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Desafio Musical Internacional - The Wizzard - by Sammy Freitas

Posted by Aptos on 3 de dezembro de 2013 09:00 in , , , , ,
"Sammy, vc não tem uma música estrangeira né? Tem uma musica (classico no do rock, mas nada pesado) que eu amo, e acho que pode dar uma caldo legal na sua mão, ela tem uma história bem interessante... tá a fim?"

Pois é... estou devendo esse desafio à Marcinha desde fevereiro (vergonha)... Não podia terminar o ano com esse débito... Então aí segue meu desafio...


The Wizzard - Black Sabbath


Misty morning (Manhã nublada)
Clouds in the sky (Nuvens no céu)
Without warning (Sem aviso)
A wizard walks by (O mago caminha por perto)




Juan foi acordado mais cedo que o costume. Uma emergência, tinham dito quando o sacudiram na cama. Sequer se lembrava em que país africano estava hoje. Na noite anterior, ele teve um sonho muito estranho. Sua avó, já falecida, dizia que não bastava ser um médico sem fronteiras se dedicando ao bem. Ele precisava retomar as raízes da família e conhecer mais sobre os rituais xamânicos de sua vida. Seus pais sempre diziam: 10% da cura era pelo suor e esforço, 10% pelo talento e 80% pela ajuda dos deuses.

Ainda pensando nisso, olhou para o céu e as nuvens desenhavam um índio fumando um cachimbo. Esfregou os olhos - só poderia ser algum resquício do sonho... Continuou a caminhada na direção das tendas que improvisavam um hospital para a chamada de emergência. 


Casting his shadow (Lançando sua sombra)
Weaving his spell (Tecendo o encantamento)
Funny clothes (Roupas engraçadas)
Tinkling bell (Retinindo o sino)


Entrou na tenda com o sol às suas costas. Formou uma grande sombra com uma aura iluminada em volta. Resmungou um prece leve e vestiu o avental. Olhou para o carrinho de material esterilizado e pegou os itens que precisava para trabalhar. Duas crianças tinham pisado numa mina terrestre. Uma das meninas tinha perdido as pernas e parte do lado direito do corpo. A outra, no impacto tinha caído sobre uma cerca de arame farpado e além das escoriações, tinha perdido alguns dedos. Não era difícil fazer a escolha de quem seria operada primeiro. A prioridade sempre era para os que tinham mais chances de sobreviver, mas Juan nunca pensava desse jeito, estabilizava um enquanto tentava salvar todos. Freqüentemente eram montadas macas de campanha lado a lado para que ele pudesse dar atenção e fazer a cirurgia em mais pessoas ao mesmo tempo. Zora estava estável apesar da perda dos dedos. Então optou por cuidar de Tahira. Puxou a sineta para avisar aos voluntários e ajudantes que estava pronto.



Never talking (Nunca conversando)
Just keeps walking (Apenas caminhando)
Spreading his magic (Espalhando sua magia)


O calor era infernal. A anestesia tinha que ser dividida. Ele calculou com cuidado a dosagem - estava sem anestesista há meses e só contava com voluntários familiares. Faltavam remédios, instrumentos e principalmente enfermeiros, instrumentadores e outros médicos. Era competente, mas era apenas um. Era cada vez mais freqüente perder o velho jogo médico x morte. Sentia-se frustrado pelas perdas, mas cada dia tentava focar mais e mais nas vitórias. Olhou o relógio e começou a reconstrução de músculos, tecidos e pele. A mãe de uma das meninas agradecia em silêncio a vontade férrea de Juan e assistia num canto da tenda a aura de magia em volta do jovem médico. Não tinha muitas esperanças, mas ergueu os olhos para a tenda e fez uma breve oração cherokee para seus antepassados. Pediu força, pediu proteção e principalmente pediu que conseguisse afastar o mal e conseguisse salvar aquela criança que estava mais necessitada.


Evil power (O poder do mal)
Disappears (Desaparece)
Demons Worry (Demônios se preocupam)
When the wizard is near (Quando o mago está próximo)


Tahira gemia e tremia de dor e febre enquanto Juan trabalhava em seu corpo. Retirava os estilhaços da bomba como pequenos pedaços de demônio na pele queimada e arruinada da menina. O suor escorria pelo seu rosto e empapava a camisa e o avental. Sentia-se no inferno puxando um cabo de guerra com o próprio diabo pela vida de uma criança. Trabalhava no corpo da jovem há mais de 4h e estava exausto. Mas não se permitiria descansar sem que a mesma estivesse estável e em segurança. Depois mais duas horas de trabalho duro, a jovem dormia placidamente e fora de perigo. Suspirou profundamente e agradeceu aos céus ante a pequena vitória. Saiu para conversar com os pais da menina.



He turns tears (Ele transforma lágrimas)
Into joy (Em alegria)
Every one's happy (Todo mundo fica feliz)
When the wizard walks by (Quando o mago caminha por perto)


Jogou o avental e as luvas ensanguentadas no cesto e saiu da tenda cobrindo os olhos do sol forte do fim da tarde. Estava faminto e exausto. Todos os seus músculos doíam. Esquadrinhou o local rapidamente e encontrou Iori e Zalika prostrados e rezando a seus deuses. Chamou-os e explicou sobre o estado de Tahira que inspirava cuidados mas ela estava fora de perigo. O sorriso finalmente apareceu em seus rostos e agora choravam lágrimas de felicidade. Abraçavam o médico sem parar. Iori falava rapidamente agradecendo e Zalika correu para sua choupana, voltando com um prato com Oxtail¹ e koeksisters². Ofereceu a comida fazendo uma reverência para aquele semideus que salvara sua filha.


