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A Justiceira do Ônibus [crônicas] by SammyFreitas

Posted by Samantha Freitas on 18 de fevereiro de 2015 06:00 in , , , , , , , , ,


Ela sempre quis ser personagem de uma crônica. Desde os tempos de "Para gostar de ler" quando se apaixonou por "O assalto" de Carlos Drumond de Andrade... Por isso, vivia se metendo nas situações mais improváveis, na esperança de alguém torná-la uma personagem.

Contava histórias e mais histórias para os seus amigos, torcendo para que algum deles se tornasse jornalista e ela pudesse um dia abrir o jornal, ler uma crônica e sorrir por saber que a pessoa ali retratada era ela mesma. Os anos se passaram e ela já tinha desistido de ser inspiração de personagens. Mas já dizia o Joseph Climber... A vida... A vida é uma caixinha de surpresas. 

E o dia começou todo errado. Aline estava zangada. Zangada não. Zangada é pouco. Ela estava mesmo era muito puta. Tinha se estressado no trabalho, quase não conseguia sair para almoçar e quando finalemnte conseguiu, seu restaurante usual tinha apenas restos no buffet. Teve que se contentar com o subway, mas é claro... Neste dia, faltava seu pão favorito: provolone. 

"Tem dias que é melhor a gente nem sair da cama." Pensava nisso quando voltou para o segundo turno. Irritou-se com mais algumas pequenas situações e saiu do trabalho aliviada pelo dia finalmente ter terminado.

Ao chegar no ponto do ônibus, entrou na fila usual, ao menos isso seria um alívio, era a terceira pessoa da fila e poderia se sentar no seu banco favorito. É... aquele mesmo que também é favorito das crianças... Aquele banco alto sobre a roda e estando tão na frente da fila, provavelmente conseguiria até mesmo sentar-se à janela.

E foi então que uma mulher veio andando pela rua e subiu no ônibus... Sem respeitar a fila, sem nem mesmo esperar que o motorista liberasse a entrada para as pessoas subirem. 

Aline bufou. Normalmente era uma pessoa totalmente ligada à paz, mantinha-se zen, praticava meditação e ainda por cima tinha um 'otária' invisível tatuado na testa, o que fazia com que ela permitisse qualquer coisa que fizessem à ela.

Algumas pessoas começaram a se agitar com a mocinha que havia entrado na frente, reclamando do absurdo da situação. Por si mesma, dificilmente brigaria mas pensou chateada que provavelmente alguém da fila, perderia seu lugar.

Respirou fundo, mas não foi suficiente para diminuir sua revolta. E naquele momento, entre uma inspiração e outra, foi que ela decidiu que hoje, ela rodaria a baiana e faria seu primeiro barraco. Finalmente descontaria toda a sua frustração do dia em alguém...

Ao chegar sua vez de entrar no ônibus, dirigiu-se imediatamente à guria. Fez sua cara mais ameaçadora e inquiriu:
- Porque você não entrou na fila como todo mundo que está lá fora? 

A moça, sentiu-se ameaçada, mas logo se defendeu:
- Nem sabia que tinha fila!

Foi como se soltasse uma fera dentro de si. Aline começou a falar mais alto, chamando a atenção dos outros passageiros:

- Ah... então você também não enxerga? Uma fila daquele tamanho lá fora e você entra sem nem ao menos se preocupar com as pessoas que estão no sol, aguardando sua vez de entrar. 

A guria, ainda mais intimidada perguntou:
- O que você quer que eu faça? Já entrei, já sentei. Fim...

Aline não aceitou a resposta:
- Eu quero que você levante A-GO-RA e espere todos que estão na fila entrarem e se acomodarem. Assim, você aprende a entrar na fila como todo mundo.

Ao observar a cena, as pessoas começaram a cochichar no ônibus. Algumas, agradecendo por alguém tomar coragem de defender a todos, já outros, cansados demais para tomar partido, mantinham-se alheios à situação.

A mocinha levantou rapidamente, assustada com o tom empregado. Até que num súbito ato de coragem, resolveu dizer apenas quatro palavras que pregariam os últimos pregos no seu caixão:
- Vem me tirar daqui....

Aline nem conversou. Arrancou a bolsa e os cadernos do colo da menina, jogou para fora do ônibus. Atônita, a guria levantou e gritou:
- Minhas coisas!

Aline deu um sorriso indolente e disse: 
- Vá buscar, queridinha... assim você entra no final da fila e tudo ficará bem...

A menina levantou, pronta a tomar alguma atitude. Mas ao perceber os olhares à sua volta e sentindo-se intimidada, preferiu não reagir. Desceu do ônibus e resolveu ficar na calçada, esperando o próximo.

Passados alguns dias e já esquecida do ocorrido, Aline voltava para casa quando viu a manchete do Meia Hora. Arregalou os olhos e sorriu satisfeita por finalmente estar na mídia!









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