Mostrando postagens com marcador cronicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cronicas. Mostrar todas as postagens
2

Situações de emergência - by SammyFreitas [crônica]

Posted by Aptos on 30 de abril de 2015 06:00 in , , , ,
Situações de emergência


Kalleen dá entrada no hospital cheia de dor e com um inchaço e vermelhidão nas costas. Por achar ser algo simples, veste chinelo, camiseta e uma bermuda velha de pano. Antes tivesse ouvido sua mãe: “Sempre esteja arrumada, use roupas melhorzinhas se for à rua mesmo que seja só para comprar pão.” Não levava a sério e ria, dizendo que não ia acontecer. E a mãe, com sua doçura natural dizia: “Um dia, acontecerá uma emergência e você pode estar de calcinha furada!” Sempre desdenhou... Maldição de mãe pega!

- A senhora terá que ficar internada. – o médico foi categórico.
- Como é? Mas não estou vestida!
Foi submetida por um olhar inquisidor do médico que mirou-a de alto a baixo.
- Sem roupas? Para mim, parece que a senhora está vestida. Ou não enxergo bem ou a senhora fez uma combinação estranha de blusa cinza com bermuda rosa?

------------ * * * ------------

Sempre que acontece a troca de plantão, as coisas sempre se tornam um pouco confusas. Kalleen, gemeu e reclamou....
- Enfermeira, estou sentindo muita dor e frio...
- Só um instante que já volto....

Passadas 2 horas, ela percebeu que a equipe do plantão havia mudado... por isso continuava abandonada...


Por fim, revoltada, Kalleen levanta num ímpeto e corre até a recepção com uma enfermeira nova em seu encalço. E lá, reclama pela demora na internação...

- Cheguei a esse hospital de manhã, já são nove da noite! São pelo menos 6h sentindo dor – revela aos gritos e tremendo muito.

Após o piti, rapidamente foi conduzida de volta ao leito da emergência onde lhe foi administrado remédio para dor e um cobertor trazido. Ao perceberem que a temperatura de seu corpo estava elevada, um termômetro informa que a febre passava de 39ºC. As enfermeiras cochichavam:

- Coitadinha, estava delirando...

Apesar do cansaço e da dor, mentalmente Kalleen sorria: “Ahhhh... O poder de virar a baiana...”

------------ * * * ------------

Internação:

Segundo Dia:

Visita do filho amado que chega justamente na hora do almoço. Ele olha os talheres não resiste à curiosidade:
- Mamãe, por que os talheres são de plástico?
- Porque aqui, Will, é igual à prisão. Eles têm medo de uma rebelião de faquinhas de plástico ou quem sabe que a gente use a mão puncionada para cavar um túnel com essa colherzinha...


Terceiro dia:

Já estava há dias quase sem sinal no celular e com abstinência de internet... Mas nada se comparava ao desespero quando percebeu que já era domingo...

- Doutor, eu vou sair hoje?
- De jeito nenhum! É uma infecção grave, importante e precisaremos pelo menos de 7 dias de antibiótico para que ele faça o efeito desejado.

Ela arregala os olhos e grita:

- 7 DIAS? 7 DIAS? MEUS DEUSES! VOU PERDER GAME OF THRONES HOJE!





Quarto dia:

Familiarizada com a rotina e conhecendo quase todos os técnicos e equipes dos plantões, sempre se mantinha sorridente e simpática, conquistando o carinho de todos. Até que um novato gigante, no estilo de John Coffey* entra no quarto e diz sucintamente:

- Banho?

Um pouco intimidada com seu tamanho, ela vai ao banheiro. Escuta a porta do quarto se fechar e resolve vestir-se no quarto, já que o banheiro estava encharcado.

Ao notar o ar condicionado desligado, cedeu pontos a “John” - já que ela saía de um banho escaldante. Até se deparar com a janela escancarada que expunha seu corpo nu aos operários da obra em frente ao hospital. Estes assobiaram cantadas impublicáveis, mas mesmo assim, teve presença de espírito de fechar a janela rapidamente. Um pouco mais aliviada, olhou ao redor e sentiu falta de algo. Arregalou os olhos quando viu a cama. Onde estava seu travesseiro rechonchudinho? Aquele que tinha escambeado por três gelatinas  e um mingau!

Procurou a campainha de emergência e Coffey retorna...
- Oi... você sabe onde está meu travesseiro gordinho?

Ele tentou argumentar, mas não tinha muitas palavras:
- Tirei para arrumar a cama coloquei aqui do lado... Tem outro aqui...

E mostrou um esquálido travesseiro da Etiópia completamente diferente do seu obeso americano.

Ela sabia que no hospital, as pessoas perdiam toda essa noção de pessoalidade. E se desviarem os olhos por um instante que fosse, perdiam tudo aquilo conquistado a duras penas.

Dessa vez recusou perder sua dignidade, chamou a enfermeira chefe, mas ao invés de um segundo piti, lágrimas de frustração jorraram de seus olhos. Rapidamente não veio apenas um, mas dois gordinhos para que pudesse dormir em paz. 

Nunca subestimem o poder de uma lágrima...



*John Coffey, Green Mile – A espera de um milagre


Quinto dia:

Já conformada com a internação, sua única preocupação era dormir bem... Acordando de hora em hora e tendo pesadelos recorrentes, sua pressão começava a subir. Em meio aos delírios da febre gemeu:

- O leão... leão... o leãooooo

Entre as enfermeiras corria uma aposta... Seriam os dez anos do Rei Leão? Aslan, o leão de Nárnia?