Sun is shining (O sol está brilhando)
Clouds have gone by (As nuvens passaram)
All the people (Todas as pessoas)
Give a happy sigh (Dão um suspiro de felicidade)

He has passed by (Ele passou)
Giving his sign (Dando seu sinal)
Left all the people (Deixou todas as pessoas)
Feeling so fine (Se sentindo tão bem)

Sabia que aquela comida era um luxo reservado apenas para ocasiões especiais. Acenou com a cabeça e falou baixinho:
- Asante. Si jambo. Msichana kuishi³

Iori sorriu novamente e respondeu: 
- Daktari, sisi ni si wasiwasi. Tuna imani katika Wewe. Mungu akubariki na kuongozana na wewe.4



Never talking (Nunca conversando)
Just keeps walking (Apenas caminhando)
Spreading his magic (Espalhando sua magia)


Creditou toda vitória a seus antepassados  e deu-se o luxo de sorrir. Sentou no chão feliz, comendo com as mãos conforme o costume da aldeia.








¹ Oxtail - culinária africana - a famosa "rabada" brasileira.
² Koeksisters - culinária africana - uma espécie de bolinho de arroz
³ Asante. Si jambo. Msichana kuishi - Agradeço. Não se preocupem, a menina vai viver
4 Daktari, sisi ni si wasiwasi. Tuna imani katika Wewe. Mungu akubariki na kuongozana na wewe. - Não estamos preocupados, doutor. Confiamos em você. Deus o abençoe e acompanhe.


Esta é uma história de ficção. A única realidade é a existência dos Médicos sem Fronteiras. 
Eles são uma organização humanitária internacional independente e comprometida em levar ajuda às pessoas que mais precisam sem discriminação de raça, religião ou convicções políticas. Caso queiram saber mais, acessem o site para esclarecer suas dúvidas: http://www.msf.org.br/







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Livre - resposta ao desafio musical (tema estrangeiro)

Posted by Marcinha on 18 de fevereiro de 2013 05:00 in , , ,
Livre
(Nota da Autora: Estes acontecimentos sucederam os do texto "Acelerando", que pode ser conferido aqui.)

Me exercito com pesos no quarto onde ficam meus aparelhos de ginástica. Olhando-me no espelho, confiro a postura enquanto conto mentalmente as flexões feitas com o braço direito. O som do Queen se espalha pelo quarto, compassando o exercício.

"I want to break free
I want to break free
I want to break free from your lies
You're so self satisfied I don't need you
I've got to break free
God knows, God knows I want to break free."

A letra da música dá o que pensar. É impressionante como a mente voa quanto fazemos algo que mantém o corpo mecanicamente ocupado.

Nesse momento ouço uma voz que me é tão familiar.

- Eu sabia que você ia voltar. Tanto rebuliço, tanto barulho por nada. Voltou exatamente pro mesmo lugar de onde saiu. Como sempre.

- Não me lembro de ter pedido sua opinião. - respondi com amargura, continuando meu exercício - Fiz isso por minha própria conta, independente do que você pense ou tenha a me dizer. Eu decidi voltar. Estou dando uma segunda chance a mim mesma. Ponto.

- Você é fraca, isso sim. - retorquiu, com um risinho debochado - Desistiu da fuga. Mas não pode se ver livre de mim e sempre estarei aqui para dizer o quanto você é fraca e imperfeita. Ah, e covarde!

- E porque você não cala essa boca?! - cuspi, num rompante - Sempre me atormentando, sempre enchendo a minha cabeça com intrigas. Grande parte do que você diz não se aproveita. Estou farta das suas mentiras!

- Você precisa de mim, querida... - afirmou, com sua falsa doçura - Tudo que você é hoje, fui eu quem te ensinou. Eu fiz de você a mulher forte que você é hoje. Toda essa pose... agradeça a mim! Você era uma completa submissa, sem nenhuma tenacidade.

- Eu sei o quando a sua ajuda me fez crescer, eu reconheço isso. Mas me envenenou um bocado também. - afirmei com convicção - Agora eu já posso tomar decisões por mim mesma, sem ter de ouvir o seu veneno o tempo todo, sem me basear somente no que você acha. - disse, cada vez mais irritada - E escute aqui! Eu estou tentando me apaixonar, eu optei por isso! Quero entrar de cabeça nesse retorno e fazer meu casamento dar certo! Mas você não está ajudando nem um pouco!

- Cadê a pessoa que afirma que "o amor é uma flor roxa que nasce no coração dos trouxas"? - riu abertamente, num misto de desdém e sarcasmo - Se apaixonar! Agora entregou os pontos de vez... Está é acomodada! Você não é mulher suficiente pra tomar uma iniciativa na vida, não é?

- Sou! E vou te mostrar! Sou capaz, sim, de tomar uma atitude e me libertar de você de uma vez por todas!

A raiva me corrói por dentro, queima, fere, embaçando minha visão. Ódio! Rancor! Mentiras! Chega de mentiras! Preciso me libertar disso! Preciso me libertar agora! Chega!!!

Numa descarga de adrenalina, levantei a barra cromada com quatro anilhas de dez quilos. Arremessei quarenta e tantos quilos de pura ira contra o sorriso debochado que me feriu tantas vezes. O projétil pegou bem no meio dos olhos. Esse foi o meu "basta". Eu não vou mais precisar te ouvir! Nunca mais!
Silêncio. Enfim o silêncio.

