4

Desafio de Halloween - Por Nanda Cris

Posted by Nanda Cris on 1 de novembro de 2013 06:00 in ,
Oi gente!

Esse ano resolvemos fazer um "amigo oculto" de desafios de Halloween. Quem me presenteou com 5 palavras foi a Sammy e as palavras foram:

Profissional
Atenuar
Cenoura
Doninha
Indeciso

Fiquei chocada com a cenoura... cenoura no Halloween? Bad, bad Sammy... no donnuts for you! Mas desafio é desafio, então vamos que vamos.

Saiu um texto curtinho, em que o Halloween entrou, serviu o café e saiu, rs, mas quem nunca passou por isso que atire a primeira pedra!

.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

- Cara, não tô acreditando que você me convenceu a ir nessa festa de Halloween!
- Ah, cala a boca e coloca essa fantasia logo, vai ficar um arraso!
- Um arraso? Um arraso na minha reputação, você quer dizer né? Vou ficar parecendo uma Doninha.
- Se você acha isso, porque não alugou outra?
- Porque você ficava gritado no meio da loja que eu era indeciso, peguei a primeira porcaria que vi!
- Eu não estava nada gritando, Fernando! Pára de ser melodramático!
- Não estava gritando? Ah, não vem atenuar sua atitude não, porque você não tem desculpa! Não sei como você não ficou rouca no dia seguinte de tanto que gritou!
- Ok, Fernando. Não vou discutir com você, sinceramente! Na verdade, eu não sei nem porque eu voltei a falar com você...
- Ah não! Esse papo do cabelo cenoura de novo?!
- Não é cenoura! É ruivo! Quantas vezes vou ter que repetir?
- A mesma quantidade de vezes que eu te falei para não pintar com a sua mãe, aquela jararaca, e sim, com um profissional.
- Como assim jararaca??? Fernando!!!
- Passa pra cá essa Doninha que a gente já está atrasado!
- Ah, agora você quer ir pra festa?
- Qualquer coisa para você ficar feliz, querida.
- Não venha me comprar com esses queridas não. Te conheço há 20 anos, Fernando! Isso não cola mais!
- E esse cavanhaque na sua nuca? E esses beijinhos ao pé do ouvido? Cola?
- Para Fernando... pa... para....
- Já sei uma coisa melhor para fazermos no nosso Haloween do que ir nessa festa...
- E o que é?
- Melhor do que te falar... é te mostrar...

.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x

Nota da autora:

Quando eu fiz meu curso de noivos, um casal que tinha 40 anos de casados foi lá no evento explicar como conseguiram ficar tanto tempos juntos sem brigar.
A fórmula é simples: "Você prefere estar certo, ou você prefere estar de bem?"
Fernando, do conto acima, prefere estar de bem... e você?



|
Gostou?
2

HUMOR: Silvio Santos - a verdadeira história

Posted by Aptos on 06:00 in , , , ,
Que Silvio Santos é um ícone da TV Brasileira, não há a menor dúvida, mas finalmente conseguimos sua verdadeira história, sem cortes!



Silvio Santos inventou o Natal pois não sabia que nome dar para a TeleSena de Dezembro.

Silvio Santos joga banco imobiliário com dinheiro de verdade.
 
Jesus transforma água em vinho. Silvio Santos transforma qualquer porcaria em dinheiro.
 
Na sua ultima tentativa de dar uma esmola, Silvio Santos soterrou um sem teto com 3 toneladas de moedas de 5 e 10 centavos.
 
Silvio Santos é o ser humano vivo que mais possui empresas no planeta. As iniciais SA que figuram depois dos nomes das maiores empresas do mundo significam, na verdade, Senor Abravanel.
 
Certa vez o coração de Silvio Santos ficou parado por 5 minutos, ele retornou dono de 80% do além.
 
Silvio Santos pessoalmente descobriu a cura da Aids. Em 2015 ele pretende revelar esse segredo como prêmio do Raspe Aqui da Telesena de Ano Novo.
 
Em 1929, Silvio Santos jogava Banco Imobiliário e exclamou "estou falido!". O mal entendido causou a quebra da bolsa de Nova York, o infarte de 67 mil economistas e o mercado financeiro levou anos para se recuperar.
 
Antes da invenção da moeda o sal era usado como item para troca de valores. Silvio Santos na verdade inventou a moeda porque o tamanho de sua montanha de sal estava se tornando excessivo. A montanha está de pé até hoje e atualmente é conhecida como Everest.
 
Murphy joga poquer com Silvio Santos 2 vezes por mês e por mais que tente, ele nunca consegue fazer sua lei funcionar com Silvio Santos.
 
70% do peso de uma pessoa comum é água. 70% do peso de Silvio Santos são notas de R$50,00 e R$100,00.
 
Esses fatos na verdade não são aleatórios, Silvio Santos determina pessoalmente em que ordem serão exibidos. Quando eles se repetem após o refresh é porque ele está de sacanagem.

Silvio Santos pode contar até o infinito sua fortuna, porem, ela ainda continua incauculável.
 
Dizem que, se você repetir "Silvio Santos" três vezes diante do espelho, um aviãozinho feito com uma nota de R$100 voará pra dentro de sua casa.
 
No dia em que nasceu, imediatamente após sair do útero de sua mãe, Silvio Santos entregou uma nota de 100 reais a ela e agradeceu. Em seguida disse: "Sai pra lá! Sai pra lá!" gentilmente empurrando-a em direção à saída.
 
Silvio Santos compra cada vez menos coisas. De fato, existem cada vez menos coisas que não pertencem a ele.
 
Israel só não dominou os territórios palestinos pois Silvio Santos se recusa a financiar guerras. Ele prefere fazer uma versão Israel x Palestina do programa Family Field.
 
O número telefônico da casa de Silvio Santos é 2. O nº 1 pertenceu à Graham-Bell, inventor do objeto em questão.
 
Silvio Santos teve que abandonar sua carreira de jogador de futebol porque no início dos jogos a moeda que o juíz jogava para o alto sempre caía em seu bolso.
 
Seu Barriga deve 11 meses de aluguel para Silvio Santos.
 
O penteado de Silvio Santos foi projetado por Oscar Niemeyer.
 
O extrato bancário de Silvio Santos daria 5 vezes a volta ao redor do globo terrestre, sobrando ainda uma ponta pra fazer a rabiola.

Para rebater os boatos de que ele é careca, Sílvio Santos arrancou um pedaço de seu couro cabeludo para testes. Esse pedaço ganhou vida e hoje se chama Tony Ramos.

|
Gostou?
8

Desafio de Halloween by Marcinha

Posted by Marcinha on 31 de outubro de 2013 06:00 in , , , , , ,
Olá leitores e Retalhenses!
Fizemos um espécie de sorteio entre as autoras do blog, para que cada uma de nós fosse desafiada por uma companheira. E minha desafiante foi a Paty Deuner! As cinco palavras com as quais ela me desafiou foram:

trambiqueira 
jumento
algar 
vassoura
ora-pro-nobis

A titulo de explicação (pois eu não sabia, e calculo que meu leitor também possa não saber), algar é um espécie de cova profunda, um abismo, um cratera (http://www.dicionarioinformal.com.br/algar/) e ora-pro-nobis é um erva, muito usada na culinária mineira ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Ora-pro-nobis).