Até que ela esclareceu:

- Não, não... Está quase findando o prazo de entrega de declaração do IR e estou presa aqui... Vocês sabem quanto é a multa? Cento e sessenta e cinco reais! Muito mais do que tenho a receber!

É... Lá vem o Leão tirando o sono até de quem está doente...




Sexto dia:

Seu sobrinho de 5 anos, Edward, foi visitá-la. Seu nome, uma homenagem ao primeiro grande sucesso de Johny Depp, Edward Mãos de Tesoura, certamente não é um nome muito comum no Brasil.
Mesmo assim, ao chegar no quarto, o crachá continha seu nome singularmente abrasileirado: EDORDI





Sétimo dia:

Por volta de 4:20 a.m. a medicação termina e ganha o direito de ter duas mãos livres para dormir para o lado que melhor lhe aprouvesse.

Virava de bruços, para a direita e esquerda, com tantas opções que sequer conseguia decidir a melhor maneira de se esticar. Até que seu braço esbarrou no controle da cama que caiu entre a grade e o colchão.

Foi o suficiente para que ele fosse pressionado e começasse a subir a cama sem parar. Sentou rapidamente, buscando o controle da situação, quando percebeu que não tinha alternativa...

Com seus pezinhos balançando, lembrou-se das aulas de parkour e com a graciosidade de um elefante, saltou.

Resgatou o aparelho, reduziu a cama para o tamanho ideal e ao invés de voltar para cama e usufruir de sua liberdade, sentou-se no sofá para escrever esta crônica...







|
Gostou?
0

A Justiceira do Ônibus [crônicas] by SammyFreitas

Posted by Aptos on 18 de fevereiro de 2015 06:00 in , , , , , , , , ,


Ela sempre quis ser personagem de uma crônica. Desde os tempos de "Para gostar de ler" quando se apaixonou por "O assalto" de Carlos Drumond de Andrade... Por isso, vivia se metendo nas situações mais improváveis, na esperança de alguém torná-la uma personagem.

Contava histórias e mais histórias para os seus amigos, torcendo para que algum deles se tornasse jornalista e ela pudesse um dia abrir o jornal, ler uma crônica e sorrir por saber que a pessoa ali retratada era ela mesma. Os anos se passaram e ela já tinha desistido de ser inspiração de personagens. Mas já dizia o Joseph Climber... A vida... A vida é uma caixinha de surpresas. 

E o dia começou todo errado. Aline estava zangada. Zangada não. Zangada é pouco. Ela estava mesmo era muito puta. Tinha se estressado no trabalho, quase não conseguia sair para almoçar e quando finalemnte conseguiu, seu restaurante usual tinha apenas restos no buffet. Teve que se contentar com o subway, mas é claro... Neste dia, faltava seu pão favorito: provolone. 

"Tem dias que é melhor a gente nem sair da cama." Pensava nisso quando voltou para o segundo turno. Irritou-se com mais algumas pequenas situações e saiu do trabalho aliviada pelo dia finalmente ter terminado.

Ao chegar no ponto do ônibus, entrou na fila usual, ao menos isso seria um alívio, era a terceira pessoa da fila e poderia se sentar no seu banco favorito. É... aquele mesmo que também é favorito das crianças... Aquele banco alto sobre a roda e estando tão na frente da fila, provavelmente conseguiria até mesmo sentar-se à janela.

E foi então que uma mulher veio andando pela rua e subiu no ônibus... Sem respeitar a fila, sem nem mesmo esperar que o motorista liberasse a entrada para as pessoas subirem. 

Aline bufou. Normalmente era uma pessoa totalmente ligada à paz, mantinha-se zen, praticava meditação e ainda por cima tinha um 'otária' invisível tatuado na testa, o que fazia com que ela permitisse qualquer coisa que fizessem à ela.

Algumas pessoas começaram a se agitar com a mocinha que havia entrado na frente, reclamando do absurdo da situação. Por si mesma, dificilmente brigaria mas pensou chateada que provavelmente alguém da fila, perderia seu lugar.

Respirou fundo, mas não foi suficiente para diminuir sua revolta. E naquele momento, entre uma inspiração e outra, foi que ela decidiu que hoje, ela rodaria a baiana e faria seu primeiro barraco. Finalmente descontaria toda a sua frustração do dia em alguém...

Ao chegar sua vez de entrar no ônibus, dirigiu-se imediatamente à guria. Fez sua cara mais ameaçadora e inquiriu:
- Porque você não entrou na fila como todo mundo que está lá fora? 

A moça, sentiu-se ameaçada, mas logo se defendeu:
- Nem sabia que tinha fila!

Foi como se soltasse uma fera dentro de si. Aline começou a falar mais alto, chamando a atenção dos outros passageiros:

- Ah... então você também não enxerga? Uma fila daquele tamanho lá fora e você entra sem nem ao menos se preocupar com as pessoas que estão no sol, aguardando sua vez de entrar. 

A guria, ainda mais intimidada perguntou:
- O que você quer que eu faça? Já entrei, já sentei. Fim...

Aline não aceitou a resposta:
- Eu quero que você levante A-GO-RA e espere todos que estão na fila entrarem e se acomodarem. Assim, você aprende a entrar na fila como todo mundo.

Ao observar a cena, as pessoas começaram a cochichar no ônibus. Algumas, agradecendo por alguém tomar coragem de defender a todos, já outros, cansados demais para tomar partido, mantinham-se alheios à situação.