Observo satisfeita os restos do meu adversário no chão. Era apenas um espelho, eu sei. Agora o espelho jaz em cacos sobre o piso à minha frente. Foi uma ação simbólica. Mas para o meu subconsciente, quer dizer muita coisa.

Essa parte de mim, essa mulher cruel que me encara no espelho, que me subestima e ridiculariza, e que me envenena todo o tempo terá de ficar calada de agora em diante. Eu preciso ser livre, livre de preconceitos que distorcem a minha visão, livre de mentiras que eu contei a mim mesma e que transformaram meu companheiro de vida num inimigo distante.

Agora eu estou livre.

Estou livre para me prender novamente, segundo a minha vontade.


 
I Want To Break Free
Eu Quero Me Libertar

I want to break free
Eu quero me libertar
I want to break free
Eu quero me libertar
I want to break free from your lies
Eu quero me libertar das suas mentiras
You're so self satisfied I don't need you
Você é tão auto-suficiente, Eu não preciso de você
I've got to break free
Eu tenho que me libertar
God knows, God knows I want to break free.
Deus sabe, Deus sabe que eu quero me libertar

I've fallen in love
Eu me apaixonei
I've fallen in love for the first time
Eu me apaixonei pela primeira vez
And this time I know it's for real
E dessa vez eu sei que é verdade
I've fallen in love, yeah
Eu me apaixonei, sim
God knows, God knows I've fallen in love.
Deus sabe, Deus sabe  que eu me apaixonei

It's strange but it's true
É estranho, mas é verdade
I can't get over the way you love me like you do
Eu não posso superar o jeito que você me ama
But I have to be sure
Mas eu tenho de agir certo
When I walk out that door
Quando eu ando para fora daquela porta
Oh how I want to be free, baby
Oh, como quero ser livre, querido
Oh how I want to be free,
Oh como eu quero ser livre,
Oh how I want to break free.
Oh como eu quero me libertar

But life still goes on
Mas a vida continua,
I can't get used to, living without, living without,
Eu não posso me acostumar a, viver sem, viver sem,
Living without you by my side
Viver sem você ao meu lado
I don't want to live alone, hey
Eu não quero viver sozinho, hey
God knows, got to make it on my own
Deus sabe,eu tenho de fazer isso sozinho
So baby can't you see
Então, querido, você pode ver
I've got to break free.
Eu tenho que me libertar


I've got to break free
Eu tenho que me libertar
I want to break free, yeah
Eu quero me libertar, sim
I want, I want, I want, I want to break free.
Eu quero, Eu quero, Eu quero, Eu quero me libertar



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Uma nova vida - desafio musical

Posted by Unknown on 17 de fevereiro de 2013 06:00 in , ,

Resposta ao meu desafio musical, proposto pela Sammy
musica Mais Uma Vez - Legião Urbana



Uma nova vida

Eu tinha uma vida normal, pelo menos era o que eu pensava. Era diretor de uma das maiores empresas do Brasil, um homem bem sucedido, era assim que eu me classificava. Mas era bem sucedido no que? Não tinha uma família, não ligava para meus pais, não tinha uma religião, minha crença era no dinheiro, e em tudo que eu poderia comprar com ele.

Num dia como qualquer outro em que voltei para casa depois do trabalho, tomei um belo banho na minha banheira da hidromassagem, senti uma pontada no peito, mas não era nada demais, terminei meu banho e fui dormir, mas algo totalmente inesperado aconteceu. 

Acordei num lugar escuro e úmido. Comecei a me debater para saber onde estava e percebi que estava preso por correntes, pés e mãos atados. Eu estava num colchão bolorento, o que me causou nojo já de cara, e ao olhar em volta percebi que não havia mais nada naquela sala escura, a não ser uma vela no canto oposto. De onde eu estava também não enxerguei nenhuma porta.

Lutei contra minha consciência, dizendo a mim mesmo que aquilo era um pesadelo, apenas um pesadelo... eu acordaria em breve. Mas não, eu tinha sensações, sentia o cheiro do bolor por toda a sala, sentia meus pulsos doendo pelo atrito das correntes. 

Como fui parar ali? Quanto tempo havia se passado desde que adormeci na minha casa? O que significava tudo aquilo?

Um sequestro, é claro! Afinal eu era um empresário muito rico, o que mais poderia ser? Mas como alguém conseguiu entrar na minha casa, com todo o sistema de segurança, alarmes, câmeras, cães?! Era um pesadelo, só podia ser...

Eu não tinha o que fazer,  comecei a suar frio, não podia nem mesmo me levantar. Comecei a gritar e gritar, até não sentir mais meus pulmões dentro de mim, até minha garganta queimar.
Só depois que parei de gritar, uma voz me respondeu, uma voz forte e precisa, parecia um tambor, e não consegui identificar de onde vinha, pois parecia preencher toda a pequena sala. A voz me respondeu:

- Não adianta gritar, isso não vai te salvar. Você vai ter que aceitar o seu destino.

- Que destino?! – Gritei de volta. – Se você quer dinheiro, diga o quanto, qualquer quantia! Eu digo como conseguir, mas me tire daqui!

Nenhuma resposta.

Comecei a chorar. Porque eu, porque? Foquei meu olhar na pequena vela do outro lado da sala, a chama bruxuleante. A vela parecia exatamente igual, não derretia. Pensei estar começando a ficar maluco, então me veio uma musica na cabeça, e comecei a cantar baixinho para acalmar um pouco os pensamentos.
“...Mas é claro que o sol

Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem



Tem gente que está
Do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar...”