Obrigada, Paty, querida! Pelo desafio e pela ajuda com as palavrinhas difíceis!

E... vamos ao texto!


Má Sorte

Sentada sobre uma sepultura, vestindo uma fantasia improvisada para a Noite das Bruxas, ela se sentia simplesmente ridícula. Há muito reivindicava à família um tempo só para si, para fugir da rotinha, algumas poucas horas para ser apenas Dilza Tomazoni... na verdade para resgatar quem era ela. Sentia-se tão perdida, soterrada em sua rotina de cuidados e responsabilidades com os outros que julgava não mais saber quem ela era, nem do que ainda gostava. Escolhera a noite do Dia das Bruxas para se dar o direito a um pouco de divertimento, como boa fã de Anne Rice e Tim Burton e de toda atmosfera gótica. Mas seu intento não estava dando muito certo.

Suspirou enquanto olhava novamente para o vestido negro, o chapéu pontudo de cartolina que improvisara e a vassoura de piaçava que trazia consigo. Naqueles trajes já saiu de casa sentindo-se tão envergonhada que não chegara muito longe. E lá estava agora, sentada no cemitério, meditando entre a possibilidade de voltar derrotada para casa ou esperar por ali e ver se algo acontecia. Se um grupo de jovens aparecesse por lá e resolvesse fazer uma pequena bagunça ali perto, ela pelo menos veria algo e sua noite não seria totalmente em vão. 

"Um grupo de jovens", pensou com amargura. Só depois de formular esse pensamento, se dera conta do quanto um grupo de jovens era algo tão distante para ela. "Eu só tenho 22 anos", refletiu. "Quando me tornei velha dessa forma como me sinto agora?"

Pensou no marido, e no quanto ele havia mudado no pouco tempo juntos. De um parceiro atencioso e solícito, ele se transformara em alguém distante, quase um estranho, por vezes até cruel. Pensou em seu bebê, uma inocente alma dependente dela, mas que colaborava em muito para o estresse que já sentia. Pensou nos pais, dos quais sempre esperava um mínimo de aprovação, embora recebesse apenas reprimendas e críticas. Sentiu o peso da incompreensão, da falta de condescendência e colaboração, da falta até mesmo de uma palavra amiga. Sentiu os olhos arderem, no momento em que lutava para conter as primeiras lágrimas. 

Olhou em volta, tentando se distrair. Reparou pela primeira vez que, de uma árvore um pouco distante, um líquido escorria como seiva e brilhava refletindo a pouca luz da noite. As várias gotas reluziam como pequenos diamantes, de modo tão insistente para a pouca luz do local, que ela terminou por se levantar para olhar mais de perto. Examinou os entalhes no tronco, de onde a seiva escorria. Era uma inscrição, entalhada com uma lâmina, talvez um canivete. Parecia recente, e era óbvio que se tratava de uma travessura de Dia das Bruxas. A quadrinha, bastante pueril, dizia:

"Que a má sorte me abençoe!", três vezes repita;
Na Noite das Bruxas, se o medo, antes, vencer.
Se invocada três vezes, mesmo por quem não acredita,
Sua demônia-madrinha há de aparecer.

Olhou em volta, na vã esperança de ainda encontrar o adolescente que grafara aquelas letras. "Que bobeira", falou para si mesma. Mas já começava a rir com os devaneios que passavam por sua mente. "Um conto de fadas gótico; já pensou? Uma fada madrinha perversa, com um tridente e chifres. E que desejos concederia? Algo profano, com certeza. Que idéia absurda."

Releu a mensagem e, num ímpeto, resolveu que faria uma loucura. Sim, queria fazer uma loucura! Faria a invocação, três vezes. Ou nada aconteceria e ela riria a valer, ou então estaria ferrada de verdade.

- Que a má sorte me abençoe! Que a má sorte me abençoe!! Que a má soooorte me abençoeeee!!! - gritou para cemitério, a plenos pulmões.

Nada aconteceu.

Esperou um pouco mais, sentindo-se quase tonta pelo que acabara de fazer. Seu coração estava acelerado, e sua mente oscilava entre o alívio e a decepção.

Encarando a árvore, releu a mensagem mais duas vezes, como se tentasse entender o que dera errado. Mas quando percebeu seu pensamento, sentiu-se uma perfeita idiota. Virou-se num rompante para ir embora, e quase colidiu com uma mulher alta que estava de pé silenciosamente atrás dela.

- Olá, meu bem. - saudou-a a estranha.

Dilza recuou tão rápido que bateu de costas na árvore, e ali ficou paralisada a apenas dois passos da mulher. Sentia-se congelar de medo, enquanto avaliava a intrusa à sua frente. Além de alta, tinha um corpo sólido, e vestia preto da cabeça aos pés. Cabelos negros e muito lisos lhe escorriam pelos ombros e cessavam abaixo da cintura. Tinha um sorriso convidativo, mas seus olhos não sorriam... ao contrário, perscrutavam Dilza com a astúcia de um felino. Apesar do tom de voz amistoso que a recém chegada usara, havia uma advertência pungente em seu coração.

- Quem é você? - foi uma pergunta-clichê, mas num momento de total desamparo, não lhe ocorrera nada melhor.

A mulher de cabelos negros apontou para a árvore atrás dela, como se a resposta fosse óbvia. Sorrindo, afirmou:

- Sou sua demônia-madrinha.

- Xessuisss... 

- Bem, se era esse que você esperava, devia ter usado outra invocação. - comentou, enquanto conferia a aparência das próprias unhas de modo displicente. - Mas, vamos ao que interessa. Em que posso ajudá-la, meu bem?

- Em nada! Eu... eu não preciso de ajuda. Está tudo perfeito na minha vida! Além do mais... - ela tomou coragem, e disse num só fôlego - Não acredito que seja quem diz.

- Meu amor, eu não estaria em um cemitério na noite do Halloween, aproximando-me de você como uma autêntica aparição, se eu fosse apenas uma trambiqueira. Concorda comigo?

Dilza chegou a abrir a boca para dizer algo por duas vezes, mas não tinha argumentos. E começava a sentir medo de verdade.

- Escute, eu preciso ir. Está tarde...

- Me diga como está sua vida "perfeita", e eu a deixo ir. Aliás, eu adorei a ênfase, foi muito convincente. - satirizou a demônia.

- Por favor... - ela implorou - Eu preciso ir. Meu marido vai ficar uma fera se eu demorar demais...