A mocinha levantou rapidamente, assustada com o tom empregado. Até que num súbito ato de coragem, resolveu dizer apenas quatro palavras que pregariam os últimos pregos no seu caixão:
- Vem me tirar daqui....

Aline nem conversou. Arrancou a bolsa e os cadernos do colo da menina, jogou para fora do ônibus. Atônita, a guria levantou e gritou:
- Minhas coisas!

Aline deu um sorriso indolente e disse: 
- Vá buscar, queridinha... assim você entra no final da fila e tudo ficará bem...

A menina levantou, pronta a tomar alguma atitude. Mas ao perceber os olhares à sua volta e sentindo-se intimidada, preferiu não reagir. Desceu do ônibus e resolveu ficar na calçada, esperando o próximo.

Passados alguns dias e já esquecida do ocorrido, Aline voltava para casa quando viu a manchete do Meia Hora. Arregalou os olhos e sorriu satisfeita por finalmente estar na mídia!









|
Gostou?
0

Margarinas, café da manhã e felicidade [crônicas] by SammyFreitas

Posted by Aptos on 29 de janeiro de 2015 11:41 in , , , , , ,


Pois é... Admito... sou uma pessoal sensível. Sou daquelas que chora até em comercial de margarina. Mas também sou do tipo que consegue analisar uma situação racionalmente - principalmente se estiver sob pressão ou numa situação de risco. Às vezes me permito analisar até uma situação que normalmente eu ficaria comovida. 

E aí volto ao comercial de margarina. Como assim todo mundo feliz na mesa? A galera toda sorrindo... o pão quentinho, café fresco, suco de laranja, aquela mesa farta, o pai de paletó, a mãe de avental florido, as crianças felizes e coradas, o cãozinho saltando tentando a sorte com um pedaço de pão, tudo muito bacana, comovente, e ainda botam aquela música para trazer lágrimas aos olhos. Tudo praticamente o paraíso de gordura vegetal hidrogenada!

Margarina é um arremedo de manteiga, é igual a denorex! Parece, mas não é! E aí a margarina se torna o milagre da indústria alimentícia recriado na ficção do comercial bacana.

Suco de laranja? Sejamos honestos... Quem acordou às cinco da manhã pra espremer laranjas pro café? No máximo usou um suco de caixinha!

Pão quentinho? Sério que tenho que ir à padaria cedinho para comprar e ainda voltar a tempo de tomar café e sair para trabalhar?

E agora me responda.... Que criança está tão feliz que quer ir pra aula às sete da manhã, e sorrir olhando o sol nascer pela janela?

Fica pior ainda de explicar se aparecer do nada ovos mexidos e croissant! Fala sério, se eu não tenho um elfo doméstico, eu tenho no mínimo um cozinheiro que acorda as quatro da madrugada e prepara aquilo tudo!

O apelo da felicidade determinado pelo consumo da gordura vegetal cremosa e com sódio!

- Gui!
- Hum...
- Eu já não falei pra gente tomar café da manhã na mesa - como pessoas civilizadas?
- Pow, mãe! Quero ver o desenho!
- Humpf! TV! Pessoas normais conversam pela manhã! Aproveitam o momento!
- Eu nem acordei ainda, como é que eu vou conversar?
- Gui!
- Hum...
- Garoto!!! Toma cuidado! Tá caindo cair farelo de pão no sofá!
- Fica de boa, mãe! Eu deixo a Katniss comer o farelo e ela limpa o sofá!
- O sofá não é tigela de ração, Gui! E ela é uma gata! Gatos não comem farelos!
- Você reclama de tudo, mamãe!!! 
- Filhote, eu preparei o café e deixei tudo servido na mesa, não preparei o sofá e a TV!
- Eu sei, eu sei! Mas tudo que tinha na mesa eu levei pro sofá!
- Menos eu!
- Tem lugar para você aqui também!
- Eu não quero tomar café acomodada no sofá vendo TV, eu quero sentar a mesa pra fazer a refeição!
- Olha só, eu tomo só uma caneca de leite e uma fatia de pão com geléia, não preciso da mesa!
- Você prefere eu ou o sofá com a TV?
- Mamãe, eu te amo, mas...






|
Gostou?
0

Minha filha é assassina... [crônicas] by SammyFreitas

Posted by Aptos on 23 de janeiro de 2015 22:29 in , , , ,


Minha filha é assassina


Minha filha é assassina. 
Fechei os olhos e tentei lidar com a afirmação. 

Minha filha é assassina. Calculista. E fria. 
Isso me doeu ainda mais.

Ouvir isso de um filho deve doer. Ouvir de outras pessoas ou pior... Alguém bater à sua porta e te acusar ser mãe de uma assassina... 

Talvez o pior de tudo, seja você descobrir sozinha como eu descobri.

Todo meu conhecimento em gramática, me lembrou logo do tempo verbal... Era o crime mais-que-perfeito. Não fosse minha capacidade de observação, o assassinato teria passado despercebido. Lamentei muito encontrar provas.

E no fundo... eu a conhecia bem demais. Só podia ter sido ela.

Minha filha é assassina. Ela MATOU. 
Ela assassinou friamente outra criatura viva...

E a verdade, é que eu realmente não sabia como lidar com isso. 

Fui até a cama dela e meu olhar pousou sobre seu rosto sereno. Parecia sonhar com alguma coisa especialmente boa, pois sorria de leve.

Meu olhar ficou terno e sentei na beirada da cama. Fiz carinho de leve no seu rosto e não pude deixar de escapar um soluço. 

