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Humor: "O Agrônomo Suiço" - Fernando Sabino

Posted by Marcinha on 2 de agosto de 2013 06:00 in , ,
O poeta estava calmamente no bar, tomando um aperitivo, quando lhe telefonaram.
Quem o chamava ao telefone era eu. O poeta não tem telefone em casa e há dias que eu o vinha procurando: a menos que me tivesse enganado, ele sabia de um amigo seu que conhecia um agrônomo suíço, interessado em administrar fazendas. Ora, outro amigo meu, a quem dei conhecimento da existência desse suíço, me disse que estava precisando exatamente de uma pessoa assim. E me pediu que conseguisse maiores informações com o poeta.
No bar, àquela hora, fazia um barulho infernal.
O poeta veio ao telefone e mal conseguiu ouvir o meu nome.
- Quem?
- Eu, rapaz! Então não está conhecendo a minha voz?
- Eu quem?
Levou uns bons cinco minutos para descobrir com quem estava falando. Talvez já tivesse tomado mais de um aperitivo, é possível.
- Que houve? Aconteceu alguma coisa?
Eu mal conseguia escutá-lo e ele não me ouvia de todo.
- Você se lembra daquele agrônomo que um conhecido seu...
- Daquele o quê?
- Daquele AGRÔNOMO!
- Você está enganado, não conheço ninguém com esse nome.
- Eu nem falei ainda o nome dele! É um suíço.
- Luís?
- SUÍÇO! Você um dia me falou...
- Não conheço nenhum Luís. Eu estava pensando que você...
- Fale mais alto! Sua voz está sumindo.
- Não, estou por aí mesmo... Você é que anda sumido.
Respirei fundo e voltei à carga:
- Eu sei que você não conhece o suíço. Um conhecido seu é que conhece.
- Escuta, que brincadeira é essa? Eu estava aqui tomando o meu uísque...
- Desculpe incomodá-lo no bar, mas você não tem telefone em casa...
- Não tem importância. Só que está parecendo brincadeira. Entendi você falar num suíço...
- Isso!
- Isso? Ah, eu tinha entendido suíço, imagine.
- Pois é isso mesmo, quer dizer: é suíço mesmo. O homem está em cima de mim para arranjar...
- Que homem? Não estou entendendo nada, muito barulho aqui.
- Um amigo meu, você não conhece. Está precisando de um agrônomo para a fazenda dele.
- Fazendo o quê?
Perdi a paciência:
- Olha, telefona para minha casa amanhã de manhã, está bem?
Mas o poeta agora estava interessado:
- Não precisa se zangar! Aconteceu alguma coisa com você?
- Conversar com bêbado dá é nisso.
- Você está bêbado?
- Bêbado está você, essa é boa!
- Espera! Entendi direitinho você falar que estava bêbado. Deve ser o barulho. Espera um pouco.
Ouvi pelo fone sua voz para os que o rodeavam:
- Vocês aí, querem fazer o favor de falar um pouco mais baixo? Um amigo meu está em dificuldades, e eu não escuto nada.
De novo para mim:
- Alô! Pode falar agora que estou ouvindo perfeitamente. Você está precisando de alguma coisa?
- Estou: que você me telefone amanhã de manhã.
E desliguei.
No dia seguinte era ele quem me procurava:
- Você talvez não se lembre, mas ontem eu estava calmamente no bar, tomando um aperitivo, quando você me telefonou no maior pileque para me contar que estava sendo perseguido por um sujeito chamado Luís. Que você quis dizer com isso?
- Isso, não: suíço - arrematei.

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HUMOR: Negócio de Ocasião

Posted by Marcinha on 28 de junho de 2013 06:00 in , , , , ,

Negócio de Ocasião

(Fernando Sabino)

 

 


Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: às oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!
– Está bem, está bem - concordou ele, acalmando o vizinho: - Vou mandar começar mais tarde.
Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:
– Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!
– Mas é só por uns dias - argumentou ele: - O senhor vai ter paciência…
E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir de dez horas. Com isso pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar e desta vez furibundo, armado de revólver:
– Ou o senhor pára com esse barulho ou eu faço um estrago louco.
Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:
- Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias… Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?
– Trinta e dois.
– Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom… Que marca?
– Smith-Wesson.
– Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola.. . Quanto o senhor pagou por ele?
– Cinqüenta.
– Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?
– Não vim aqui para vender revólver- explodiu o outro – mas para lhe avisar que esse barulho…
– Não haverá mais barulho, esteja tranqüilo. Agora, quanto ao revólver… Quer vender?
- O senhor está brincando…
– Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou cem por ele. Sempre tive vontade. . . Vamos, aceite! Cem, ali na bucha, pago na hora.
O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: cem era um bom preço. Já pensara mesmo em vendê-lo… Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:
– Toma: é seu- decidiu-se.
Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro buscar o dinheiro e estendeu-o ao vizinho. Depois empunhou o revólver e chegou-lhe aos peitos:
– Bem, agora ponha-se daqui para fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.

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