- Aquele jumento pode perfeitamente tomar conta de um bebê que dorme como um anjo por alguns minutos a mais. Seu bebê está dormindo a sono solto agora e seu marido está navegando no computador, aparentemente calminho e bem entretido por sinal. Sim, eu posso vê-los, e estou lhe dando minha palavra sobrenatural de que está tudo bem na sua casa. Agora, me conte.

- Não quero lhe contar nada. - Dilza afirmou, a voz baixa como um lamento, as lágrimas começando a irromper novamente.

- Mas precisa. - a demônia abaixou o tronco levemente, para que seus olhos ficassem na altura do olhar de Dilza, e a segurou de leve pelos braços, como se conversasse com uma criança - Você me invocou em um momento de angústia, imersa em tanto pesar que "fazer uma loucura" parecia valer a pena. Você pediu ajuda. Deixe-me ajudá-la. - a demônia se ergueu novamente, e a enlaçou pelos ombros, trazendo-a para si num abraço protetor. - Eu quero ajudá-la. Deixe-me ajudá-la.

Dilza abraçou de volta a mulher que a acolhia da forma como ela tanto precisava. As lágrimas rolavam enquanto ela contava por alto sobre alguns dos problemas mais brandos com seus pais e com seu marido. Achou que contar apenas um pouco, sem devassar tanto a sua intimidade, seria o bastante para que a misteriosa mulher parasse de insistir. Mas, uma vez tendo começado seu relato, foi como se uma represa se rompesse.  A pobre jovem falava sem parar, contando várias histórias dolorosas para ela, enquanto o choro só aumentava e aumentava. Houve um momento em que as palavras não podiam mais ser entendidas, e ela chorava emitindo um som contínuo, quase como se uivasse de dor. Engasgou-se algumas vezes, de tão estrangulada que estava a garganta, por toda a mágoa que a oprimia. Então passou um bom tempo calada, apenas soluçando em meio ao seu choro convulsivo, abraçada àquela mulher alta como se agarrasse sua tábua de salvação. A demônia apenas a acalentou, afagando os cabelos loiros e curtos da jovem mulher em seus braços... esperando.

Quando finalmente Dilza pareceu se acalmar, a demônia segurou seu rosto entre as mãos, um rosto vermelho que mais parecia o de uma boneca de porcelana recém-cozida. Secou-lhe as lágrimas e beijou os olhos inchados pelo choro com delicadeza.

- Eu posso te ajudar. Eu posso realmente te ajudar, e você verá que os problemas com aqueles que você ama serão todos resolvidos. Eu só preciso que você peça. Diga que quer a minha ajuda, meu bem. Você só precisa dizer.

Dilza estava completamente consciente de tudo o que acontecia. A demônia não a encantara, apenas a convencera com palavras e afeto. Tudo o mais se esvaziava de sua mente, como se fossem coisas tão distantes. "Todos os problemas com aqueles que você ama serão resolvidos". Era tudo o que Dilza desejava, tudo o que fazia sentido naquele momento.

- Diga que quer que eu a ajude. - repetiu a demônia.

- Eu quero sua ajuda. - Dilza afirmou, sem pensar duas vezes.






A demônia tirou de um bolso um ramo de erva ainda verdejante que Dilza reconheceu como sendo ora-pro-nobis, e debulhou algumas folhas, macerando-as em seguida entre as palmas das mãos. Então, segurou um dos pulsos de Dilza e, com habilidade e rapidez, usou um anel para fazer um diminuto corte na pele da loira. Quando esta protestou, a demônia justificou-se, divertida: 

- Hoje é dia das Bruxas, e um pacto em grande estilo tem de ter sangue!

Então misturou algumas gotas do sangue de Dilza com as ervas maceradas. Usou a mistura para escrever dois X com a ponta do indicador, um na testa de Dilza, outro na sua própria. No momento seguinte a mistura de ervas e sangue desapareceu de suas testas e das mãos da demônia, sendo completamente absorvida pela pele.

- Está selado nosso pacto. A parte fundamental da magia já está em andamento, para resolver suas aflições. A segunda parte do pacto é que estarei sempre com você, lhe ajudando a resolver seus problemas com eles, para que tudo se resolva de uma maneira mais branda. Mas, de um modo ou de outro, nenhuma das pessoas que te afligem te incomodará por muito tempo.

Estas últimas frases foram preocupantes. Dilza começou a sentir o peso de sua imprudência, de ter aceitado ajuda sem saber exatamente em que termos essa ajuda viria. Estava completamente apreensiva quando perguntou, articulando as palavras lentamente:

- O que acontece a seguir? Que parte da magia já está em andamento? 

- Como poderei explicar? Bem, é simples. Estão todos amaldiçoados, condenados a morte a partir desse instante, todos aqueles que a fazem sofrer hoje e qualquer outro que vier a fazê-la sofrer no futuro. Terão apenas um ano de vida caso não parem de te atormentar.

Dilza caiu de joelhos no chão do cemitério, sem forças nem mesmo para respirar normalmente. Seu coração acelerara de tal maneira que ela pensou por um instante que fosse morrer. Sentia-se como estivesse se equilibrando na borda de um algar, e a tivessem empurrado em queda livre nesse momento.

- Como?... morrer... amaldiçoados... - a respiração se tornava cada vez mais curta e rápida - Eu vou perder todos? Todos vão morrer, é isso que está me dizendo?! - ela gritava agora, beirando a histeria.

- Ei! se acalme. - ordenou a demônia, de modo autoritário, tentando conter o crescente descontrole da jovem ofegante, jogada ao chão - A maldição é real, e isto já está feito. Mas é um plano B. O plano A é que você se entenda com eles nesse espaço de um ano. E nisso eu irei ajudá-la. Estarei sempre com você, e apenas você poderá me ver, eles não. Vou aconselhá-la momento a momento, em cada embate, em cada discussão. Juntas, faremos com que você se imponha, que trace limites, que argumente com eles de igual para igual. Se tiver sucesso nessa empreitada, eles respeitarão e amarão você, as brigas se transformarão em diálogos onde as pessoas conversam sem se agredir, reivindicam sem se acusarem, falam e não gritam, se solidarizam em vez de atribuir culpas.

- Eu não posso fazer isso. Eu não sei me impor. Eu não vou conseguir. - a loira balançava a cabeça em negativa, e chorava copiosamente, já derrotada por seu infortúnio.

- Vai conseguir se os ama, pois a sobrevivência deles agora depende inteiramente da sua mudança de atitude. - afirmou a demônia, muito séria - Ou vai se acovardar e se livrar do problema do modo mais fácil? Todos eles morrem e param de te aborrecer; não deixa de ser uma saída.

- Mas eu não quero que morram; eu os amo! – Dilza gritou, em desespero.

- Prove! - ordenou a demônia, e tinha um olhar tão severo que a fez calar-se - Prove que os ama e os quer. Lapide-se! Mude! Por eles! Por você mesma!

- Eu não sei fazer... não sei como...