Comecei a perceber como a música fazia sentido. Eu estava, afinal, num lugar escuro, mas poderia ser pior, se não tivesse aquela pequena luz da vela ali, e eu tentava não endoidecer. 

Mas, aquilo também me fez pensar na minha família, em como eu havia abandonado meus pais depois de ficar rico, como nunca mais havia ligado ou mandado uma carta. Sim, eu estava do mesmo lado das pessoas  mesquinhas e egoístas, e era eu que estava machucando alguém, machucando meus pais, por ter esquecido de amá-los.

Aquela revelação doeu muito dentro de mim. Ali, no escuro, comecei a chorar mais alto, chorar por tudo de errado que havia feito, e a musica foi se misturando aos soluços.

“...Tem gente enganando a gente

Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia
A gente aprende


Se você quiser alguém

Em quem confiar
Confie em si mesmo


Quem acredita

Sempre alcança...”

Parecia que não era só eu que cantava aquela musica. Comecei a ouvir um coro de vozes que vinham do outro lado da parede, de todos os lados na verdade, todas as vozes sofridas como a minha, pareciam cantar para se salvar.
- Aceite o seu destino, e confie em si mesmo! – aquela voz poderosa me falou.
- Que destino?! – gritei em resposta, mas a voz nada disse.
Na minha cabeça aquela ultima frase ficava martelando “quem acredita sempre alcança...” Mas não era eu, eram aquelas vozes todas repetindo sem parar aquela frase. Com a cabeça girando, tentei me focar naquela pequena luz da vela e lembrar o resto da música.
“...Mas é claro que o sol

Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Nunca deixe que lhe digam:
Que não vale a pena

Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos
Nunca vão dar certo
Ou que você nunca
Vai ser alguém...”

Sairia dali, eu sabia que ia sair, estava começando a acreditar no que a musica que saída dos meus lábios dizia, e aquilo começou a puxar meus pensamentos a uma realidade avassaladora.
Eu estava apenas em uma sala escura, preso por correntes à realidade que eu mesmo criei para mim, sozinho, preso na minha ganância. Mas haviam pessoas que estavam passando fome, frio, sofrendo com doenças terminais, realidades em que o estupro e a dor já faziam parte do cotidiano. Essas pessoas estavam numa escuridão muito maior que a minha, mas ainda assim tinham esperanças. Tentei pensar, no que elas tinham esperança?
- Em Deus, claro! – concluí.
Eu devia ter esperanças em Deus, foi Ele que me ajudou a conseguir realizar meus sonhos, a me tornar um empresário de sucesso, Ele me perdoaria se eu tentasse me desculpar, Ele me livraria dessa escuridão.
As vozes ao meu redor continuaram a música:
“...Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Mas eu sei que um dia
A gente aprende
Se você quiser alguém
Em quem confiar
Confie em si mesmo!

Quem acredita
Sempre alcança!”

- Eu sei! – gritei. – Eu sei que em minha ganância machuquei tanta gente, tanta gente que me amou! Meu Deus, me perdoe! Me tire dessa prisão, eu prometo melhorar!
E dessa vez a voz respondeu.
- Não sei se isso será possível Manoel... Isto não é apenas uma prisão, é o purgatório, onde você pagará por seus atos até ser digno de ir para o céu.
- Purgatório? Como assim? – Comecei a tremer com a idéia.
Então a voz dizia que eu morri? Mas eu sentia meu corpo, sentia fome, sentia frio. Ouvia as vozes repetindo desesperadamente o resto da música “Confie em si mesmo! Quem acredita sempre alcança!”
- Você teve um infarto, Manoel, não se lembra? – a voz ecoou na sala. – por isso está aqui.
Meu mundo começou a girar, tantas lembranças, tantos pensamentos. Eu podia mesmo ter morrido? Bom, o que mais explicaria  eu ter acordado ali, naquela sala estranha?
- Você precisa me deixar voltar!
- Daqui, meu filho, você irá para o céu, ou para o inferno, de acordo com suas decisões do que pretende ser.
- Não! E minha família? – comecei a chorar alto – Não posso simplesmente morrer, e nunca pedir perdão. Eu mudei, eu aprendi!!!
- Mudou mesmo? – perguntou a voz, ainda mais forte.
- Sim! – eu gritei. – E eu confio em mim mesmo!
De repente entendi o que as vozes me diziam, elas me diziam para continuar, elas cantavam para que eu confiasse na minha mudança, para que Deus também pudesse confiar em mim. Pediam desesperadas para que eu acreditasse em mim, e alcançasse a graça que Deus poderia me conceder.
- Eu mudei! – gritei para ele – Eu mereço algo melhor do que essa prisão, eu mereço a chance de me redimir, eu acredito!
- Que assim seja. – a voz respondeu.
Por um minuto nada aconteceu, então fiquei surdo, depois cego. De repente uma luz muito forte ofuscou minha visão, e aos poucos pude perceber pessoas de branco que andavam de uma lado para o outro e mexiam em mim, não entendia o que diziam, apenas uma frase:
- Ele voltou, conseguimos.
Adormeci sem sonhos, e tempo depois acordei numa cama de hospital, agora mais consciente. Percebi que minha mãe estava ao meu lado, chorando.
- Mãe? – chamei.
Ela me olhou, os olhos vermelhos e inchados.
- Filho? Por Deus, você está mesmo vivo! Depois do infarto, achamos que íamos mesmo perder você, os médicos disseram que foi um milagre! Graças à sua governanta que voltou a noite para falar com o senhor, e o encontrou desacordado no corredor.
“No corredor?” pensei, então nem mesmo cheguei a deitar na cama e dormir? Mas e minha mãe? Apesar de tudo ela estava ali, apesar de todas as mágoas, ela veio rezar por mim.
- Mãe, me perdoe por tudo que fiz. De hoje em diante serei bem melhor. Eu voltei, Deus me deu a chance de voltar, para reparar meus erros.
Choramos juntos, de alegria.