Comecei a lembrar de tudo... Já tinha notado certo comportamento agressivo e furtivo. Falta de comunicação onde antes estávamos sempre juntas. Cheguei a cogitar uso de algum tipo de erva.

E ultimamente, quando eu chegava em casa, ela me ignorava solenemente quando eu a cumprimentava. Nem mesmo levantava seus olhos de seus cuidados diários com a pele e unhas. 

Atribuí esse comportamento esquivo à entrada na adolescência. Ela também parecia mais magra. E todas as vezes que eu sugeria que comesse mais ou oferecia lanches extras, ela me olhava de cara feia e eu me perguntava se sua preocupação era somente com sua aparência..

Minha filha é assassina...

E possivelmente canibal...

Estremeci diante da última afirmação. 

Enfiei a mão no bolso e peguei a prova cabal de que minha filha era assassina....

Resgatei as peninhas de rolinhas no bolso e olhei os bigodes de Jujuba e resgatei mais uma pequena pena.

Minha filha era assassina de rolinhas.

Mesmo que eu encontrasse alguns vestígios do assassinato em seu corpo...

Mesmo sabendo de seu instinto caçador. 

Ela sempre seria minha filha e minha princesa. 


















|
Gostou?
4

Em uma hora, os 7 pecados capitais desfilaram na minha frente... by SammyFreitas [crônica]

Quem me conhece bem sabe que se tem duas coisas que prezo muito no meu caráter, é o senso de justiça e honestidade. Junte isso ao fato de amar meus livros e ficar puta quando tentam passar por cima dos meus direitos... Aí meu amigo, deixo de ser uma pessoa cordata e me torno uma leoa rugidora. 

Todos os meus grandes amigos sabem que não precisa muito para me agradar. Um sorriso, um abraço, uma carta... Mesmo assim, não há nada como ganhar um livro. E saber que os amigos se preocuparam, perguntaram e fuxicaram meu face para saber o que tenho ou não, tentando evitar me presentear com um livro que eu já tenha. Acho lindo esse cuidado. 

Ainda assim, é fácil dois amigos me presentearem com o mesmo livro. Para evitar mal estar, não vou dizer qual o livro foi, assim, também preservo a identidade dos amigos que não ficarão chateados em saber que houve um estresse envolvendo um presente tão amado. 

Ganhei dois. Um... embrulhado com papel da Saraiva, porém sem o adesivo na bundinha do livro. O outro, embrulhado em papel da Nobel. O mais lógico seria ir à Saraiva. Uma livraria que é um mundo de felicidade para mim. Duas megastore tão pertinho! Uma no Barrashopping e a outra no Village Mall. Mas.... o diabo me tentou. E tendo eu uma Nobel no Downtown, mesmo sabendo ser uma livraria menor e com preços menos competitivos, o diabinho soprou no meu ouvido: "Vá na Nobel! Resolve tudo na hora do almoço e nem precisa descer no Barrashopping..."

Pois bem... cedi ao impulso, me vi caminhando para a Nobel já pensando em qual livro pegaria na troca...

Ao chegar na livraria, o vendedor, estava atendendo a um casal, com 4 ou 6 livros, valor superior a R$ 170. Ele me perguntou se podia ajudar. Naturalmente expliquei rapidamente a história, enquanto ele registrava os livros do casal:

"Ganhei dois livros repetidos, e estava querendo trocar um. Se algum dos livros que eu quiser for mais caro, não tenho problemas em pagar a diferença"

Nesse momento ele amarrou a cara. Passou a se dedicar exclusivamente ao cliente e disse: 

"Não trocamos livros pois somos uma franquia e não uma rede."

E eu até tentei argumentar: 

"Mas qual o sentido da franquia ser interligada se não temos o mesmo serviço e funcionamento em todas...."

Ele foi extremamente afetado. E em seguida, escroto. Palavras feias e preconceituosas, eu sei. Mesmo assim, mantive minha dignidade. Virei para o cliente e disse: "Cuidado, você está comprando esses livros, se precisar trocar, vai ter o mesmo problema..."

O vendedor praticamente espumou. Pegou o livro, consultou no sistema e disse que não tinham parceria com aquela editora. Só de passar os olhos em volta, achei uns 4 livros da mesma editora. Pedi então se ele poderia me dar uma carta informando que como franquia, a loja não efetuava trocas de outra loja. Ele também se recusou. E por último, pedi que ele chamasse a gerente... A resposta foi hors-concour: "Não vou trocar, não vou dar a carta e também não vou chamar a gerente"

Dessa vez, precisei mesmo de muita paciência para conter toda a minha irritação. Pensei que talvez, eu poderia vencê-lo pelo cansaço. Insisti que o livro era um lançamento e que ele poderia colocar ao lado dos títulos parecidos que eu DUVIDAVA que ele não vendesse dentro do mês.

Ele não ouvia. Estava tão preocupado em manter os antolhos no lugar que estava se lixando para a maneira como estava atendendo ao cliente. Olhei em volta, manjei todo o lugar e comecei as implicâncias quando um rapaz trouxe um MIOJO para pagar no caixa da livraria... Um miojo, eu juro! Dentro da Nobel, pois é...

E aí, destilei meu veneno...
Abro aqui um parêntese, para dizer que o diabinho no ombro, estava super feliz porque eu já tinha cedido a 3 dos pecados capitais e pelo andar da carruagem, passaria por todos! Tinha a PREGUIÇA em ir à Saraiva, IRA pelo tratamento e agora SOBERBA/ORGULHO...

"Vocês possuem alvará para vender MIOJO aqui?"