- Eu vou te ajudar. - afirmou a demônia com plena convicção.

- Você jura?

- Eu juro, meu bem. Juro pelo meu coração negro e eterno. Vamos fazer isso dar certo.

Dilza pensou por um momento, ponderando se devia fazer uma última pergunta.

- Você os condenou a morte por que é uma demônia? Sente algum prazer em fazer isso?

- Condenei-os por que uma calamidade foi a única forma de tirar você da inércia. Você estava acomodada e conformada. Sentindo-se vítima das fatalidades, com pena de si mesma. Preciso fazê-la agir de modo tão intenso, por que não há tempo para pensar; um ano é um espaço curto de tempo para curar cicatrizes de vários anos. É tudo ou nada. Ou você se dedica a conservá-los, impondo a eles seu desejo de construir um relacionamento saudável, ou os perderá. É com você.

- Eu vou me dedicar.

- E eu desejo que você tenha sucesso. E farei tudo que puder por você, meu bem.

A demônia tomou a mão da loira e, de mãos dadas, elas caminharam para a casa de Dilza.






Dilza entrou em casa, com a demônia atrás de si, logo após esta ter repetido que não podia ser vista por mais ninguém. Avançou até a sala, onde o marido ainda navegava no computador, com vários lenços de papel usados e amassados ao seu lado.

- Aonde estava até essa hora?! - ele indagou rispidamente, e logo teve outra crise de tosse, que só cessou quando ele cuspiu mais um bocado de sangue em um novo lenço de papel - Você devia estar em casa, cuidando da sua família. Não vê que fiquei doente esta noite? Em vez de ter uma mulher em casa para cuidar de mim, você zanzava pela rua, negligenciando suas obrigações...

Dilza sentia o sangue inflamar dentro dela numa fração de segundo. Mas que droga, nunca tinha tempo pra si mesma, sem que fosse acusada e cobrada por isso. Começava a sentir-se injustiçada e diminuída, e já ia começar a protestar e chamá-lo de egoísta, e a chorar como de costume.

- Não grite e não se abale. - ordenou a demônia - Responda com calma e convicção, ok? Como você se sente? Diga a ele. Mas esqueça as mágoas. Argumente, converse. – sua expressão era de fé e encorajamento – Vá em frente.

Dilza olhou a demônia por um momento, o que para seu marido pareceu apenas um olhar perdido. Sentiu que pela primeira vez alguém apostava nela, de verdade. Então tomou fôlego e disse ao marido: 

- Bernardo, estamos todos cansados, eu e você. E você visivelmente precisa de descanso e cuidados agora. Vamos pra cama, sim? Por favor? Amanhã conversamos.

- Excelente. - encorajou-a a demônia.

Bernardo parecia atordoado, pois era a primeira vez que sua mulher se dirigia a ele nesse tom, firme e conciliador ao mesmo tempo. Chegou a pensar em retrucar, mas sentia as costas doerem pela tosse súbita e insistente que o castigara a noite toda. Resolveu apenas levantar-se em silêncio, e acompanhá-la até o quarto.

- Isso, amor, vamos dormir. - afirmou Dilza, enquanto o conduzia para o quarto, sentindo-se mais confiante. - Amanhã conversaremos. Aliás, amanhã teremos muita coisa mesmo o que conversar.



|
Gostou?
2

[Batata Quente 3 - parte 3] - As Crônicas de San Atório - Capítulo Três: Um bofe no caminho.

Posted by Unknown on 22 de outubro de 2013 06:00 in , ,
Olá queridos leitores!

Aqui está mais uma parte da deliciosa estória das quatro garotas mais exóticas que o mundo inteiro já viu.

As Crônicas de San Atório mistura magia, aventura e muita diversão, e faz parte da terceira edição do Batata Quente, um desafio onde todas nós somos autoras. Mas não se deixem enganar, porque qualquer semelhança dos personagens com as autoras, é mera coincidência.
Espero que gostem e deem boas risadas.

Confiram as primeiras partes:
As Crônicas de San Atório PARTE 1 : "Na Taverna do Fauno"
As Crônicas de San Atório PARTE 2: "Encontros e Caminhos"


                                                        Parte 3: UM BOFE NO CAMINHO

Algumas horas depois, o quarteto se instalava sob a copa de um frondoso carvalho próximo ás margens do rio Coveiro de Cima. Os humores variavam de acordo com cada necessidade, mas o que imperava era inegavelmente a fome. Nardanna deixava escapar vez ou outra que seu estômago já colava nas costelas e Palermo gargarejava em concordância com sua dona, mas graças a lerdeza da lhama (sua montaria desde...sempre), não podia queixar-se do longo tempo sem paradas para comer.

Pethrica sentiu um cheiro estranho vindo dentre as árvores e se retesou com o mal presságio, mas viu que não havia perigo iminente, e continuou a escovar a crina de Safira, aguardando que alguém providenciasse alimento.

- Alguém ai sabe pescar? – Martha já se desvencilhava de seus numerosos pertences de batalha a fim de mijar pela quinta vez desde o começo daquela exaustiva cavalgada, fazendo uma nota mental para beber menos cerveja da próxima vez. Audaz, seu incrível Andaluz Espanhol, esgueirou-se pela mata de encontro ao rio enquanto chacoalhava seu sedoso pelo malhado de preto e branco. Atrás dele ia Legolas, o corajoso pônei galez de Santhara, cheirando o traseiro elegante de Audaz. 

– Eu disse que esse pônei tava mais pra veado! – Martha disse rindo tanto que quase mijou perna abaixo.
- Cala a boca sua aprendiza de guerreira! Legolas é muito macho se quer saber. Ele não tem culpa se seu cavalo rebola feito uma dançarina de taverna! 
- Alto lá garotas! Precisamos comer, esqueceram? – Nardanna lutava com Palermo, sem muito sucesso, por uma enorme raiz que se projetava do chão formando um ótimo encosto para suas costas doloridas. Ele se coçava na raiz sorrindo debochado para ela.

Santhara jogou seus cachos ruivos para trás e resolveu fazer vista grossa ao comentário sarcástico de Martha, lembrando que precisaria muito do seu mais novo leão de chácara quando chegassem ao torneio de bardos. 

- Bem, vamos ao que interessa então. - Santhara agachou-se afastando camadas e camadas de tecido do seu longo vestido até chegar a duas largas tiras de couro presas uma em cada coxa. Dali ela tirou dois alforjes de tamanho bem avantajado e depositou sobre um tronco negro retorcido no chão. Os olhos das outras iam se esbugalhando a cada item que ia sendo retirado das bolsas. Um disco grande e gordo de pão de milho, um saco de nozes e castanhas, um naco robusto de presunto, várias fatias de torresmo amarrados com corda, chouriço, e por fim quatro bolsas de hidromel. Para esse último, Petrika suspirou desejosa.