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Resposta ao Desafio Musical

Posted by Marcinha on 15 de fevereiro de 2013 05:00 in , , , ,

Acelerando
(texto inspirado na música "Trancado", de Ana Carolina)



Enxugo as lágrimas num movimento rápido, passando o antebraço pelo rosto, a fim de desembaçar a visão da estrada à minha frente. Mudo a marcha, "mandando uma pra baixo", e acelero mais do que deveria. O motor V8 ronca debaixo do capô, enfurecido. Não está mais enfurecido que o meu coração, entretanto.

Droga! Deu tudo errado! Merda! Eu rosno entredentes. Agora acabou. Vida nova.

Preciso de música. Onde está meu pen drive? Não está no porta luvas. Que droga. Olho pelo retrovisor interno, para a montanha dos meu pertences pessoais amontoados no banco traseiro do meu Dodge. Não vou encontrar meu pen drive nessa montanha de coisas. No mínimo o deixei pra trás, no rompante da minha saída de casa.

Nem um maldito AC/DC eu posso escutar pra me consolar!

Rádio. Odeio, mas ter de servir.

"Eu tranco a porta
pra todas as mentiras
E a verdade também, está lá fora
Agora, a porta está trancada"

Música nacional, eu mereço... se bem que eu amo a voz da Ana Carolina. E a música é muito pertinente nesse momento. Minha porta agora está bem trancada. Tranquei meu coração, minha alma, minha vida. E vou jogar a chave fora!

"A porta fechada
me lembra você a toda hora
A hora me lembra o tempo que se perdeu"

Oh, droga... estou chorando de novo. O tempo é um carrasco... como, depois de 20 anos, não lembrar de alguém a toda hora?

"Perder é não ter a bússola
É não ter aquilo que era seu
E o que você quer?
Orientação?"

Aquilo que era meu... eu sempre tive certeza que ele era meu. E ainda tenho certeza que é meu. Oh Deus, como foi que tudo se perdeu? O que faltou? Do que ele precisava pra me amar da maneira pela qual eu tanto ansiei? Orientação? Mais? Precisava que eu fizesse um gráfico? Meus Deus, eu falei tantas vezes...

Piso mais fundo no acelerador, ouvindo o ronco ensurdecedor do oitão. Ainda bem que a estrada está vazia.

"Eu tranco a porta pra todos os gritos
E o silêncio também está lá fora
Agora a porta está trancada"

Chega dos gritos, dos dele, dos meus próprios. Chega dessa fera raivosa na qual eu mesma me transformei. Não quero esse ódio que eu carrego no meu peito. Se os momentos bons compensassem... se fossem a maioria. Silêncio, paz. Companheirismo. Afinidades. Hoje, deixei isso tudo para trás...

"Eu pulo as janelas
Será que eu tô trancado aqui dentro?
Será que você tá trancado lá fora?"

As lágrimas afloram, incontroláveis. Alivio um pouco o pé do acelerador. A estrada é uma massa disforme na minha frente. É melhor eu parar no acostamento. Ligo a luz de alerta e estaciono o Dodge.

Eu sinto uma dor no meio do peito quase como se um alien fosse saltar por ali. Ele sempre foi a única pessoa na minha vida inteira capaz de me fazer sentir uma dor assim. Será essa dor a minha companheira de agora em diante? Resolvi me trancar e partir, achando que a dor não me seguiria. Ledo engano. E agora estou só, sozinha pra lidar com essa dor no meu peito. Ele está longe, pra sempre. Ele que me fez sentir dor tantas vezes. Ele... que tantas vezes também foi meu bálsamo. Inúmeras vezes ele foi tudo de que eu precisava. Ele que sempre esteve ao meu lado. Para tudo, sempre me estendendo a mão. Por mais de vinte anos.

"Será que eu ainda te desoriento?
Será que as perguntas são certas?"

Cruzo os braços sobre o volante negro à minha frente e descanso sobre eles a cabeça. Não sinto nem sombra da raiva que me movia quando saí de casa. Agora eu sinto apenas o pesar, imenso e insuportável, como o peso do mundo inteiro sobre os meus ombros.

Eu que desconfio tanto das pessoas, eu que tenho tantas incertezas... Sobre ele, há tanta coisa que eu sei! Eu sei que ele me ama, eu sei que eu o desoriento a ponto de nem sempre ele fazer o que eu preciso, mas... o amor dele é incontestável. Disso eu sempre soube.

Merda, o que eu estou fazendo?!

Choro. Choro até meu rosto ficar vermelho, até os soluços sacudirem violentamente o meu corpo. Eu fiz todas as perguntas erradas, foi isso? Me perguntei exaustivamente como sair dessa situação, quando deveria ter me perguntado como melhorá-la?

