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Resposta ao desafio da imagem da leitora Bianca Santana por Marcinha

Posted by Marcinha on 2 de junho de 2013 18:54 in , ,
Olá Retalhenses e leitores... Marcinha na área, garantindo o enfoque mais polêmico desse blog ou seu dinheiro de volta!

A leitora Bianca Santana desafiou as autoras deste blog com esta muito-bem-escolhida-imagem:



Duas retalhenses ja responderam ao desafio antes de mim, como pode ser conferido aqui: resposta da Nanda Cris e resposta da Samantha Freitas.

Sendo a terceira da fila, deixo com vocês minha versão... espero que todos gostem!

(Nota: Zan'thala foi inspirada no visual de Calypso, que aparece nos filmes da série "Piratas do Caribe")

...

O Lobo do Mar

Cansado, depois de horas de caminhada sem rumo pela cidade, Jack retornou àquele local. Fazia o mesmo todos os dias, desde que a tragédia se abatera sobre sua vida.
O velho lobo do mar olhou fixamente para a flor que trazia nas mãos. Sentado em um banco de madeira, sozinho, ele a observava. À sua volta, a geada que começava a cair implacável não o faria gelar até os ossos. Sua raiva borbulhava internamente de tal forma, que o aquecia.
Aquela flor vermelha, tropical, viçosa, ainda cheia de vida... era um insulto.
Desprendeu os olhos da flor que o esbofeteava e encarou o mar à sua frente. Cinzento e tempestuoso, o mar o encarou de volta, em desafio. A espuma branca do oceano revolto sob o vento cortante do inverno. O som das ondas. O que já fora música, era agora lamento para sua alma. Uma lágrima de ódio rolou-lhe pela face queimada do frio, perdendo-se na barba grisalha.
- Maldita seja. - praguejou ele.
Lembrava-se nitidamente do que acontecera, embora lhe parecesse que isso fora há uma eternidade. Mas nem se passara tanto tempo, fazia hoje exatamente um ano.
Um ano desde que seu navio aportara na costa da África, em pleno verão. Como o capitão da imensa embarcação pesqueira, ele achou por bem liberar seus marinheiros por dois dias, para que eles se divertissem uma pouco. A vida no mar podia ser dura para os homens mais jovens, sedentos pelos afagos de uma bela mulher.
Isso nunca fora preocupação para ele. O velho lobo do mar amava apenas seu navio e seu ofício, nada mais.
É claro que ele também se divertia com frequência. Mas era apenas isso. Nenhuma mulher jamais o prenderia, nenhuma se colocaria entre Jack "Wolf" Jones e a vida feliz que levava no mar.
Mas, como diz o ditado, "jamais é tempo demais".
Na costa da África, ele conheceu Zan'thala. Seu imediato a trouxe até ele e os apresentou. "Negra, macia e doce como a jaboticaba madura", lhe dissera seu sub capitão. O cão sarnento sabia exatamente o que estava fazendo.
- Bastardo. Amotinado. Maldito seja, Henry, para todo o sempre! - rugiu entredentes.
Jack e Zan'thala se divertiram intensamente naquela noite, e nas noites que se seguiram. O lobo do mar levara até os lençóis da negra uma paixão com a qual ela nunca sonhara. Em poucos dias estava cega de amor por ele. E foi aí que a coisa deixou de ficar divertida.
Zan'thala o cobriu de agrados e atenções, tentando seduzi-lo a viver em terra com ela. Jack se negou secamente. Repetiu seu característico discurso de que uma mulher jamais o afastaria do mar.
Esse foi seu grande erro.
A mulher ficara furiosa. Estava ferida, preterida, rejeitada e tinha uma expressão que beirava a loucura. Se Zan'thala fosse apenas uma mulher comum, não seria tanto problema; ela choraria, esbravejaria e se acalmaria por fim.
Mas era uma feiticeira aborígene.
- Eu te amaldiçoo. - sibilou ela, apontando um osso ritualístico para o peito dele - Eu te proíbo de estar no mar novamente. Seu amado oceano será pra ti dor e morte, como essa paixão que queima agora no meu peito!
Ao fim dessas palavras, os olhos dela brilharam em fogo por um breve momento, e Jack soube que sua vida jamais seria a mesma.
- Desfaça isso, bruxa! - gritou o capitão, avançando sobre a mulher, apenas em tempo de ouvir Henry chegando como um tubarão branco.
- Acabou, Jack! Acabou!
Um murro certeiro no queixo apagou o velho lobo instantaneamente.


Acordara no dia seguinte em um hospital, em Nova Iorque. Sua irmã fora buscá-lo de avião assim que soube de seu "súbito desmaio". Henry a avisara, e fora bastante prestativo em ajudá-la a retornar para a América levando o irmão inconsciente. Em seguida se tornou capitão do navio pesqueiro que por anos fora a vida de Jack.
Um ano depois, Henry lhe enviara aquela flor para lhe lembrar a data. Também escrevera um bilhete.
"Estão florescendo por toda a Costa aqui na África, neste calor agradável. Esta é a maior virtude de viver no mar, a liberdade de ir ao encontro de outros climas, novas terras... Mas você não sabe o que é isso há um ano, não é? Uma pena, realmente. Bem, então... aproveite a neve!
Ass: Capitão Herny Nicholson"

- Maldito... amotinado! - esbravejou Jack.


Não podia mais aguentar. Um ano fora do mar já fora demais pra ele. Não aguentaria mais tempo.
A maldição era real, bem real. Sentira seus efeitos assustadores todas as vezes que tentara enfrentá-la. Mas agora não importava mais. Nada importava.
Levantou-se do banco com o fôlego renovado. Olhou para a flor tropical pela última vez e a esmagou entre os dedos. Deixou-a cair com desprezo.
Olhou o mar bravio a sua frente, revolto sob a geada contínua. Caminhou a passos firmes. Vestido como estava, Jack entrou no mar.
A água devia estar gélida, mas ele não sentiu. Um calor intenso se apoderou dele, como das outras vezes. Continuou caminhando, cada vez mais para o fundo.
Agora sua pele ardia, estava vermelha como se o mar fosse ácido. Sentia por dentro seus órgãos queimarem, como se lava borbulhasse em seu estômago. A cabeça latejava como se fosse explodir. Passou as mãos pela testa, ele ardia em febre. A sensação de queimação continuava a se espalhar por todo o corpo, como se seu sangue fervesse nas veias. Sentia uma dor aguda nos ossos, como se carbonizassem.
"Seu amado oceano será pra ti dor e morte, como essa paixão que queima agora no meu peito." - ela dissera.
Sentindo-se sufocado pela fervura na garganta, ele não conseguia mais respirar. A dor era insuportável a esta altura, como se estivesse imerso em uma caldeira. Com um último suspiro, ele afundou a cabeça, desaparecendo no mar que tanto amava.


Três dias depois o cadáver de Jack foi encontrado, deformado pela água e obviamente semi-congelado depois de 72 horas de temperaturas baixíssimas. A polícia divulgou a causa-mortis de Jack N. Jones como hipotermia. Não poderiam estar mais longe da verdade.


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