Um emburilho* de protestos se seguiu ao fim da exposição. Todas falavam ao mesmo tempo e sem parar.
-Você escondeu tudo isso da gente! Nardanna disse indignada. -Sabia que estávamos famintas e não disse nada!
- Isso é golpe sujo Santhara! – Martha quase voava no pescoço da taverneira. – Podia pelo menos ter trazido alguns litros de cerveja!
- Bem vi que esse traseiro avantajado estava um pouco demais pra você Santhara. Nem eu consigo ser tão gostosa assim. – Pethrika estreitou os olhos para a taverneira em desafio e suspirou completando. – Posso ficar com o hidromel?
- Peraí...você roubou o velho Silvicha? – Nardanna perguntou com o cenho franzido.
- Roubar? Não. Peguei em troca por meus muitos salários atrasados. E em pagamento pelos vários apertões que levei nas tetas. Aquele bode velho me deve muito mais do que essa ninharia. E não me dê sermões Nardanna. Seu empreendimento é bem contestável para me julgar com tanta altivez.
Nardanna sabia que não podia confiar totalmente naquela ruiva, mas deu de ombros, já que estava verde de fome, e a procedência do alimento não importava, desde que não estivesse envenenado.

Santhara foi dividindo em vezes** iguais cada um dos alimentos e todas puderam saborear de tudo um pouco. Quando chegou ao hidromel, reparou que em vez de quatro sacos apenas três ainda estavam ali sobre o tronco. Tinha quase certeza do que tinha acontecido com o quarto saco, mas não diria nada. Ela era muito observadora e sagaz. Nada passava por sua grande habilidade de sentir as emoções de quem estivesse por perto. Mesmo que seus olhos não registrassem o ocorrido, as vibrações das auras delatavam suas condições emocionais. Merlin havia lhe dado esse dom muitos anos atrás em troca de um grande favor (era ótima em cobrar favores também), e nunca contara a ninguém. Não arriscaria seu segredo por um saco de hidromel.

O som agourento do relincho de Audaz fez todas pularem rígidas na direção do rio. Por um longo minuto ninguém disse nada, e então um novo relincho cortou a escuridão. Martha saiu na frente empunhando firmemente sua espada. Ela conhecia bem seu cavalo, e sabia que alguma coisa não estava bem. Atravessou a densa floresta de carvalhos se desvencilhando habilmente dos cipós embolados no chão úmido, e quando finalmente saiu na encosta aberta do rio, o cheiro metálico de sangue entrou forte em suas narinas. Santhara, Nardanna e Pethrika (nessa exata ordem) chegaram à beira do rio dando encontrões uma atrás da outra e ficaram petrificadas com a cena. Audaz e Legolas andavam em círculos dando pequenos pinotes em torno do corpo de um homem que jazia debruçado na encosta, seu rosto afundado na lama cheia de cascalhos. As vestes rasgadas evidenciavam dois cortes que iam de seus ombros até a cintura formando um V, e a ferida parecia pulsar em algumas partes, onde o sangue ainda fluía.

Pethrika foi a primeira a falar.
- Ele foi jogado no rio não muito longe daqui. Ou simplesmente se jogou para salvar sua vida.
- Você é tão poderosa que só de olhar pra ele consegue descobrir o que aconteceu Pethrika? - Martha perguntou desconfiada.
- Não. É apenas uma dedução. Esse é o rio Coveiro de Cima. É um rio amaldiçoado e não aconselho que ninguém entre nele. Por séculos os bárbaros desovaram seus inimigos nessas águas. Os corpos normalmente não eram encontrados, pois diz a lenda que o próprio rio se encarrega de sepultar os corpos e encaminhar os espíritos. Muitas almas ainda vagam sobre o leito a procura de vingança por sua morte. Mas esse homem parece ter muita sorte, porque o rio não costuma averiguar se a pessoa está realmente morta ou não. Sepulta logo de uma vez.
Nardanna sentiu um arrepio correr sua espinha. Sabia que a amiga estava certa, e a ideia de se deparar com um espírito vingativo lhe causava até enjôos. Confiava em suas flechas para lidar com os vivos, mas com os mortos...

- O que vamos fazer com ele? – Santhara perguntou sem ter muita certeza do que pensar. A aura do sujeito estava muito fraca e borrada no entorno. Era impossível tirar alguma conclusão sobre sua personalidade. Se ele podia ser uma pessoa confiável ou não.
- Podemos fazer uma votação. – Sugeriu Nardanna, sempre conciliadora.
- Por mim pode jogar de volta no rio. Não confio muito nos homens. A maioria é imprestável mesmo. – Martha disse com ar enfadado cruzando os braços sobre o peito e cutucando o copo com a ponta da bota.
- Não diga uma coisa dessas Martha! Quer ser responsável pela morte de um homem?  Nardanna ficou chocada. 

- Não seria o primeiro querida. 
– Acho que temos que levá-lo para o acampamento e cuidar dessas feridas. - Nardanna disse incisiva o suficiente para todas concordarem.
- Tudo bem. - Martha suspirou aborrecida. - Só vamos mantê-lo bem amarrado e amordaçado. Não sabemos a procedência dele. 

Santhara também concordou em cuidar do homem, observando para si mesma que ele era muito robusto, e, a julgar pela grossura das coxas, era bastante viril também.

Pethrika ficou calada e muito séria durante toda a discussão sobre o destino do homem. Nem ela mesma com todo o seu poder conseguia fazer qualquer julgamento diante daquele ocorrido. Mas sabia que alguma coisa não estava certa. Ajudar aquele homem poderia ser a ruína delas...ou não.
...


Emburilho*: confusão, tumulto.
Vezes**: pequena porção, dose.


                                                         AS MONTARIAS




|
Gostou?
0

Dicas de Português: Ao invés de x Em vez de

Posted by Aptos on 21 de outubro de 2013 06:00 in , , ,



"Ao invés de" e "Em vez de" representam aquelas expressões existentes na nossa língua que se constituem de dois aspectos: ora são semelhantes no som, ora na grafia. 

Contudo, mesmo sabendo dessa ocorrência, precisamos estar atentos ao significado que elas apresentam, a fim de que possamos utilizá-las tendo a certeza de que estão adequadas perante o padrão formal da linguagem, em especial quando se tratar da escrita.

Dessa forma, ampliaremos um pouco mais nossos conhecimentos no que se refere a esse assunto, conferindo mais de perto as características de cada uma dessas expressões. Vamos lá, então?

"Ao invés de" e "Em vez de" possuem significados distintos

Ao invés de significa o contrário de, o inverso de. 


Observemos alguns exemplos:
 
1. Ao invés de entrar, saiu.
2. Chorou, ao invés de sorrir.
3. Ao invés do vestido branco, preferiu o preto.

Percebemos que em todas as situações houve a presença de elementos que indicaram a ideia de oposição, contraste, como por exemplo: entrar x sair; chorar x sorrir; branco x preto.

Em vez de significa no lugar de. Vamos ver alguns exemplos?