Levanto a cabeça e recosto-me no banco do motorista. Fecho os olhos, enquanto sinto o tremor do V8 funcionando em marcha lenta. É como um acalento, uma canção de ninar. Os carros tem sido meu mundo, desde que conheci aquele homem. O ronco do motor me acalma, a velocidade me alegra.

Choro recostada ao banco, até não ter mais lágrimas. Mantenho os olhos fechados. Fico em silêncio por tanto tempo, que o choro que banhou meu rosto seca totalmente.

...

...

...

...

...

...

...

...

...

...

Abro os olhos. Respiro fundo, tomando coragem. Há uma estrada à minha frente. Não posso voltar atrás agora. Eu sei exatamente o que devo fazer.

Engreno a primeira e saio do acostamento cantando pneus. Ganho a estrada a minha frente, retomando o percurso que fazia, o caminho que me leva para longe de casa. Olho pelo retrovisor todos os meus pertences no banco traseiro, a estrada vazia que ficou para trás...

A estrada totalmente vazia. É agora ou nunca.

Tiro o pé do acelerador, puxo o freio de mão sob o painel e viro o volante todo para a esquerda, mandando "um cavalo" no meio da pista. O Dodjão canta os pneus enquanto desliza num elegante ângulo de cento e oitenta graus. Eu o alinho na pista rapidamente, no sentindo contrário ao que eu vinha. Empurro uma marcha pra baixo e catuco fundo o acelerador, deixando um rastro de borracha no asfalto e uma nuvem com cheiro de pneu queimado que me é tão peculiar.

Estou voltando para casa.

"Então eu me tranco em você
E deixo as portas abertas"



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Desafio Musical: Always On My Mind - Elvis Presley

Posted by Nanda Cris on 4 de fevereiro de 2013 06:00 in , ,


Always On My Mind (Sempre Em Meu Pensamento)
Elvis Presley



♫ Maybe I didn't treat you (Talvez eu não tenha te tratado)
Quite as good as I should have (Tão bem quanto deveria)
Maybe I didn't love you (Talvez eu não tenha te amado)
Quite as often as I could have (Com tanta frequência quanto poderia)
Little things I should have said and done (Pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito)
I just never took the time (Eu simplesmente nunca me dei ao trabalho) ♪

♪ You were always on my mind (Você sempre esteve em meus pensamentos)
You were always on my mind (Você sempre esteve em meus pensamentos) ♫

♫ Maybe I didn't hold you (Talvez eu não te abracei)
All those lonely, lonely times (Todos aqueles solitários, solitários momentos)
And I guess I never told you (E eu acho que nunca te disse)
I'm so happy that you're mine (Que sou muito feliz por você ser minha)
If I made you feel second best (Se eu fiz você se sentir triste, eu confesso)
Girl, I'm so sorry I was blind (Garota, eu sinto muito, eu estava cego) ♪

♪ You were always on my mind (Você sempre esteve em meus pensamentos)
You were always on my mind (Você sempre esteve em meus pensamentos) ♫

♫ Carry, tell me that your sweet love hasn't died (Diga-me, Diga-me que seu doce amor não morreu)
Give me, give me one more chance (Me dê, Me dê mais uma chance)
To keep you satisfied, satisfied (De te manter satisfeita, satisfeita) ♪

♪ Little things I should have said and done (Pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito)
I just never took the time (Eu simplesmente nunca me dei o trabalho)
You were always on my mind (Você sempre esteve em meus pensamentos)
You are always on my mind (Você sempre está em meus pensamentos)
You are always on my mind (Você sempre está em meus pensamentos) ♫




Ele estava com dificuldade para dormir naquela noite. Não que isso fosse alguma novidade. Os últimos anos tinham sido assim. À noite, tomava calmantes para desacelerar e, finalmente, conseguir dormir um pouco. De manhã, sua mulher lhe dava remédios para acordar, prescritos pelo médico. Mas sua esposa... bem... ela não estava mais ali para fazer isso. Não, não. Era melhor nem pensar nisso. Se mantivesse essa linha de pensamento, nem os remédios o dopariam. Era doloroso demais pensar nela.

Revirou-se na cama, tentando se aconchegar melhor nos travesseiros. Era só questão de tempo até as drogas toldarem sua visão.

Sua mente se recusava a parar. Lembrou-se de como se conheceram. Ele estava servindo na Alemanha Ocidental e ela acompanhava seu pai, que era um oficial da força aérea. Tão linda, nunca quis tanto alguém na vida. Para ele nada era impossível. Três anos depois, conseguiu trazê-la para sua casa.

Deu cinco socos no travesseiro. Tanto para afofá-lo, quanto para descarregar a frustração. Tinha que parar de pensar! Encarou o teto. Aquela maldita cor salmão. Coisa dela...

Lembrou-se da alegria quando descobriu que ela estava grávida, os preparativos para o casamento relâmpago. A felicidade dos dois era palpável neste dia. E nove meses depois, o grande presente: a filhinha deles, seu bem mais precioso. Como amava aquela pequena. Sentia falta dela. E da mãe também...

Ok, olhar o teto salmão não estava ajudando. Virou-se de lado e encarou o criado mudo. Viu uma foto dos três e sentiu as primeiras lágrimas escorrendo.

Porque tudo havia desmoronado assim? Eles eram felizes... quando foi que ele começou a passar mais tempo fora de casa do que com sua família? Não conseguia se lembrar. E a última vez que tinha dito que a amava? Será que já havia declarado isto algum dia? Sua cabeça começou a doer com o esforço de recordar e as lágrimas correram mais fartas. Estava se sentindo um fracassado.