A essa altura, a dona da livraria já tinha vindo. Foi educada e gentil, explicou o posicionamento da rede franqueada e informou que faria a carta para que eu pudesse reclamar junto à matriz em SP. Não estava muito convencida, mas relativamente conformada. Então, por uma questão de honra, encasquetei que não sairia de lá, sem trocar o livro. 

Esperei o vendedor entrar e continuei conversando com a sócia-gerente. E fiz o que pude para tentar convencê-la, usando dos argumentos mais baixos... 

"A vigilância sanitária já vistoriou sua barraca de tapioca? Ela pode ser colocada dentro da livraria?" (eu dizia isso, mas cobiço demais aquelas tapiocas (INVEJA)! Já comi várias vezes e acho uma delícia! GULA!)

Diante de todos os 'excelentes' argumentos apresentados e um papo rolando sobre os títulos similares, por fim ela topou trocar, não sem antes avisar o valor - menor do que o que eu imaginava, mesmo assim, parti em busca de outros títulos. TODOS os livros da Nobel Downtown coincidentemente custavam mais do que a troca. Tudo bem... contei as moedinhas (AVAREZA) e optei pela troca por um dos mais baratos e que eu sabia estar na lista de desejados.

Nesse meio tempo, o vendedor voltou com a carta. E arregalou os olhos quando viu que a gerente abria uma exceção e trocava o livro para mim. Exclamou para ela: 

"Você vai TROCAR o livro?"

Quase deu um ataque de piti. Eu, ironicamente declarei:

"Não se preocupe, usarei a carta para reclamar em SP e dizer o quanto vocês foram gentis e atenciosos efetuando a troca, pena que você faltou com a verdade comigo"

O vendedor ficou pálido. Esticou o braço para frente fazendo um gesto de pare. E fez a atitude mais infantil e inesperada para um vendedor. Disse:

"Você está disse que estou mentindo... Está me chamando de mentiroso... Depois dessa, parei contigo e vou até lá para dentro"

Cara, tinha séculos que não via um homem dando um piti tão besta... A gerente se desculpou e eu tive que dizer a ela:

"Posso voltar a comprar aqui num futuro distante, mas eu NUNCA mais compro com o seu vendedor."

Meu diabinho mexeu as mãos satisfeito e eu saí dali abrindo a sacola... Abracei o livro com LUXÚRIA e cheirei as páginas de mais um livro novo...









|
Gostou?
3

A Louca dos Tupperwares by SammyFreitas [crônica]

Posted by Aptos on 4 de janeiro de 2015 11:41 in , , ,


Todo mundo tem uma relíquia de família. Seja um aparelho de jantar de porcelana inglesa, jogo de chá de porcelana portuguesa ou mesmo um faqueiro de prata alemão Wolff. 

Mas... minha família tinha origens mais humildes, ainda assim, pude herdar um item de família. Nada menos do que uma JARRA DE SUCOS DA TUPPERWARE.

Ok.... Não ria... Tupperware tem um nome diferente, uma pronúncia mais engraçada ainda. Dificilmente as pessoas acertam o nome de primeira. Mas eu vou te ajudar... tenta comigo: TÁ-PÊU-ÉR - viu... não doeu! E quanto mais você repete, mais fácil vai ficando. Tenta só não dobrar a língua no final, tentando americanizar o nome. Você não vai acertar o tom certo e vai parecer americano falando RRRioww de Jannêeiiirowww!

Mas voltemos às relíquias... Namorei aquela jarra da vovó durante toda a minha infância. Ansiava visitá-la só para tomar um suco de maracujá de verdade, geladinho naquela jarra de policarbonato em uma época que imperavam jarras de vidro. 

A Tupperware é cara. Cara com vontade, por isso, ter um item desses na família, conferia status! Colocar a jarra com aparência futurística e tampa que realmente mantinha a bebida hermeticamente fechada sobre a mesa, era um charme. As pessoas abriam a boca e falavam com reverência: É tápiué? E minha mãe sorria com orgulho dizendo que tinha herdado da vovó. 

De todos os potes plásticos que existem no mercado, não há um sequer que tenha um mecanismo selante tão perfeito como o da tupperware. O único que realmente preservava a comida e mantinha o alface crocante! Sem contar que a maioria dos recipientes tem cores e design completamente diferentes do que vemos por aí...

Por tudo isso, sempre ansiei ter um item da Tupperware em casa. Não que hoje fosse me proporcionar o mesmo status do passado, muito mais pelas lembranças familiares, certeza da quase exclusividade praticidade e qualidade dos produtos.

E aí descobri que a esposa de um grande amigo promovia reuniões na casa sobre tupperware! Nessas reuniões, sucos, biscoitos e itens feitos e armazenados nos famosos recipientes... Eu precisava participar, afinal, era praticamente um culto religioso e que os Deuses não escutem, mas eu adoro cultos religiosos estranhos!

Na reunião, ouvi palavras como: "allegra", "policarbonato", "alta resistência", e até aí, estava tudo bem. Praticamente como se começassem num nível básico, para neófitas como eu. E então... em determinado momento, surgiu uma pergunta sobre "migração para bisfenol-A"... Um silêncio respeitoso se fez por alguns segundos logo seguido por explicações como: "projetado para reciclagem", "adotado internacionalmente", "aprovações regulatórias" e "características de desempenho melhoradas"

Meus olhos brilhavam e eu já nem me sentia mais num culto religioso. Só podia ser um braço da Cientologia!