1. Em vez de estudar Matemática, estudou Geografia.
2. Preferiu viajar de ônibus em vez de avião.
3. Em vez de ir ao teatro, preferiu ir ao cinema.

Notamos que em todos os exemplos não há necessariamente uma ideia de oposição, mas sim de uma ocorrência que se manifesta em lugar de outra, como por exemplo: Matemática não é o contrário de Geografia, assim como ônibus não é o inverso de avião, e assim por diante.

 
Diante de tudo que aprendemos, fica uma dica para você:

A expressão “em vez de” pode ser utilizada até mesmo quando se tratar de uma ideia oposta, ao contrário de “ao invés de”, que possui um sentido muito restrito. 

Então, prefira sempre a primeira opção (em vez de), pois assim não correrá o risco de cometer erros, ok?






Fonte: Prof.  Vânia Duarte (Graduada em Letras)




|
Gostou?
2

Desafio Muito Desafiante by Marcinha

Posted by Marcinha on 11 de outubro de 2013 06:00 in , , , , , ,
Olá, retalhenses e leitores!
Nossa Paty bolou um "desafio muito desafiante" para nós todas. Nele, partiríamos de um mesmo início, para desenvolver uma aventura pessoal, cada uma ao seu modo. Eis aqui de onde partimos:

“Uma viagem inesperada de trabalho foi requisitada, e você só teve tempo de juntar algumas coisas pessoais e seu inseparável livro, que nos últimos dias ocupava não só grande parte do seu tempo quanto também de sua mente. Era uma viagem curta para uma cidade do interior, então você não precisou se preocupar com aparências, e deixou-se relaxar sobre a poltrona reclinável enquanto absorvia com avidez a escrita inteligente e sedutora da autora. Quando se deu conta do tempo, o sol já se recolhia no horizonte traçando linhas alaranjadas sobre o verde da paisagem, e sua mente viajou por aquelas imagens... e de repente tudo ficou escuro. Você só sentiu uma forte fisgada na nuca e o som brusco de uma freada.”

Me apaguei à idéia do livro, e quis homenagear uma autora da qual sou fã; tive a pretenção mergulhar em seu universo e contar minha história permeada em sua magia. Quis exalar a atmosfera, os sentimentos, os dilemas, a sensualidade e a visão que encantam em seus muitos volumes publicados. Espero ter conseguido.

 Viagem Sombria


Depois de tanta correria, finalmente havia me acomodado na poltrona do ônibus de viagem. Jogara uns poucos pertences dentro de uma mochila; minha agenda, meus celulares, o livro que venho devorando nos últimos dias. Pretendia ficar fora apenas dois dias, o que seria mais do que suficiente para fazer o orçamento da personalização de três carros antigos de um único dono, em Paraty. A insistência do homem, seu entusiasmo por ter conhecido meu trabalho e a enorme bonificação em dinheiro que me oferecera apenas pela minha visita e orçamento me fizeram largar tudo e viajar.

Recostei-me na poltrona do ônibus assim que pegamos a estrada, e abri meu livro mais uma vez. Mergulhei nas sedutoras páginas de Anne Rice, com sua visão poética e melancólica do mundo dos vampiros. Que imaginação ela possui, e que sensibilidade! Seres sobrenaturais com dilemas totalmente humanos. Me fundi mais uma vez ao segundo volume das Crônicas Vampirescas, esquecendo do mundo ao meu redor.

A medida que a luz do dia baixava, tornou-se impossível continuar a leitura. Aproveitei o quanto pude e, em dado momento, abracei-me ao livro e passei a observar a paisagem. O céu exibia o belo azul profundo que antecipa a noite e havia pouquíssimo movimento naquele trecho da estrada, o que permitia que a cantoria das aves permeasse tudo à volta. Muitos e muitos metros para trás e para a frente do ônibus só havia estrada e mata nativa. Apenas a natureza, intocada, gigantesca... e um ônibus intruso, cruzando uma solitária pista de asfalto, como única marca de civilização naquele trecho selvagem entre a serra e o mar.

De repente, ouvi um barulho seco, como metal partido, e uma freada. Senti uma forte fisgada na nuca e a escuridão desceu sobre mim como um véu. Nem mesmo compreendi o que acontecia.

Em dado momento, abri os olhos, pesadamente, tentando me situar. Sentia-me como se tivesse acordado de uma longa noite de sono. Estava escuro. Entre as árvores pude ver as estrelas no céu, bem a minha frente. Deduzi que estava deitada no chão; mexi os braços, tateei o chão molhado, a terra e as folhas caídas formando uma espécie de lama. Tentei me levantar, não consegui. Tentei novamente erguer meu corpo, me apoiando no cotovelos. Dor. Todo o meu corpo doía horrivelmente. Respirei fundo e desisti por um instante, tentando recobrar as forças. Comecei a ouvir os gemidos dos outros passageiros. Um acidente. Um acidente bem feio pelo jeito. Comecei a entrar em pânico, me sentia fraca, e não conseguia mais respirar com naturalidade. Meus olhos se encheram dágua.
 
Então eu o vi. Caminhou em minha direção, um homem vestido de cinza escuro, e se agachou ao meu lado. Não exibia ferimento algum, nem me lembrava de tê-lo visto antes no ônibus. Achei que vira o acidente e viera ajudar. Ele me olhou fundo nos olhos e toda a dor que eu sentia saiu da minha mente. Ele tinha olhos azuis que pareciam cintilar em tons de violeta, e cabelos loiros densos e cacheados que tocavam seus ombros. Fiquei imaginando se aquele belo anjo viera me buscar.

- De certa forma, sim, vim buscar você. - ele me respondeu, como se lesse claramente meu pensamento - É sua única chance, Márcia. Não há tempo.

- Tempo? O que houve? - indaguei, confusa.

- Você perdeu muito sangue. E não há socorro a não ser a quilômetros daqui. Não há tempo para você.

- Não! - protestei, e me ergui nos cotovelos com minhas últimas forças.

Finalmente percebi a mim mesma. Estava presa nas ferragens do ônibus, com ele tombado de lado na mata, cobrindo metade do meu corpo. A lama na qual eu estava deitada era meu próprio sangue.

- Lhe darei a vida eterna, se você desejar. - ele me disse - Será sempre bela e sedutora como é agora, e me terá para sempre ao seu lado. Apenas peça. Peça para ser como eu.

Desatei a rir. Bela e sedutora, eu? Sim, claro, ainda mais imersa em uma poça de sangue, eu deveria estar um tesão. Eu não conseguia parar de rir, e já começava a me engasgar e cuspir sangue.

- Você quer ser como eu? Me responda agora! - exasperou-se o belo loiro agachado ao meu lado.

- E o que você é? - indaguei, em desafio; coisas impossíveis se passavam na minha mente.

- Você sabe, e sabe quem eu sou. Diga. - ele me observou, severo - Diga!

