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[Batata Quente 3 - parte 3] - As Crônicas de San Atório - Capítulo Três: Um bofe no caminho.

Posted by Patricia Deuner on 22 de outubro de 2013 06:00 in , ,
Olá queridos leitores!

Aqui está mais uma parte da deliciosa estória das quatro garotas mais exóticas que o mundo inteiro já viu.

As Crônicas de San Atório mistura magia, aventura e muita diversão, e faz parte da terceira edição do Batata Quente, um desafio onde todas nós somos autoras. Mas não se deixem enganar, porque qualquer semelhança dos personagens com as autoras, é mera coincidência.
Espero que gostem e deem boas risadas.

Confiram as primeiras partes:
As Crônicas de San Atório PARTE 1 : "Na Taverna do Fauno"
As Crônicas de San Atório PARTE 2: "Encontros e Caminhos"


                                                        Parte 3: UM BOFE NO CAMINHO

Algumas horas depois, o quarteto se instalava sob a copa de um frondoso carvalho próximo ás margens do rio Coveiro de Cima. Os humores variavam de acordo com cada necessidade, mas o que imperava era inegavelmente a fome. Nardanna deixava escapar vez ou outra que seu estômago já colava nas costelas e Palermo gargarejava em concordância com sua dona, mas graças a lerdeza da lhama (sua montaria desde...sempre), não podia queixar-se do longo tempo sem paradas para comer.

Pethrica sentiu um cheiro estranho vindo dentre as árvores e se retesou com o mal presságio, mas viu que não havia perigo iminente, e continuou a escovar a crina de Safira, aguardando que alguém providenciasse alimento.

- Alguém ai sabe pescar? – Martha já se desvencilhava de seus numerosos pertences de batalha a fim de mijar pela quinta vez desde o começo daquela exaustiva cavalgada, fazendo uma nota mental para beber menos cerveja da próxima vez. Audaz, seu incrível Andaluz Espanhol, esgueirou-se pela mata de encontro ao rio enquanto chacoalhava seu sedoso pelo malhado de preto e branco. Atrás dele ia Legolas, o corajoso pônei galez de Santhara, cheirando o traseiro elegante de Audaz. 

– Eu disse que esse pônei tava mais pra veado! – Martha disse rindo tanto que quase mijou perna abaixo.
- Cala a boca sua aprendiza de guerreira! Legolas é muito macho se quer saber. Ele não tem culpa se seu cavalo rebola feito uma dançarina de taverna! 
- Alto lá garotas! Precisamos comer, esqueceram? – Nardanna lutava com Palermo, sem muito sucesso, por uma enorme raiz que se projetava do chão formando um ótimo encosto para suas costas doloridas. Ele se coçava na raiz sorrindo debochado para ela.

Santhara jogou seus cachos ruivos para trás e resolveu fazer vista grossa ao comentário sarcástico de Martha, lembrando que precisaria muito do seu mais novo leão de chácara quando chegassem ao torneio de bardos. 

- Bem, vamos ao que interessa então. - Santhara agachou-se afastando camadas e camadas de tecido do seu longo vestido até chegar a duas largas tiras de couro presas uma em cada coxa. Dali ela tirou dois alforjes de tamanho bem avantajado e depositou sobre um tronco negro retorcido no chão. Os olhos das outras iam se esbugalhando a cada item que ia sendo retirado das bolsas. Um disco grande e gordo de pão de milho, um saco de nozes e castanhas, um naco robusto de presunto, várias fatias de torresmo amarrados com corda, chouriço, e por fim quatro bolsas de hidromel. Para esse último, Petrika suspirou desejosa.

Um emburilho* de protestos se seguiu ao fim da exposição. Todas falavam ao mesmo tempo e sem parar.
-Você escondeu tudo isso da gente! Nardanna disse indignada. -Sabia que estávamos famintas e não disse nada!
- Isso é golpe sujo Santhara! – Martha quase voava no pescoço da taverneira. – Podia pelo menos ter trazido alguns litros de cerveja!
- Bem vi que esse traseiro avantajado estava um pouco demais pra você Santhara. Nem eu consigo ser tão gostosa assim. – Pethrika estreitou os olhos para a taverneira em desafio e suspirou completando. – Posso ficar com o hidromel?
- Peraí...você roubou o velho Silvicha? – Nardanna perguntou com o cenho franzido.
- Roubar? Não. Peguei em troca por meus muitos salários atrasados. E em pagamento pelos vários apertões que levei nas tetas. Aquele bode velho me deve muito mais do que essa ninharia. E não me dê sermões Nardanna. Seu empreendimento é bem contestável para me julgar com tanta altivez.
Nardanna sabia que não podia confiar totalmente naquela ruiva, mas deu de ombros, já que estava verde de fome, e a procedência do alimento não importava, desde que não estivesse envenenado.

Santhara foi dividindo em vezes** iguais cada um dos alimentos e todas puderam saborear de tudo um pouco. Quando chegou ao hidromel, reparou que em vez de quatro sacos apenas três ainda estavam ali sobre o tronco. Tinha quase certeza do que tinha acontecido com o quarto saco, mas não diria nada. Ela era muito observadora e sagaz. Nada passava por sua grande habilidade de sentir as emoções de quem estivesse por perto. Mesmo que seus olhos não registrassem o ocorrido, as vibrações das auras delatavam suas condições emocionais. Merlin havia lhe dado esse dom muitos anos atrás em troca de um grande favor (era ótima em cobrar favores também), e nunca contara a ninguém. Não arriscaria seu segredo por um saco de hidromel.