Saí da reunião em êxtase mental e completamente conquistada. Comprei 12 recipientes exclusivos, entrei para o consórcio e tive uma epifania: Meus Tupperware jamais seriam emprestados. Eles seriam colocados em testamento para gerações futuras da família Freitas!





|
Gostou?
1

O dente da discórdia by SammyFreitas [crônica]

Posted by Aptos on 3 de janeiro de 2015 06:00 in , , , ,


Se tem uma coisa que sempre me falaram, é que você pode namorar quem quer que seja. Homem, mulher, rico, pobre, branco, preto, inteligente, tapado... mas se tem algo que todas as pessoas tem em comum, um preconceito quase que unânime, é o fato de namorar alguém que não possua dentes. 

O quê? Eu disse dentes? Pois é, disse sim.

Essa história aconteceu há muitos anos (e bota anos nisso!) na minha época adolescente. Reza a lenda que eu era muito CDF¹ e por causa desse pequeno detalhe, era difícil arrumar um namorado. Eu até queria, mas os rapazes estavam mais interessados nas meninas descoladas da sala. 

Para compensar essa falta, criei um jornalzinho bem humorado que era a minha perdição. A maioria dos alunos sabia quem editava e esperavam ansiosamente as edições três vezes por semana, onde eu esquecia toda a minha sobriedade e usava de observações e sutilezas para zoar colegas e professores. A única edição rodava de mão em mão na sala até que todos tivessem lido. Algumas vezes, no meio da aula de matemática, ouviam-se risadinhas abafadas. Professora Rosileida nunca olhava para a turma. Sempre focava em mim, que obviamente disfarçava e fingia que não era comigo.

Mas onde está o dente? Paciência, gafanhoto! Vamos chegar lá... E aí, o jornalzinho rolava e quando comecei a ficar sem idéias, aproveitei um trabalho que estávamos fazendo sobre Teoria de Conjuntos. O meu grupo escolheu uma pesquisa sobre três tipos de carro - Ford, Fiat e GM. Eu, como uma boa leiga, sequer sabia que tipos de carro tinham em cada fabricante. Tampouco gostava de trabalhos em grupo. Portanto, fiz minha contribuição, mas saí em busca da batida perfeita... ops... saí em busca de um tema melhor. 

Dei um sorriso maroto, elaborei a pesquisa e me armei de toda cara de pau que me era peculiar. Optei pelo recreio para começar minhas pesquisas. Procurei um grupinho e me aproximei. 

"Boa noite (pois é, galera, meu curso técnico era à noite!)... Então... Eu sou da PD2B e estou fazendo um trabalho de Teoria de Conjuntos. Gostaria de responder a três perguntas? Antes que me diga não, tenho um exemplar extra do FB urgente... e assim as pessoas rapidamente se convenciam a responder minhas 5 perguntas:

1. Você namoraria um gordinho?
2. Você namoraria uma pessoa bonita, até mesmo magra, mas sem 2 dentes frontais ou laterais?
3. Você prefere o gordinho ou o desdentado.
4. Você prefere não namorar ninguém?
5. Você namoraria os dois (não necessariamente ao mesmo tempo)?

A galera que me perdoe a palavra, mas a pesquisa foi um puta sucesso. A notícia da pesquisa se espalhou como rastilho de pólvora e logo, o universo escolar me procurava em hordas para responder às questões.

A verdade, é que todo mundo queria saber o resultado da pesquisa. E corria um boato, que a pesquisa era, na verdade, inspirada em certos coleguinhas da turma de ADM e Eletrônica. Balela. Eu só estava curiosa sobre o comportamento adolescente (não que eu não fosse uma, mas com um ego que não cabia no peito, apesar de minhas deficiências relacionais, eu me julgava um pouco superior em termos de nerdice e inteligência)

Se eu disser para vocês que lembro dos resultados exatos, estarei mentindo desbragadamente. Eu não lembro de números exatos. Mas lembro com uma precisão quase cirúrgica das porcentagens. 

Gordinhos, nem dessa vez vocês foram recompensados. Mas os banguelas também não. A verdade é que a galera adolescente tinha escolhido não namorar nenhum dos dois. Mas eu não publiquei o resultado correto. Como eu queria analisar o comportamento da galera, usei de artifícios e alterei informações para que os gordinhos ganhassem por pouco dos banguelas. Praticamente usei a imprensa marrom através do FB urgente com uma notícia bombástica: "Os gordinhos são melhores de beijar do que os banguelas"

O mais engraçado na história, é que nesta época, eu nem era gordinha. Pelo contrário. Magra feito um varapau e tirando o cabelo esquisito dos anos 80 eu era até uma ruiva bem simpática! E a manchete era outra piada. Que parâmetro eu tinha sobre beijos, se NUNCA tinha beijado ninguém?

Choveram reclamações. Bilhetes e mais bilhetes indignados de que beijariam até as paredes, mas nunca os banguelas.

E relembrando dessa história, foi com muito pesar que uma amiga me disse com todas as letras: "podemos fazer caridade. podemos beijar homens feios, pobres, burros, esquisitos, mas por favor... precisam ter todos os dentes, ainda que postiços"

Esse rebuliço todo, essa lembrança, foi por ter tido um acidente dentário. Pois é. Quase chorando, exageradamente gritava com uma amiga no telefone: "Eu nunca mais terei ninguém porque quebrou um pedaço do meu dente! Lembra, da nossa adolescência?"



Lembrei e lamentei... Estou parecendo o Tião Macalé²! Ele não vai me querer mais porque o hálito de halls e cepacol escapará pela fresta do dente!