- Lestat... o vampiro. - respondi, desistido de enfrentá-lo; eu estava a ponto de desfalecer.

- Boa menina. - ele pareceu aliviado - Diga que me quer, como eu a quero. Diga que quer ficar comigo. É a única saída pra você. Diga, agora.

Pensei em meu marido. Pensei em nossa convivência, cheia de harmonia e amor nos últimos tempos. Pensei em nossos planos, na vida boa que teríamos juntos depois que todos os problemas que juntos enfrentávamos fossem resolvidos. Pensei em todas as nossas conversas, todos os sonhos, todas as metas. Tudo o que significávamos um para o outro. Meu companheiro, "eu e ele contra o mundo", ele me disse sempre. Pensei que ficaria com ele para o resto da vida. Mas agora eu estava morrendo.

Pensei na minha irmã, e em todas as vezes que ela disse que me amava, e eu sabia que era verdade. Pensei em mamãe, a mãe do meu marido, que me acolheu no coração como se eu fosse filha dela. Pensei nas minhas amigas de blog, e como elas nunca saberiam que pensei nelas nessa hora, inclusive naquela que não está mais no blog, mas está sempre nos meus pensamentos. Pensei em mais algumas pouquíssimas pessoas que habitam meu coração. Nunca mais as veria. Eu estava morrendo.

- Vai se entregar ao pó, sem lutar? - exasperou-se novamente - Você pode viver! Pode viver por mais tempo e mais intensamente do que viveria em dez vidas mortais! Apenas me diga que quer! Diga, agora!

- Lestat... eu quero. - respondi com dificuldade.

Ele me envolveu em seu abraço, com urgência. Senti a perfuração da garganta, como a espetadela de duas agulhas. Então a paz... um bem estar indescritível se apossou do meu corpo, como um êxtase, como se eu pudesse tocar o paraíso se apenas esticasse os dedos. Agarrado a mim ele sugava o pouco que havia restado do meu sangue, levando-me a fronteira da morte, onde nossos corações rufavam juntos como tambores em meus ouvidos.

Afastou-se de mim bruscamente, como se o fato de se obrigar a me soltar fosse doloroso para ele. Então rasgou a própria garganta com uma unha, e tornou a me abraçar, oferecendo-me o sangue que vertia do corte.

- Beba. - ele ordenou; sua voz era pura sensualidade.

Colei os lábios em seu pescoço, e o suguei como em um beijo selvagem. Sentia o sangue quente e espesso descer-me a garganta, matando a sede que me ressequia. Bebi dele longamente, sentindo a pele lisa do pescoço, os cachos loiros a roçar-me o rosto, o cheiro da sua pele, que me lembrava amêndoas. O sangue doce que me alimentava e preenchia toda a minha existência, dava sentido a tudo, e eu poderia beber dele eternamente. Tudo que eu fui, tudo que senti, tudo o que almejei ia se apagando em mim rapidamente. Se havia Paraíso ou Inferno, o que era ou não pecado, se as Grandes Leis foram realmente ditadas por Deus, nada disso me importava. Não havia mais nada em minha mente que não fosse aquele anjo negro que me oferecera uma nova existência na hora de minha morte. Sentia seus músculos me apertarem contra si, com a paixão dos sobrenaturais, fundido-nos, como se fôssemos um só. Então ele me afastou suavemente.

- Já chega. - ele disse.

Soltei um profundo gemido quando ele se afastou. Olhei as estrelas novamente, quando me prostrei no chão, exausta e saciada. Eram luzes fulgurantes, que pulsavam cada uma a seu ritmo, e eu compreendia que elas compunham uma sinfonia a medida que piscavam entre si. O vento acariciou meu rosto como mãos de fadas, e agitou as folhas nas copas das árvores com uma graça e perfeição que eu jamais vira. As árvores pareciam dançar lentamente, como amantes a meia-luz.

- Oh... então isto é o Dom Negro? - sussurrei - Tudo... é belo... demais...

- Sim, minha criança. É meu presente para você.

- Quero me levantar. - afirmei - Estou presa. Me ajude.

- Mova o ônibus, Márcia. Você tem força para isso.

Lembro-me de ter sorrido. Sim, eu tinha força para isso e muito mais. Ergui a carcaça retorcida do ônibus sobre o meu corpo e o empurrei para o lado. Pus-me de pé.

Olhei para mim mesma, no reflexo de uma das janelas do veículo. Eu havia emagrecido e ostentava um corpo volumoso e torneado, e parecia completamente saudável. Meus cabelos à altura da cintura haviam se cacheado por completo, como sempre foram antes do alisamento. E, sobretudo, o detalhe que mais me seduziu: eu possuía presas. Duas presas agudas e vampirescas assumiram o lugar dos meus caninos mortais. Eu parecia mais selvagem do que nunca.

- Quero caçar com você, Lestat... como li em seu relato, no livro. Aliás, nunca pensei que tudo o que estava escrito fosse verdade, que "O Vampiro Lestat" fosse realmente um livro de memórias. Afinal, então... quem é Anne Rice?

- Minha "ghostwriter". - ele afirmou, com um sorriso travesso.

- Ah, Lestat de Lioncourt... sempre vivendo entre humanos. - brinquei.

- Interagindo entre humanos, sim, minha bela, mas somente isto. Não é possível viver entre eles, ou me apegar tanto a eles quanto eu precisaria. Sou um monstro e, mais cedo ou mais tarde, essa verdade acaba prevalecendo. Preciso de amor de minha própria espécie.

- Ainda não conseguiu isso, não é? - indaguei me aproximando dele, acariciando sua face branca e perfeita como uma escultura de mármore - Magnus, Gabrielle, Armand, Louis... até mesmo Claudia... foram amados por você, mas não conseguiram amar você como precisava.

O anjo loiro baixou a cabeça, pensativo. Ergui seu rosto gentilmente, com ambas as mãos, e beijei os lábios do meu amante eterno.

- Eu o amarei, Lestat. Tenho em mim a mesma ânsia desesperada por amor. Sei exatamente como se sente. Por isso sei que posso amá-lo como você deseja.

Lestat me olhou nos olhos, como se conversasse com a minha alma. Havia amor, gratidão, desejo, cumplicidade e uma promessa eterna naquele olhar azul que iluminava o rosto do meu anjo das trevas. Ele acariciou meu rosto e me disse mentalmente "dois anjos da morte, juntos para sempre".

Então ele me conduziu pela mão, e saltamos para dentro da mata, quase voando. Estávamos indo caçar pela primeira vez juntos. Tomaríamos uma vida juntos, eliminaríamos alguém da face da terra hoje, como faríamos noite após noite para todo o sempre. E eu escolheria minhas vítimas como Lestat sempre o fizera, entre os criminosos, os sem caráter, os malfeitores, os traidores, os desonrados. Sorri de lado, satisfazendo-me antecipadamente com a minha escolha. Eu sabia exatamente quem morreria esta noite.