O som agourento do relincho de Audaz fez todas pularem rígidas na direção do rio. Por um longo minuto ninguém disse nada, e então um novo relincho cortou a escuridão. Martha saiu na frente empunhando firmemente sua espada. Ela conhecia bem seu cavalo, e sabia que alguma coisa não estava bem. Atravessou a densa floresta de carvalhos se desvencilhando habilmente dos cipós embolados no chão úmido, e quando finalmente saiu na encosta aberta do rio, o cheiro metálico de sangue entrou forte em suas narinas. Santhara, Nardanna e Pethrika (nessa exata ordem) chegaram à beira do rio dando encontrões uma atrás da outra e ficaram petrificadas com a cena. Audaz e Legolas andavam em círculos dando pequenos pinotes em torno do corpo de um homem que jazia debruçado na encosta, seu rosto afundado na lama cheia de cascalhos. As vestes rasgadas evidenciavam dois cortes que iam de seus ombros até a cintura formando um V, e a ferida parecia pulsar em algumas partes, onde o sangue ainda fluía.

Pethrika foi a primeira a falar.
- Ele foi jogado no rio não muito longe daqui. Ou simplesmente se jogou para salvar sua vida.
- Você é tão poderosa que só de olhar pra ele consegue descobrir o que aconteceu Pethrika? - Martha perguntou desconfiada.
- Não. É apenas uma dedução. Esse é o rio Coveiro de Cima. É um rio amaldiçoado e não aconselho que ninguém entre nele. Por séculos os bárbaros desovaram seus inimigos nessas águas. Os corpos normalmente não eram encontrados, pois diz a lenda que o próprio rio se encarrega de sepultar os corpos e encaminhar os espíritos. Muitas almas ainda vagam sobre o leito a procura de vingança por sua morte. Mas esse homem parece ter muita sorte, porque o rio não costuma averiguar se a pessoa está realmente morta ou não. Sepulta logo de uma vez.
Nardanna sentiu um arrepio correr sua espinha. Sabia que a amiga estava certa, e a ideia de se deparar com um espírito vingativo lhe causava até enjôos. Confiava em suas flechas para lidar com os vivos, mas com os mortos...

- O que vamos fazer com ele? – Santhara perguntou sem ter muita certeza do que pensar. A aura do sujeito estava muito fraca e borrada no entorno. Era impossível tirar alguma conclusão sobre sua personalidade. Se ele podia ser uma pessoa confiável ou não.
- Podemos fazer uma votação. – Sugeriu Nardanna, sempre conciliadora.
- Por mim pode jogar de volta no rio. Não confio muito nos homens. A maioria é imprestável mesmo. – Martha disse com ar enfadado cruzando os braços sobre o peito e cutucando o copo com a ponta da bota.
- Não diga uma coisa dessas Martha! Quer ser responsável pela morte de um homem?  Nardanna ficou chocada. 

- Não seria o primeiro querida. 
– Acho que temos que levá-lo para o acampamento e cuidar dessas feridas. - Nardanna disse incisiva o suficiente para todas concordarem.
- Tudo bem. - Martha suspirou aborrecida. - Só vamos mantê-lo bem amarrado e amordaçado. Não sabemos a procedência dele. 

Santhara também concordou em cuidar do homem, observando para si mesma que ele era muito robusto, e, a julgar pela grossura das coxas, era bastante viril também.

Pethrika ficou calada e muito séria durante toda a discussão sobre o destino do homem. Nem ela mesma com todo o seu poder conseguia fazer qualquer julgamento diante daquele ocorrido. Mas sabia que alguma coisa não estava certa. Ajudar aquele homem poderia ser a ruína delas...ou não.
...


Emburilho*: confusão, tumulto.
Vezes**: pequena porção, dose.


                                                         AS MONTARIAS




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2 comentários:

  1. Ficou hilário, Paty! Nossa, ri muito com algumas tiradas suas!
    Adorei aquele comentário da Santhara sobre o gingado do Audaz. Aquela da comida escondida e a reação da Martha (a bêbada oficial) foi cômica. Adorei tb a compaixão dela com o pobre bofe ferido (a Martha é, definitivamente, uma ogra, hahahahahaha).
    Ri muitas vezes mesmo! Ficou ótimo, adorei os temperamentos e os poderes/habilidades bem definidos que vc desenvolveu pra cada uma das personagens. Muito show!
    E ainda presenteou a Santhara com o mestre dos mestres hein! (Sammy, vc tá devendo uma à Pethrika na sua próxima participação!, rss...)
    Maneiríssimo a Nanda já ter abocanhado a continuação! Ah, sim, eu ia esquecendo: o Palermo é mesmo uma figuraça!
    Adorei, Paty, parabéns!

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  2. Caramba, gostei muito Paty Maria!
    Ficou muito legal mesmo, o gancho pra próxima pessoa que vai continuar a história(no caso eu, rsrs), as tiradas das meninas, amei a parte:

    "- Por mim pode jogar de volta no rio. Não confio muito nos homens. A maioria é imprestável mesmo. – Martha disse com ar enfadado cruzando os braços sobre o peito e cutucando o copo com a ponta da bota.
    - Não diga uma coisa dessas Martha! Quer ser responsável pela morte de um homem? Nardanna ficou chocada.
    - Não seria o primeiro querida. "

    Show!

    A BATATA QUENTE É MINHAAAAAAAAAAA!

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