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[RESENHA] Fim - Fernanda Torres by Sammy Freitas

Posted by Samantha Freitas on 3 de agosto de 2014 06:00 in , , , ,

Sinopse: O primeiro romance de Fernanda Torres, consolida sua transição para o universo das letras e mostra que nesse âmbito é uma artista tão completa quanto no palco ou diante das câmeras.
O livro focaliza a história de um grupo de cinco amigos cariocas. Eles rememoram as passagens marcantes de suas vidas: festas, casamentos, separações, manias, inibições, arrependimentos.
Álvaro vive sozinho, passa o tempo de médico em médico e não suporta a ex-mulher. Sílvio é um junkie que não larga os excessos de droga e sexo nem na velhice. Ribeiro é um rato de praia atlético que ganhou sobrevida sexual com o Viagra. Neto é o careta da turma, marido fiel até os últimos dias. E Ciro, o Don Juan invejado por todos - mas o primeiro a morrer, abatido por um câncer. 
São figuras muito diferentes, mas que partilham não apenas o fato de estar no extremo da vida, como também a limitação de horizontes. Sucesso na carreira, realização pessoal e serenidade estão fora de questão - ninguém parece ser capaz de colher, no fim das contas, mais do que um inventário de frustrações.
Ao redor deles pairam mulheres neuróticas, amargas, sedutoras, desencanadas, descartadas, conformadas. Paira também um padre em crise com a própria vocação e um séquito de tipos cariocas frutos da arguta capacidade de observação da autora.
Há graça, sexo, sol e praia nas páginas de Fim. Mas elas também são cheias de resignação e cobertas por uma tinta de melancolia. 
Humor sem superficialidade, lirismo sem cafonice, complexidade sem afetação, densidade sem chatice: de que mais precisa um romance para dizer a que veio?



Começar uma história pelos finais, é até relativamente comum... Chamamos de "prólogo" e contamos uma cena final para depois desenrolar a história. 

Mesmo assim, Fernanda Torres conseguiu fugir desse lugar-comum e ela não apenas se resume à cena final do livro. Ela começa a história, mostrando como cada um dos cinco amigos morreu - para depois deixar o morto contar sua história, suas frustrações, suas infelicidades e perdas. Não é apenas um "defunto-autor" como Brás Cubas de Machado de Assis. Sabe aquela história de "vi minha vida inteira passando na minha frente naqueles últimos instantes"? Pois é... ela fez isso. 

A história foca em 5 amigos (Álvaro,  Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro) e cada um é infeliz à sua maneira.  


A história começa com Álvaro. Eu o deteste. Mesmo com falas perfeitas, ele tinha um jeito cru de falar da vida. Nem com toda tristeza dele, achei que ele fosse digno de pena. Foi infeliz e fez sua família infeliz. Mas não posso negar a perfeição dos pensamentos: 

"A queda é a maior ameaça para o idoso. ‘Idoso’, palavra odienta. Pior, só ‘terceira idade’. A queda separa a velhice da senilidade extrema. O tombo destrói a cadeia que liga a cabeça aos pés. Adeus, corpo."

Mesmo não gostando dele, foi o personagem que mais me marcou, com as melhores tiradas. E mesmo sendo um chato, na minha opinião, foi o mais bem construído.

Depois veio Sílvio, a luxúria em pessoa. Zombava da vidinha comum dos amigos e fazia questão de ser o rebelde sem causa da turma...

Ribeiro me deixou nostálgica, um dos que eu mais gostei. Passou a vida vivendo com uma e amando outra que não poderia ter. Ele é o mais cheio de dúvidas e incertezas. Era infeliz porque ficou sempre no "e se?"

Neto era o mais certinho, manteve o casamento até o fim apesar de todos os percalços não conseguia viver sem sua mulher. 

E o Ciro, bonito, interessante, aquele que todos admiravam. Na minha humilde opinião o mais canalha. 

Apesar de ter profundas reflexões, o livro não tem uma história. Tem relatos de 5 homens diferentes, algumas vezes, relatos de pessoas próximas após a morte deles, mas senti falta da consistência de uma narrativa. Isso me deixou meio perdida.

Outra coisa que me incomodou muito na história foram montes e mais montes de frases feitas como "a razão de ser", "pernas bambeando", "coração palpitante" e "tiro de misericórdia" me deram muita vontade de rir - nessas horas, ela perdia toda a genialidade demonstrada um ou dois parágrafos antes e se tornava tão clichê como alguém que está começando agora a escrever.

Foi um bom livro, "apesar de" toda repetição (em um  momento, eu senti que estivesse lendo os evangelhos da bíblia, cada pessoa narrando um mesmo momento pela sua ótica!). Ainda assim, não queria dar só 3, mas ele também não merecia as 4 estrelinhas. Ganhou três por todas as tiradas geniais e em muitos momentos com uma narrativa num misto de madura e crua. Muitas vezes eu senti minha alma desnudada com as falas deles. 

Até recomendo - mas apenas para quem tem coragem de ver a vida como ela é e reconhecer em si mesmo todos os defeitos que cada personagem apresentou - tudo aquilo que escondemos dos outros.







Segue um vídeo da Fernandinha Torres lendo um trecho do livro:





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2 comentários:

  1. Sammy, querida. Ainda não li o livro, mas desejei desde o lançamento e já o tenho aqui.
    Por ser da Fernanda, boa no que se propõe a fazer, de berço forte e criada no meio criativo e inteligente, já gera uma expectativa positiva, né? Pra mim a razão maior é conhecer esse outro lado dela.
    Achei a sua resenha excelente, pontuando o que é importante e o que desagradou.
    Depois de ler comentarei com vc minha opinião.
    Beijooo!

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  2. Hum... tô fora desse. Primeiro que tenho preconceitos com autores nacionais (eu sei, eu sei, shame on me). Segundo que uma historia em que vc não pode se apegar aos personagens porque todo mundo morre? Fala seriooooooooooo. Curti não. Com certeza passo! Beijão!

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