E rindo, ela deu um basta na história: Mulher de Deus, acalme-se! Você tem todos os dentes! Só quebrou a pontinha! Nada que um restauro a laser não resolva. E pode parando de show, que quem dá piti nessa amizade sou eu!

Dei um sorriso torto preocupada demais com a pontinha quebrada, porque às vezes é mesmo bom dar uma exagerada para desopilar o fígado³. 





E você? Namoraria um desdentado?


¹ CDF - cabeça de ferro - pessoa que estuda demais
² Tião Macalé! Antigo personagem dos Trapalhões que tinha um bordão: "Ih, nojento, tchan" e ele tinha vários dentes da frente faltando... (oh god! explicar quem é Tião Macalé é uma prova real de que cada referência que eu faço aos anos 80, mais eu vejo como sou antiga...)
³ Desopilar o fígado - outra gíria antiga, mas que eu AMO de paixão. É o mesmo que ficar de bom humor, fazer a higiene mental, relaxar, sorrir mais...







|
Gostou?
8

Uma longa jornada de volta para casa - by sammyfreitas [crônica]






Copacabana... Reveillon... Duas palavras diferentes, mas que no RJ, estão intrinsecamente ligadas.

Muita gente vem de fora para conhecer a famosa queima de fogos. Eu nunca liguei. Embora seja carioca da gema, assistia sempre de casa, no conforto do meu sofá com ar condicionado ligado a mil. 

Justamente por ter sido um ano diferente, fui convidada por amigos e no fim, apesar de todo o pavor de multidão e muvuca e não me sentir confortável no meio de tanta gente, armei-me de coragem e fui. 

Que fique claro... Não sei se sou capaz de descrever tudo o que senti quando estava lá. Diante dos fogos. Eu me sentia uma criança assistindo um grande presente de natal. As imagens, as explosões, vinham na minha direção, e mesmo eu estando tão longe, me sentia num filme em 3D cujas imagens saltam da tela na nossa direção. Tudo que a gente vê ali, é emoção em forma de luzes. E eu nem estava assim, assim animada para assistir. Seja quais forem as expectativas que você leve, olhar os fogos supera todas. Desliguei do mundo e ouvir o assobio seguido de ligeiros pipocos iluminados... Explosões acima de explosões...  Não dá para não sentir nada. Então, fecho esse parêntese para dizer que qualquer coisa que tenha acontecido depois, não foi suficiente para embotar a magia que senti nos 17 minutos em que os fogos duraram.

Então, embriagada de felicidade, por volta de 3 da manhã resolvi voltar para casa. E foi aí que começou uma longa jornada de volta para casa. 

O primeiro passo, foi pegar o metrô. Estava cheio, mas nem tão lotado assim. Fiquei com medo de ser arrastada para fora do metrô. E de fato, numa certa estação, eu fui arrastada para fora com a multidão. Até tentei voltar, mas sabe aquelas cenas de desenho animado em que a pessoa se vê tentando pegar o ar... Pois é. Se meus planos eram ir até a Saens Pena, quando me vi fora do vagão, mudei de idéia. Até que ficar na Central não era mau negócio. E de ficar tanto tempo embaixo da terra sob a iluminação ofuscante, quando comecei a sair, quase fiquei surpresa por ainda estar tudo escuro...

Geral entrou na grande estação Central do Brasil. Tudo muito civilizado, por mais incrível que isso possa parecer. Eu não tinha me informado como seria a operação especial de ano novo e foi uma grata surpresa encontrar os trens em funcionamento.

Corri toda serelepe para as catracas e rá! Passei! Parei e sorri para o guarda, que sorriu de volta quando lhe desejei Feliz Ano Novo e ofereci um chocolate. Fui até a plataforma e até vi uma luz saindo, mas logo fiquei bem surpresa! No "meu" trem havia uns 12 lugares para sentar! Mal tinha começado 2015 e não podia acreditar na minha sorte!

Sentei num vagão novo, com ar condicionado, poltrona confortável e até mesmo virada para o lado em que o trem seguiria... Porque a poltrona que fica de costas sempre me dá enjôo.

Passaram-se alguns minutos e as portas permaneciam abertas. Já ia levantar e procurar alguém que pudesse informar quando o som da voz eletrônica saiu dos microfones fazendo os anúncios.

Vou repetir as palavras EXATAS, porque eu as ouvi de 3 em 3 minutos até a saída do trem...

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 57 minutos".

Pensei logo! Que legal! Saindo em 7 minutos. Maldita surdez seletiva. 

Rapidamente a 'mocinha' do microfone desfez meu engano e repetiu meu martírio:

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 54 minutos".

Dessa vez eu ouvi. E quase surtei. Perguntei para o senhor a meu lado: "Ela disse 54 minutos???"

Ele suspirou desanimado e explicou com um pesar no coração: "Sim... são trens funcionando em horário especial. Normalmente nem temos trens de madrugada, eles estão saindo de hora em hora. Um saiu alguns segundos antes que eu e você chegássemos aqui."

É sério que eu tinha perdido o trem por segundos? Nunca me arrependi tão amargamente de ter parado e sido gentil em desejar um Feliz Ano Novo!

Encostei a cabeça na janela e fechei os olhos. Mesmo num estado de semi-consciência, ouvia todos os apitos e tomava cada vez mais raiva da mocinha que insistia em anunciar a cada três minutos...

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 21 minutos".

Em algum momento que não consigo precisar, eu peguei no sono. Engraçado como a gente sempre acha que possui um timing interno para nos acordar. A última coisa que lembro ter ouvido na madorna foi "Próxima estação Marechal Hermes". Não era tão perto que me fizesse abrir de vez os olhos. Acabei pegando no sono para valer. E acordei assustada ao ouvir: "Próxima estação: Santíssimo..."

Com o perdão da palavra, meus olhos se abriram imediatamente e gritei um sonoro Puta que o pariu! Jura que já passamos de Padre Miguel? 

O mesmo senhorzinho olhou para mim, balançando a cabeça e me recriminando  com os olhos por palavras tão chulas no primeiro dia do ano... 

4 estações. E nem podia voltar, porque né? Os trens extras eram para ir para Santa Cruz. Para ir à Central, o primeiro trem no feriado, sairia às 4:40 e depois somente 5:40. Olhei rapidamente para o relógio, fazendo meu cálculo mais rápido de mulher grogue ainda virada do Ano Novo... Eram 5:10 - o que significava que o trem tinha acabado de passar - merda... eu e meus erros na janela de tempo... Teria que esperar pelo menos mais 1h pelo próximo. 

Não ia rolar. Sai da estação e fui à rua principal. Sou safa nesse tipo de situação e mesmo com a mente ainda ligeiramente embotada pelo cansaço, rapidamente cheguei à Av. Santa Cruz e sabia que 90% dos ônibus que passam por ali, chegam ao Shopping de Bangu. Nem sentei porque tinha grandes esperanças que viesse logo um ônibus (e vamos ser honestas... se eu sentasse, poderia facilmente pegar no sono de novo!)

Logo avistei o 397 - Campo Grande x Carioca (via Brasil) tomei o cuidado de ver passando na frente do ônibus a palavra "Bangu" - opa! servia! Dei um sorriso maroto, fiz sinal e entrei.

Sentei toda feliz enquanto o ônibus corria alucinadamente - "Vou chegar rapidinho em casa!"

Só queria banho e cama... Mas não... a vida... a vida é uma caixinha de surpresas... O ônibus saiu do caminho que estava percorrendo e virou na direção que julgo ser a da Avenida Brasil. Fiquei apavorada! Tanto sacrifício para sair da Central do Brasil, imagina voltar para o Centro agora!

E aí, gente, me desculpa, mas fui OBRIGADA a soltar baixinho uma série robusta de imprecações. Levantei em tempo recorde e corri até a trocadora, me equilibrando da melhor maneira possível no ônibus que voava pelo asfalto e já subia um viaduto....

- Moça! Moça! (até agora não sei o porquê de tê-la chamado de moça... no fundo, eu não sei, talvez por educação, talvez por pressa - mas a triste realidade é que a trocadora parecia ter uns 200 anos!) Esse ônibus não passa no Shopping Bangu???

Ela olhou para mim e aquele hiato de poucos segundos pareciam horas quando via o viaduto terminando e a possibilidade de saltar seja lá onde eu estivesse, se extinguindo...

Uma das poucas pessoas que se mantinha acordada no ônibus (o cara estava lendo, ganhou meu respeito!) chamou e disse: "Senhora!" (e aí meu respeito acabou na  mesma hora!) Ele até passa no shopping, mas deve estar querendo adiantar a galera que está indo trabalhar e virou antes... Mas não se preocupe. Já, já passamos para o outro lado (e eu quase em pânico) e você poderá saltar em frente à estação Bangu. Sente aqui do meu lado que eu te aviso.

Fiquei MUITO aliviada, porque agora, já tinha noção de onde estava e o melhor, conheço super bem a área em que ia passar. 

Desci no ponto certo, ainda lembrando dos fogos e desejando Feliz Ano Novo!

E aí vocês pensam que terminou? Ora, mas é claro que não! Quem disse que as coisas são fáceis assim???

Atravessei todo o calçadão... não sem antes ver o estrago que o temporal tinha feito na véspera. Um cenário apocalíptico (se não acreditam, vejam link do vídeo que postei lá embaixo!) - uma pena meu celular estar totalmente sem bateria porque até árvore arrancada do asfalto e caída por cima das telhas do calçadão de Bangu, tinha ali pelo chão.

Já eram quase 6h e minha jornada não tinha terminado. Terminei de atravessar o calçadão e me perguntei se um ônibus que me deixasse em casa ia demorar muito... E aí... mototáxis! Corri até o primeiro e perguntei quanto custaria me deixar na porta de casa (trajeto curto, menos de 10min) e o mocinho pediu: R$ 15. Achei mega salgado. Em geral pago R$5! Mas era feriado, não eram nem seis da manhã e eu estava morta! Só queria chegar em casa. Pois sim. Quando entreguei a grana e comecei a subir na moto... Meu ônibus que eu não pagaria nada, devido ao bilhete único passou na minha frente.

Fechei a boca e antes que eu desistisse da moto, o rapaz arrancou, quase me jogando no chão!

O percurso foi super rápido e logo estava abrindo a porta de casa. Olhei para o relógio e ele acusou 6:13. Eu nasci no dia 13/06.

Achei o número bem cabalístico. 

É melhor acreditar que esse será um ano fodástico e de muitas conquistas mesmo que tenha começado com uma jornada torta...

Feliz 2015! Feliz Novo Ano para todos nós! E que venham mais inspirações para relatos doidos!










Link do Temporal em Bangu no dia 31/12/14

https://www.facebook.com/video.php?v=574562439354474&permPage=1




|
Gostou?

Copyright © 2009 Retalhos Assimétricos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive.