls, temiam a fúria dela, bem como seus poderes.

Repentinamente, soprou uma brisa fria. O céu, que estivera claro até aquele momento, acolheu sem protestos a chegada de espessas nuvens. De todas direções uma neblina cinzenta se levantava do solo árido, como se a planície rochosa tivesse se transfigurado em pântano. A bruma se movia implacável, envolvendo os dois exércitos e tudo o mais à sua volta. Logo tudo estava cinzento e opressivo, deixando confortável a turba de monstros, enquanto a claridade do sol acima das nuvens lutava para fazer seu papel e clarear a visão do campo de batalha para os homens do rei.

Callael, o Justo, como era conhecido o soberano de Astharg, fez sinal para que suas tropas esperassem. Assentiu com cabeça para o capitão ao seu lado, cuja identidade estava propositalmente encoberta pelo elmo polido. O rei e seu capitão trotaram à frente, seguidos por apenas mais dois cavaleiros. Callael tentaria a diplomacia, frente àquele ataque sem propósito.

Danthor, cavalgou à frente para encontrar o rei branco. "O Inconstante" era sua alcunha, um apelido bastante válido para um mercenário. Era o único humano na tropa da rainha sombria, e desempenhava a função de estrategista, uma vez que nem mesmo os elfos negros possuíam um cérebro que suplantasse a gana pela batalha. Danthor, o braço direito da rainha, parou seu cavalo frente à montaria do rei. Olhou por sobre o ombro, esperando a aproximação do animal que o seguia. Uma tigresa enorme e cinzenta parou ao lado da montaria do mercenário, e pôs-se a observar o rei e seus homens.

Callael estava um pouco intimidado pela presença daquele animal selvagem, e pelo tamanho que o felino ostentava, mesmo sendo uma fêmea. Até mesmo a batalha tem certas regras, e elas são honradas tanto por homens como por outras criaturas com menos caráter. Mas teria um animal este discernimento? Negando seus receios, o rei ergueu a voz ao líder da tropa inimiga.

- Quem és tu, a quem me dirijo? Tu respondes pelo comando deste exército que invade as minha terras, e por este ataque sem propósito?

- Sou Danthor, o Inconstante, a serviço da rainha Zandara. Comando as tropas da dama sombria na missão de devastar suas terras. O que será um prazer para mim, devo acrescentar. - arrematou com maldade, o mercenário.

- Por quê? - exasperou-se o rei - O que fizemos contra tua nação?

O mercenário riu, como se estivesse se deleitando com alguma piada particular. Encarou o capitão, ao lado do rei. A enorme felina também o encarava, como se espreitasse uma presa. O capitão do rei retirou seu elmo, revelando a pele branca e os olhos azuis. Encarou a fera à sua frente por um momento, ignorando Danthor. Em seguida se dirigiu ao rei.

- Meu senhor, permite que eu assuma?

- O que poderia resolver o meu capitão, mais que seu rei? - retorquiu Callael, ferido em seu brio, em parte por sentir-se secretamente intimidado pela fera que continuava a observá-los.

- Meu senhor... pai. - implorou o capitão - Agora entendo que é um assunto meu. Me dê sua permissão, por favor.

O rei assentiu, e recuou sua bem treinada montaria cerca de um metro, deixando o capitão na dianteira. O príncipe então ergueu a cabeça, desafiador. Estava no comando agora.

- Por que acha que me intimidará mais que seu velho? - provocou Danthor.

- Cale-se, verme. - rosnou entredentes o capitão - Meu assunto é com a tigresa. - e, dizendo isso, desmontou de seu cavalo.

A imensa felina agitou-se, franzindo o focinho e exibindo as presas num rosnado ameaçador, enquanto serpenteava a cauda no ar. Por um breve momento pareceu que atacaria o homem de pé a sua frente, ignorando sua armadura completa. Mas algo inusitado aconteceu. A fera balançou a cabeça em negativa e começou a transfigurar-se, livrando-se da sua forma animal. Numa metamorfose impressionante, a tigresa deu lugar a uma mulher de pele cinza, que se empertigou em frente ao capitão, encarando-o com o queixo erguido e um fogo devorador no olhar.