Levantou-se e foi até uma mesinha no meio do quarto, coberta de remédios. Pegou dois ao acaso. Engoliu com um gole d'água. Voltou para a cama. Dessa vez manteve seus olhos bem fechados. Mas a sua mente era traiçoeira, ela não ia desistir tão fácil. Os flashs das lembranças pipocavam incontroláveis.

O dia em que ela pediu um carinho, e ele não deu, para não amassar a roupa do show. Ela dizendo que o amava, chorando, e ele indo embora, deixando-a arrasada no chão do banheiro. Ela descobrindo a sua quinta traição e ele nem se dando ao trabalho de negar. A última conversa deles, o dia que ela admitiu que também o estava traindo e pediu o divórcio. Ele estava cego e não percebeu que estava perdendo o grande amor de sua vida.

Encolheu-se na posição fetal e deixou-se engolfar pelas lágrimas. Ele já havia pedido perdão, prometido mudar. Uma nova chance, era só o que queria. Mas ela estava cansada de promessas vazias e não ia mais voltar a trás. Esse pensamento o sufocou e ele chorou até dormir. E sonhou com Priscilla e Lisa. Os três aproveitavam um dia ensolarado para fazer um piquenique que nunca se realizou pela constante falta de tempo dele.




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Desafio Musical - Ovelha Negra, Rita Lee

Posted by Giulia Rizzuto on 3 de fevereiro de 2013 05:30 in , , , ,

Essa música foi o tema do meu desafio. Bom, aí vai!

Carta de uma Rebelde


“São Paulo, 22 de Fevereiro de 2013.

Queridos mãe e pai,
Vocês devem estar se perguntando: “O que Jaqueline aprontou dessa vez pra mandar uma carta após tanto tempo?”. Eu não chamaria de aprontar, mas sim de aliviar. Aliviar a vida de vocês, tornar tudo mais fácil. Afinal, com uma filha problemática como eu tudo se torna mais difícil, não é mesmo? Pois é, por isso decidi ir embora. Não temporariamente, mas pra sempre. E por quê? Bom, todos nós sabemos que há 23 anos sou a ovelha negra da família, ou seja, desde que nasci. Nunca nada que eu fiz foi certo pra vocês, eu sempre “denegri a imagem da família Bustamante”. Desde as tatuagens, raves e shows de rock até os amigos e as saídas ás 2 da madrugada. Desde meus cigarros até minha pequena adega escondida no meu closet. Eu nunca fiz nada certo. Para vocês, eu deveria ser perfeita como minha irmã Clara: notas irrepreensíveis, delicada, recatada, obedecendo-os cegamente e sem nenhuma opinião formada por si mesma. Eu deveria ser uma bundona, com o perdão da palavra. Mas não, eu decidi ser diferente. Eu decidi provar pra todo mundo que o fato de eu ser de família rica não me faz medíocre como vocês. E o mais difícil é que, apesar de tudo isso, apesar de vocês me odiarem (ou odiarem meu jeito), eu amo vocês. Mais do que eu deveria.
Lembram quando eu quis montar uma banda de heavy metal e vocês me proibiram, dizendo que era coisa de drogados? Pois é, eu tenho uma agora, e eu não me drogo. Lembram quando vocês me disseram que se eu fizesse alguma tatuagem, além de não poder trabalhar na empresa da família, eu não conseguiria emprego em nenhum outro lugar? Bom, eu consegui. Eu estudei, me dediquei, fiz cursos. Agora, trabalho como gerente de um estúdio de tatuagens aqui em São Paulo.
Aliás, vocês nem devem sequer saber que moro aqui, não é? Levando em conta que já se passou um ano e meio desde que eu fui embora e só agora tomei coragem de lhes escrever. O que eu mais quero que vocês percebam é que eu venci. Mesmo vocês torcendo contra, eu consegui vencer. Mesmo com as tatuagens, os alargadores, piercings, enfim. Tudo o que vocês condenaram.
Quantas vezes me senti uma verdadeira perdedora, afinal, vocês sempre frustraram meus planos e vontades. Vocês sempre repetiram incessantemente de que eu não teria futuro. Bom, eu tenho um. E pretendo começar a fazer faculdade no próximo semestre, inclusive. Engenharia.
Eu sempre fui boa em Matemática, embora vocês não saibam. Vocês nunca acompanharam meu rendimento escolar, portanto não sabem que minhas notas também eram as maiores da sala, como as da Clara. Mas eu era a rebelde, lembram? Eu não merecia a atenção de vocês. Vocês nunca foram às reuniões escolares da minha turma, e quando eram chamados, sempre arranjavam um compromisso como desculpa para faltar.
Sabe, vocês me deixavam sempre tão pra baixo que eu queria morrer, sumir do mundo. Me senti, por muito tempo, a ovelha negra da família, uma vergonha. Como naquela música da Rita Lee:
“Foi quando meu pai me disse: filha,
Você é a ovelha negra da família.
Agora é hora de você assumir
E sumir.”
Bom, eu fiz isso, eu sumi. Vocês devem estar felizes com isso, afinal não me procuraram. Nem um SMS, nem um cartão postal, nem uma ligação. Nada.
Enfim, vou terminar essa carta com um apelo: não a respondam. Sei que a resposta seria mais um daqueles sermões de você-não-vive-sem-nós ou você-depende-de-nós-pra-tudo. Eu conseguir fazer minha vida, sem vocês.
Mas ainda assim, vos amo.
Abraços,
Jaqueline Bustamante, a garota que venceu.”