 


|
Gostou?
3

DESAFIO MUITO DESAFIANTE - by Sammy Freitas

Posted by Aptos on 10 de outubro de 2013 06:00 in , , , ,
Foi-nos proposto um desafio pela nossa querida Paty Deuner conforme você pode conferir aqui.

“Uma viagem inesperada de trabalho foi requisitada, e você só teve tempo de juntar algumas coisas pessoais e seu inseparável livro, que nos últimos dias ocupava não só grande parte do seu tempo quanto também de sua mente. Era uma viagem curta para uma cidade do interior, então você não precisou se preocupar com aparências, e deixou-se relaxar sobre a poltrona reclinável enquanto absorvia com avidez a escrita inteligente e sedutora da autora. Quando se deu conta do tempo, o sol já se recolhia no horizonte traçando linhas alaranjadas sobre o verde da paisagem, e sua mente viajou por aquelas imagens... e de repente tudo ficou escuro. Você só sentiu uma forte fisgada na nuca e o som brusco de uma freada.”



Quando meu chefe me chamou na sala no fim da tarde eu já desconfiava que alguma coisa tinha acontecido. Adorava quando tinha que viajar a trabalho, mas dessa vez eu estava tão cansada, que meu desagrado ficou estampado no meu rosto. Nem mesmo quando me foi prometida uma folga meu rosto se abriu. 

Paciência... desde que eu tinha ganhado o kit babaca júnior composto por celular e laptop da empresa, eu sabia que as chamadas fora de hora e as viagens seriam constantes. 

Olhei para o ônibus desalentada. Quatro horas de viagem apenas para conferir se as gigantescas engrenagens da usina de pelotagem haviam chegado com as medidas conforme nossas especificações. Milhões de dólares investidos, portanto, qualquer erro era fatal.

Acomodei-me na poltrona esticando os pés cansados. Minhas exigências foram claras: Só viajaria de semi-leito e bem confortável... Observei o rapaz na poltrona-leito ao lado da minha e ele parecia uma biblioteca ambulante. À sua volta, uns doze livros e ele parecia em dúvida sobre qual ler primeiro. 

Abri minha mochila sorrindo e peguei o item mais importante. Estava lendo "O livro do amanhã" da Cecelia Ahern. Estava amando a história! Imagina que barato um livro com o poder de te contar o que vai acontecer no dia seguinte! Era o segundo livro que eu desejava este ano. O primeiro era o Death Note. Pois é... eu não era tão boazinha assim... 

As luzes do ônibus piscaram duas vezes e apagaram. Tudo ficou escuro e o motorista deu uma freada e tanto e parou. Abriu a porta da frente no exato momento em que eu lia entretida um trecho do livro: "Oi mãe, sou eu. Saí de casa num ônibus cheio de livros e um rapaz simpático vai me levar até a cidade. Voltarei em algumas horas. No caso de eu não voltar, ele se chama Marcus Sandhurst, tem um metro e oitenta de altura, cabelos pretos, olhos azuis..."¹

Sorri diante da leitura da cena quando observei um casal subindo no ônibus. A menina falava ao celular e olhava o rapaz e suas palavras, faziam coro com o livro: "tem um metro e oitenta de altura, cabelos pretos, olhos azuis... Tatuagens?"

O rapaz levantou a camisa e ela continuou falando...

Abri e fechei a boca três vezes... comparei o que estava escrito no livro com o que acontecia na minha frente. Olhei para o rapaz que lia Stonehenge à minha direita e ao senhor que roncava ruidosamente à minha esquerda. Ninguém parecia perceber que o que estava acontecendo já estava escrito.

Fiquei em dúvida se "assistia" a cena que acontecia na minha frente ou se prosseguia a leitura. Optei por permitir que o livro se transformasse num filme na minha frente e sorri com Tamara e Marcus "viajando" para o México através da leitura dos livros cujas lombadas começara a sobressair no bagageiro. Quase levantei para "participar" da história, mas me mantive como mera expectadora. Estava achando o máximo a encenação! Fiquei me perguntando se não seria uma brincadeira do meu namorado ator, que não só sabia de minha paixão por livros como brincou com o título do meu livro... Recordei das palavras dele pela manhã...

- "O livro do amanhã"? Ruivinha, você estava lendo ontem, logo, esse livro é "O livro de Hoje"! e Amanhã, ele deverá se chamar: "O livro do Ontem"!

Lembrava perfeitamente da hora que joguei uma almofada nele e nos beijamos. Livros são maravilhosos, mas a vida real é ainda melhor. Por isso eu tinha optado por largar temporariamente o livro e assistir ao casal na minha frente... 

Depois de quase uma hora, as luzes piscaram novamente e o ônibus parou. Tamara segurava um livro grosso, com capa de couro e uma pequena fechadura quando ouvimos um grito:

- Tamara! Volte para nós, criança!²

A jovem gritou:

- Eu vou voltar. Só saí há uma hora!

Foi então que o momento mágico aconteceu. Aquele momento em que a ficção toca levemente a realidade. Tamara olhou nos meus olhos como se soubesse que eu realmente estivesse ali. Ela estendeu o livro e sussurrou:

- Guarde-o para mim... Minha tia não pode vê-lo... - ela aproximou-se e empurrou o livro para dentro da minha manta. 

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ela correu e desceu do ônibus. Sumiu com a mesma velocidade que surgiu. O ônibus iniciou novamente sua marcha e eu levantei a manta devagar, temendo que tudo tivesse sido fruto de minha imaginação.

Não tinha nenhum livro dentro da manta. Até levantei, olhei em volta, procurei no vão das poltronas, pelo chão... Mas realmente não o achei. Suspirei novamente. Delírios de uma apaixonada por livros, só podia ter sido isso...

Desci em Itabira e peguei minha mochila ultra pesada. Um carro me aguardava para me levar ao hotel. Conversei com o motorista, mas sem tirar Tamara da cabeça. Teria sido um sonho??

Registrei-me e subi para tomar um banho. Quando abri minha mochila... uma surpresa...

Um livro de capa grossa de couro. Sentei atordoada na cama quando vi a pequena fechadura. 

Estava curiosa, mas ao mesmo tempo, eu tinha medo de abrir o livro. A curiosidade venceu... Peguei o chaveiro e fui testante se alguma de minhas chaves ajudaria a abrir. A menorzinha encaixou no fecho. Olhei assustada. Não lembrava desta chave no chaveiro...

Abri o livro e sorri encantada. Desta vez, Theo, meu namorado realmente tinha caprichado na surpresa. Tamara tinha sido mesmo apenas fruto do meu sonho e imaginação delirante, porque dentro do livro, havia algo que eu jamais ia imaginar...




Um anel e um bilhete: "Casa comigo?"






¹ Pág. 78 - O livro do amanhã
² Pág. 86 - O livro do amanhã








|
Gostou?

Copyright © 2009 Retalhos Assimétricos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive.