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[Nossos Textos] A louça-mãe - by Sammy Freitas

Posted by Samantha Freitas on 13 de dezembro de 2013 10:27 in , , ,



Eu tenho uma teoria sobre a louça suja. Por mais que você lave a louça toda e more com apenas uma pessoa, cinco minutos depois, haverá um copo, ou talher ou mesmo um pratinho dentro da pia. Ninguém admite que o usou, ninguém admite que o colocou para lavar. Ele simplesmente brotou ali. E partindo deste princípio, resolvi bater um papo sobre a louça suja.

É engraçado falar sobre isso, porque na verdade, não conheço uma pessoa sequer que ame fazer tarefas domésticas. Claro que existem pessoas que preferem uma tarefa à outra. Mas gostar, gostar mesmo? Nunca vi. 

Nunca vi ninguém dizendo: "Estou estressada e vou relaxar lavando a louça." 

Ok. Preciso admitir que tem muita gente louca por aí. E pode ser que exista alguma alma maníaca por limpeza com um TOC terrível e por isso largue qualquer coisa que está fazendo para passar um momento feliz entre pratos, talheres, esponjas e detergentes.  

Eu sou uma pessoa extremamente meticulosa. Não vou dizer que adoro lavar a louça, mas é uma tarefa necessária, infelizmente e se é para fazer, que seja feito direito. 

Para falar a verdade, lavar a louça tem toda uma ciência por trás do simples ato de ensaboar e enxaguar. Não basta passar esponja e sabão em tudo. Tem todo um ritual minucioso de separação dos itens (quando a pia está muito cheia), colocar outros tantos de molho, enxugar quaisquer outros que estejam no escorredor para deixar a pia pronta para a lavagem.

Boas mesmo eram as pias de antigamente. Duas cubas! Uma para lavar e a outra para enxaguar. Devo dizer que nunca tive isso na minha casa, mas na casa de vovó, tinham duas cubas. Nós nos dividíamos e a tarefa por vezes se tornava até mesmo divertida - quando em conjunto com as primas.

Almoço de sábado, todos os tios e primos se encontravam em casa de vovó. Muita comida, muita gente, muitos e muitos pratos para lavar depois.

E aí, depois que os mais jovens lavavam a louça com o cuidado de manter incólume todos o aparelho de jantar do casamento de vovó, a pia ficava linda, brilhando e muito limpinha. Os mais velhos se espalhavam na varanda ocupando as redes, almofadas no chão, sofás para tirar o cochilo habitual enquanto eu e meus primos nos divertíamos correndo entre as goiabeiras.

E aí, é que a coisa começava a ficar esquisita. Todos nós - tios, tias, primos e primas tínhamos sido ensinados a sempre lavar o que usávamos. Um de nós, sentia sede e ia à cozinha buscar água... E quando passávamos pela pia, um ou dos copos sobre ela. A casa permanecia silenciosa. Pais, mães, tios e tias, todos cochilando e nós, as crianças, estávamos todas juntas. E aí surgiu o primeiro grande mistério da minha vida: Como diabos aquele copo sujo foi parar ali dentro. 

Traçávamos um perfil e imaginávamos com nossos botões se não haveria algo de sobrenatural sobre a louça que misteriosamente "nascia" na pia.

Claro que eu e duas primas resolvemos investigar. Fãs da "Inspetora" - série de livros que Ganymedes José escrevia para crianças e adolescentes, sempre esperávamos um mistério para resolver.

Não era nenhum roubo, sumiço ou assassinato, mas era o mais perto que podíamos chegar de sermos detetives.

Lavamos os dois copos em silêncio e em seguida nos distanciamos à espera que acontecesse novamente.

Gazi e Vaninha ficaram na área de serviço, cuja janela poderia servir de ponto de observação da cozinha. E eu? Bem, fiquei no banheiro, ao lado da cozinha, esperando alguém passar.

Os minutos foram passando e como boas crianças, estávamos impacientes antes mesmo que o ponteiro do relógio andasse por dez minutos. Saí do banheiro, busquei uma revistinha em quadrinhos e sentei na soleira da porta da cozinha para o corredor com a geladeira atrás de mim, tampando qualquer visão da pia. Minhas primas jogavam uno em silêncio sentadas na escada da área de serviço.

Foi quando senti sede e levantei. E dei de cara com uma colher e um pratinho dentro da pia. 

- COMO ASSIM? - espantei-me...  

As meninas enfiaram a cara na janela e ficamos todas culpando umas às outras porque ninguém tinha visto nada. Belas campers que tínhamos nos saído. 

Lavamos novamente o pratinho e a colher e nos postamos novamente esperando que o bandido da louça suja colocasse suas garrinhas de fora. Inspecionamos cuidadosamente a casa e todos pareciam continuar cochilando. 

Passados mais alguns minutos um chamado no portão. Uma vizinha amiga nossa trazia vários papéis de carta para trocar. Saímos em alvoroço e depois de alguns minutos discutindo qual valeria a pena pela troca de um "Amar é" da coleção, finalmente concluímos a troca.

E ao voltarmos à cozinha.... Nada menos que 4 copos. Agora eu fiquei possessa. Será que os adultos esperavam que saíssemos dali para colocar a louça furtivamente?

Desanimadas, vimos os tios se levantando, pegando seus filhos e se despedindo. Restaram na casa apenas as duas tias que moravam ali, vovó e vovô e eu e minha irmã que passávamos férias. Aliás, nem minha irmã, que saiu toda serelepe com as primas.

Não era hoje que o mistério seria desfeito.

Vovó me chamou para ajudar a picar os legumes para o jantar e minha tia mais velha foi fazer a polenta - comida presente em todos os nossos pratos.

Terminada a minha tarefa, puxei um banco e comecei a conversar com a titia sobre coisas banais. Até que vovô passou, pegou um copo de água na geladeira e pôs sobre a pia. Passou para a sala. Alguns minutos depois, voltou com outro copo e o colocou dentro da pia.

Abri e fechei a boca duas vezes. Estava solucionado o primeiro grande mistério da minha vida. Não existe uma louça-mãe que se reproduz...





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4 comentários:

  1. Crônica maneira, Sammy! Muito interessante a postura das crianças, envolvidas em seu mistério.. é um perspectiva única da vida, essa da infância.
    E... eu lavo louça separando as peças por tipo... quer dizer que sou uma pessoa da antiga?? oO rss...

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  2. Olá!!!, Deus seja contigo, tenha um final de semana abençoado,
    amiga texto maravilhoso amei SUCESSO AMIGA.
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br/
    Canal de youtube: http://www.youtube.com/NekitaReis

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  3. Minha louça-mãe tem filhas gêmeas de meia em meia hora!!! kkkkk
    Adorei a crônica Sammy. Muito leve e que carrega toda uma tradição da família brasileira: os almoços com todos aqueles parentes que não vemos há anos!
    Marcinha...eu também lavo a louça por peças...talheres, pratos, copos e por fim as malditas panelas!

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  4. vovô trakinas esse hem?
    Affs.
    homens... todos iguais. me pergunto se lavar um copo faz cair a mão. ou se eles acham que tem elfos domésticos em casa.

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