Apesar do aspecto cinzento, que denunciava sua condição de morta viva, a mulher possuía um beleza marcante e exótica. Tinha cabelos longos e negros que se derramavam até a cintura, e uma boca pequena e feminina que estava contraída num ódio mortal. As formas do corpo eram sólidas e volumosas, numa constituição própria de uma mulher que possui habilidade com armas pesadas. Mas seu dom maior vinha de seus poderes de feiticeira, e a força das trevas transparecia nela através das íris acesas como brasas. Vestia uma túnica ocre, com longas fendas laterais, o que deixava suas pernas e parte seu tronco à mostra. Calçava sandálias de tiras douradas que pouco lhe cobriam os pés, arrematadas por fitas que lhe ziguezagueavam pernas acima, terminando em uma amarrado nas coxas. Na testa alta ela trazia uma tiara de ouro, com a face da morte estampada no centro. A rainha era terrível e bela, a ponto de descompassar a respiração do capitão a sua frente.

- Não tenho nenhum prazer em revê-lo, príncipe Chaerlisson. - disse a senhora sombria, com sua voz rouca e impregnada de veneno - Que assunto pode ter comigo, que já não tenha sido dito na sua despedida?

- Zandara... - ele proferiu o nome dela em tom firme, mas suave - Eu sinto muito. Eu lamento o que aconteceu, mas está além da minha decisão. Eu tenho obrigações com meu reino.

- Lamenta o que aconteceu... Exatamente o que você lamenta? A sua partida repentina ou todo o tempo que passamos juntos? - sua boca se contraía ao final de cada frase, os seus olhos pareciam querer-se incendiar.

- A minha partida. O seu sofrimento. O meu sofrimento... Zandara. - ele afirmou com convicção - Mas é preciso que seja assim.

- A sua princesinha é mais rainha que eu? - indagou a feiticeira com desdém - Qual a vantagem em desposá-la? Ela nem mesmo senta-se ainda ao trono de sua nação!

- Zandara, esse casamento será a aliança entre o reino dela e o meu. Trará muito benefício para o meu povo, que sofre com a fome e a seca. Belrim é um terra próspera e as transações comercias que irão...

- Você a ama? - interrompeu-o a rainha sombria, como se tentasse apunhalá-lo com suas palavras.

- Não!! - esbravejou ele, com os olhos arregalados de indignação - Não, Dara... eu não a amo. - ele cruzou os dedos à nuca, e arrastou as mãos pela barba até o queixo, num gesto de profunda frustração - Sabe que só há uma mulher em meu coração. Ou não consegue mais acreditar em minhas palavras?

- Eu lhe ofereço meu reino, Charlie, meu querido. Meu trono. Meu corpo. Meu poder. Pegue tudo o que você quiser. - ela mantinha a voz firme, mas seu rosto era uma súplica desesperada.

- Dara... - o príncipe tentava escolher palavras que não a machucassem tanto - Dara, minha rainha... seu povo é selvagem, sem nenhum ofício; suas terras foram devastadas por eles. Seu reino... não pode acrescentar nada ao meu povo. Zandara, você não tem nada a me oferecer, a não ser essa paixão que me assola, queimando meu corpo e meu coração dia e noite. - ele sustentou o olhar dela, que havia endurecido novamente, despejando nele ódio e repulsa. - Eu não posso ser seu. Meu povo precisa de mim.

A rainha sombria tinha então o rosto transtornado de tal maneira que toda a sua beleza se fora, dando lugar a uma face vingativa, como uma máscara de mau agouro. Ela assentiu com a cabeça como se concordasse, mas seus olhos de fogo revelavam os pensamentos que lhe ardiam  por dentro, como óleo fervente.

- Belrim é que recusará esta aliança, depois da batalha de hoje, Chaerlisson. - ela sussurrou entredentes, como uma serpente chiando antes do bote - Ao fim deste dia, seu reino não será mais que cinzas e escombros!

- Zandara, não! - ele ordenou, mas em vão; ela nem mesmo o ouviu.

- Danthor! - ela chamou, cheia de fúria - Lidere meu povo à vitória! Quero sangue, fogo e devastação cobrindo esta terra agora! Matem todos!!!

- Pelo poder de Zandara! Vitória ou morte, criaturas sombrias! - gritou o Danthor, apontando para frente sua espada, e avançando com sua montaria -  Pela rainha! À batalha!

A turba de monstros grunhiu como feras confinadas e avançou seguindo Danthor, brandindo suas rústicas armas em busca do sangue adversário. O príncipe montou imediatamente e empinou seu cavalo, erguendo com orgulho o estandarte do rei, enquanto bradava palavras de comandado aos seus homens, instigando o ataque.

Em meio a névoa, Zandara se desmaterializou rapidamente, deixando para trás o campo de batalha.



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