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Desafio Musical: All Star - Cássia Eller

Posted by Nanda Cris on 2 de fevereiro de 2013 06:00 in , ,

All Star
Cássia Eller



♪ Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as índias
Mas a terra avistou em você
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário
Estranho é gostar tanto do seu all star azul
Estranho é pensar que o bairro das Laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje ♫

♫ Estranho mas já me sinto como um velho amigo seu
O seu all star azul combina com meu preto de cano alto
Se o homem já pisou na lua
Como ainda não tenho seu endereço?
O tom que eu canto as minhas músicas pra tua voz
Parece exato
Estranho é gostar tanto do seu all star azul
Estranho é pensar que o bairro das laranjeiras
Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra ...Laranjeiras ♪

♪ Satisfeito sorri quando chego ali
E entro no elevador
Aperto o 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje ♫


Marina acordou sem despertador. Preguiçosamente olhou para a janela e deparou-se com um belo dia de outono, mais um das suas férias. O que fazer hoje?

Enquanto escovava os dentes, lembrou-se que havia acabado de ler "Pollyanna" no dia anterior e não tinha mais nenhum livro para ler. Ir até a livraria era uma boa opção para passar aquela manhã. Tomaria seu café por lá mesmo, enquanto folheava alguns exemplares, escolhendo qual levar.

Calçou seus tênis All Star de cano preto longo com um sorriso bobo nos lábios. Era tão bom começar o dia com uma perspectiva tão boa de entretenimento.  Saiu do apartamento assoviando "Always on my mind", sua música favorita. Seu bom humor era inabalável.

***

Chegando à livraria, encaminhou-se diretamente para a área de lançamentos, gostava de estar sempre em dia com os acontecimentos literários. Foi passando a vista em uma capa aqui, uma sinopse ali e, quando viu, já era portadora de uma pilha de 7 livros. 

- Ok, melhor ir com calma. - Ela pensou, seguindo para o segundo andar , onde ficava o café. 

Olhava embevecida para a primeira capa da pilha. As nuances furta-cores pareciam brincar com seus olhos a cada passo. Estava tão entretida, que acabou esbarrando em alguém e todos os livros voaram para o chão, fazendo um imenso estrondo. Abaixou-se rapidamente, sentindo o rosto pegar fogo de vergonha. 

Odiava chamar atenção para si mesma. Enquanto recolhia os livros notou um par de mãos masculinas que a ajudavam na tarefa. Eram grandes e fortes e ela automaticamente se interessou pelo seu gentil dono. Ao se levantar, já com os livros empilhados novamente nos braços, aproveitou para fazer uma varredura discreta no rapaz à sua frente. All Star Azul, calças jeans desbotadas, uma camisa de malha preta escrita em letras brancas "Elvis, THE KING". Numa das mãos, "Os Contos de Meigan". Barba por fazer, óculos de armadura quadrada e negra. Belos olhos azuis, cabelos castanhos claros e lisos. Parecia preocupado.

- Desculpe, te machuquei?

- Não, não, tudo bem.

- Posso te pagar um café? É o mínimo que eu posso fazer...

- Não há necessidade, sério.

- Por favor, eu insisto. Quero tirar essa primeira má impressão.

- Ok...

Ele, então, estende os braços para pegar os livros que estão com ela. Incrédula, Marina os passa para ele, sem nenhum comentário adicional.

- O cavalheirismo não morreu! - ela pensa, intrigada e maravilhada.

***

Os livros estão em um canto da mesa, juntamente com duas xícaras de café pela metade, tudo completamente esquecido.

Marina só tem olhos, ouvidos e boca para aquele desconhecido intrigante. Ele é engraçado, espirituoso, inteligente e sarcástico. Ela tem a nítida sensação de que eles já se conhecem, de tão entrosados que estão. 

Emendam um papo no outro, sem nunca ficar sem assunto. Estão no meio de uma risada compartilhada quando a atendente pergunta se pode retirar as xícaras. Marina está a ponto de dizer que não, que ela ainda não está preparada para abrir mão do café e da companhia, quando o desconhecido olha para o relógio de pulso e exclama:

- Deus, estou atrasado! Conversa boa é assim, quando a gente vê, lá se foram horas!

- Você já vai? - ela tenta disfarçar a decepção na voz.

- Infelizmente tenho que ir, adorei te conhecer! - ele diz enquanto se levanta e dá um beijo, um pouco demorado demais, na bochecha dela que cora violentamente.

- Até mais então! - ela diz, tentando parecer animada.

- Até!

A saída é tão intempestiva que ela nem teve tempo de perguntar seu nome, seu telefone, seu endereço, qualquer coisa. Fica observando-o chegar à porta da livraria. Ele se vira e manda um beijo. Ela sorri, como resposta, e o vê sair e se misturar na multidão da rua. Logo o perde de vista.

- É bem tipico meu, o cara perfeito e eu não sei nada sobre ele.  - ela murmura para si mesma. Abaixa os olhos tristes para a mesa e vê que o exemplar de "Os Contos de Meigan" ficou por ali. Pega e o folheia, como se pudesse extrair o cheiro dele dali de dentro. Neste momento, um bilhete cai do livro, ela o pega incrédula.



Marina relê o bilhete três vezes. Será real? Levanta da mesa e encaminha-se para casa. Desiste de comprar um livro para ler, aquele papel de caderno amassado já tinha lhe dado muito o que pensar, mesmo tendo certeza de que sua resposta àquele convite seria sim.



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