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Desafio Musical Internacional - The Wizzard - by Sammy Freitas

Posted by Samantha Freitas on 3 de dezembro de 2013 09:00 in , , , , ,
"Sammy, vc não tem uma música estrangeira né? Tem uma musica (classico no do rock, mas nada pesado) que eu amo, e acho que pode dar uma caldo legal na sua mão, ela tem uma história bem interessante... tá a fim?"

Pois é... estou devendo esse desafio à Marcinha desde fevereiro (vergonha)... Não podia terminar o ano com esse débito... Então aí segue meu desafio...


The Wizzard - Black Sabbath


Misty morning (Manhã nublada)
Clouds in the sky (Nuvens no céu)
Without warning (Sem aviso)
A wizard walks by (O mago caminha por perto)




Juan foi acordado mais cedo que o costume. Uma emergência, tinham dito quando o sacudiram na cama. Sequer se lembrava em que país africano estava hoje. Na noite anterior, ele teve um sonho muito estranho. Sua avó, já falecida, dizia que não bastava ser um médico sem fronteiras se dedicando ao bem. Ele precisava retomar as raízes da família e conhecer mais sobre os rituais xamânicos de sua vida. Seus pais sempre diziam: 10% da cura era pelo suor e esforço, 10% pelo talento e 80% pela ajuda dos deuses.

Ainda pensando nisso, olhou para o céu e as nuvens desenhavam um índio fumando um cachimbo. Esfregou os olhos - só poderia ser algum resquício do sonho... Continuou a caminhada na direção das tendas que improvisavam um hospital para a chamada de emergência. 


Casting his shadow (Lançando sua sombra)
Weaving his spell (Tecendo o encantamento)
Funny clothes (Roupas engraçadas)
Tinkling bell (Retinindo o sino)


Entrou na tenda com o sol às suas costas. Formou uma grande sombra com uma aura iluminada em volta. Resmungou um prece leve e vestiu o avental. Olhou para o carrinho de material esterilizado e pegou os itens que precisava para trabalhar. Duas crianças tinham pisado numa mina terrestre. Uma das meninas tinha perdido as pernas e parte do lado direito do corpo. A outra, no impacto tinha caído sobre uma cerca de arame farpado e além das escoriações, tinha perdido alguns dedos. Não era difícil fazer a escolha de quem seria operada primeiro. A prioridade sempre era para os que tinham mais chances de sobreviver, mas Juan nunca pensava desse jeito, estabilizava um enquanto tentava salvar todos. Freqüentemente eram montadas macas de campanha lado a lado para que ele pudesse dar atenção e fazer a cirurgia em mais pessoas ao mesmo tempo. Zora estava estável apesar da perda dos dedos. Então optou por cuidar de Tahira. Puxou a sineta para avisar aos voluntários e ajudantes que estava pronto.



Never talking (Nunca conversando)
Just keeps walking (Apenas caminhando)
Spreading his magic (Espalhando sua magia)


O calor era infernal. A anestesia tinha que ser dividida. Ele calculou com cuidado a dosagem - estava sem anestesista há meses e só contava com voluntários familiares. Faltavam remédios, instrumentos e principalmente enfermeiros, instrumentadores e outros médicos. Era competente, mas era apenas um. Era cada vez mais freqüente perder o velho jogo médico x morte. Sentia-se frustrado pelas perdas, mas cada dia tentava focar mais e mais nas vitórias. Olhou o relógio e começou a reconstrução de músculos, tecidos e pele. A mãe de uma das meninas agradecia em silêncio a vontade férrea de Juan e assistia num canto da tenda a aura de magia em volta do jovem médico. Não tinha muitas esperanças, mas ergueu os olhos para a tenda e fez uma breve oração cherokee para seus antepassados. Pediu força, pediu proteção e principalmente pediu que conseguisse afastar o mal e conseguisse salvar aquela criança que estava mais necessitada.


Evil power (O poder do mal)
Disappears (Desaparece)
Demons Worry (Demônios se preocupam)
When the wizard is near (Quando o mago está próximo)


Tahira gemia e tremia de dor e febre enquanto Juan trabalhava em seu corpo. Retirava os estilhaços da bomba como pequenos pedaços de demônio na pele queimada e arruinada da menina. O suor escorria pelo seu rosto e empapava a camisa e o avental. Sentia-se no inferno puxando um cabo de guerra com o próprio diabo pela vida de uma criança. Trabalhava no corpo da jovem há mais de 4h e estava exausto. Mas não se permitiria descansar sem que a mesma estivesse estável e em segurança. Depois mais duas horas de trabalho duro, a jovem dormia placidamente e fora de perigo. Suspirou profundamente e agradeceu aos céus ante a pequena vitória. Saiu para conversar com os pais da menina.



He turns tears (Ele transforma lágrimas)
Into joy (Em alegria)
Every one's happy (Todo mundo fica feliz)
When the wizard walks by (Quando o mago caminha por perto)


Jogou o avental e as luvas ensanguentadas no cesto e saiu da tenda cobrindo os olhos do sol forte do fim da tarde. Estava faminto e exausto. Todos os seus músculos doíam. Esquadrinhou o local rapidamente e encontrou Iori e Zalika prostrados e rezando a seus deuses. Chamou-os e explicou sobre o estado de Tahira que inspirava cuidados mas ela estava fora de perigo. O sorriso finalmente apareceu em seus rostos e agora choravam lágrimas de felicidade. Abraçavam o médico sem parar. Iori falava rapidamente agradecendo e Zalika correu para sua choupana, voltando com um prato com Oxtail¹ e koeksisters². Ofereceu a comida fazendo uma reverência para aquele semideus que salvara sua filha.


Sun is shining (O sol está brilhando)
Clouds have gone by (As nuvens passaram)
All the people (Todas as pessoas)
Give a happy sigh (Dão um suspiro de felicidade)

He has passed by (Ele passou)
Giving his sign (Dando seu sinal)
Left all the people (Deixou todas as pessoas)
Feeling so fine (Se sentindo tão bem)

Sabia que aquela comida era um luxo reservado apenas para ocasiões especiais. Acenou com a cabeça e falou baixinho:
- Asante. Si jambo. Msichana kuishi³

Iori sorriu novamente e respondeu: 
- Daktari, sisi ni si wasiwasi. Tuna imani katika Wewe. Mungu akubariki na kuongozana na wewe.4



Never talking (Nunca conversando)
Just keeps walking (Apenas caminhando)
Spreading his magic (Espalhando sua magia)


Creditou toda vitória a seus antepassados  e deu-se o luxo de sorrir. Sentou no chão feliz, comendo com as mãos conforme o costume da aldeia.








¹ Oxtail - culinária africana - a famosa "rabada" brasileira.
² Koeksisters - culinária africana - uma espécie de bolinho de arroz
³ Asante. Si jambo. Msichana kuishi - Agradeço. Não se preocupem, a menina vai viver
4 Daktari, sisi ni si wasiwasi. Tuna imani katika Wewe. Mungu akubariki na kuongozana na wewe. - Não estamos preocupados, doutor. Confiamos em você. Deus o abençoe e acompanhe.


Esta é uma história de ficção. A única realidade é a existência dos Médicos sem Fronteiras. 
Eles são uma organização humanitária internacional independente e comprometida em levar ajuda às pessoas que mais precisam sem discriminação de raça, religião ou convicções políticas. Caso queiram saber mais, acessem o site para esclarecer suas dúvidas: http://www.msf.org.br/







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4 comentários:

  1. Surpreendeu, Sammoka. Sempre ouço essa música imaginando um mago medieval.
    Vc foi bem criativa em estabelecer esse paralelo com a medicina (e a religião). Como sempre, foi um texto bem "Sammy". ;)

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    1. Exato, Marcinha! Ouvi a música umas vinte vezes. Em todas eu pensava num mago medieval. E imaginei que assim como eu, todas as pessoas pensariam em algo medieval. Como evito cair no lugar comum, resolvi inovar. Na maioria das vezes, médicos se consideram quase deuses. E aí lembrei dos xamãs... Magos...Sacerdotes... Médicos. E saiu esse textinho ;-)

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  2. Gostei, bem bonito, mas fiquei com uma dúvida. A menina que ele salvou era a menina sem pernas e lado direito ou a dos dedos? O que aconteceu com a outra?

    beijos.

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    1. Eu jurava que tinha deixado claro que era a menina que estava mais machucada. Quando voltei e li, percebi que tinha ficado só na minha cabeça. Então acrescentei a frase que dizia que a cirurgia era da Tahira, a menina que tinha perdido as pernas...

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