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A Justiceira do Ônibus [crônicas] by SammyFreitas

Posted by Aptos on 18 de fevereiro de 2015 06:00 in , , , , , , , , ,


Ela sempre quis ser personagem de uma crônica. Desde os tempos de "Para gostar de ler" quando se apaixonou por "O assalto" de Carlos Drumond de Andrade... Por isso, vivia se metendo nas situações mais improváveis, na esperança de alguém torná-la uma personagem.

Contava histórias e mais histórias para os seus amigos, torcendo para que algum deles se tornasse jornalista e ela pudesse um dia abrir o jornal, ler uma crônica e sorrir por saber que a pessoa ali retratada era ela mesma. Os anos se passaram e ela já tinha desistido de ser inspiração de personagens. Mas já dizia o Joseph Climber... A vida... A vida é uma caixinha de surpresas. 

E o dia começou todo errado. Aline estava zangada. Zangada não. Zangada é pouco. Ela estava mesmo era muito puta. Tinha se estressado no trabalho, quase não conseguia sair para almoçar e quando finalemnte conseguiu, seu restaurante usual tinha apenas restos no buffet. Teve que se contentar com o subway, mas é claro... Neste dia, faltava seu pão favorito: provolone. 

"Tem dias que é melhor a gente nem sair da cama." Pensava nisso quando voltou para o segundo turno. Irritou-se com mais algumas pequenas situações e saiu do trabalho aliviada pelo dia finalmente ter terminado.

Ao chegar no ponto do ônibus, entrou na fila usual, ao menos isso seria um alívio, era a terceira pessoa da fila e poderia se sentar no seu banco favorito. É... aquele mesmo que também é favorito das crianças... Aquele banco alto sobre a roda e estando tão na frente da fila, provavelmente conseguiria até mesmo sentar-se à janela.

E foi então que uma mulher veio andando pela rua e subiu no ônibus... Sem respeitar a fila, sem nem mesmo esperar que o motorista liberasse a entrada para as pessoas subirem. 

Aline bufou. Normalmente era uma pessoa totalmente ligada à paz, mantinha-se zen, praticava meditação e ainda por cima tinha um 'otária' invisível tatuado na testa, o que fazia com que ela permitisse qualquer coisa que fizessem à ela.

Algumas pessoas começaram a se agitar com a mocinha que havia entrado na frente, reclamando do absurdo da situação. Por si mesma, dificilmente brigaria mas pensou chateada que provavelmente alguém da fila, perderia seu lugar.

Respirou fundo, mas não foi suficiente para diminuir sua revolta. E naquele momento, entre uma inspiração e outra, foi que ela decidiu que hoje, ela rodaria a baiana e faria seu primeiro barraco. Finalmente descontaria toda a sua frustração do dia em alguém...

Ao chegar sua vez de entrar no ônibus, dirigiu-se imediatamente à guria. Fez sua cara mais ameaçadora e inquiriu:
- Porque você não entrou na fila como todo mundo que está lá fora? 

A moça, sentiu-se ameaçada, mas logo se defendeu:
- Nem sabia que tinha fila!

Foi como se soltasse uma fera dentro de si. Aline começou a falar mais alto, chamando a atenção dos outros passageiros:

- Ah... então você também não enxerga? Uma fila daquele tamanho lá fora e você entra sem nem ao menos se preocupar com as pessoas que estão no sol, aguardando sua vez de entrar. 

A guria, ainda mais intimidada perguntou:
- O que você quer que eu faça? Já entrei, já sentei. Fim...

Aline não aceitou a resposta:
- Eu quero que você levante A-GO-RA e espere todos que estão na fila entrarem e se acomodarem. Assim, você aprende a entrar na fila como todo mundo.

Ao observar a cena, as pessoas começaram a cochichar no ônibus. Algumas, agradecendo por alguém tomar coragem de defender a todos, já outros, cansados demais para tomar partido, mantinham-se alheios à situação.

A mocinha levantou rapidamente, assustada com o tom empregado. Até que num súbito ato de coragem, resolveu dizer apenas quatro palavras que pregariam os últimos pregos no seu caixão:
- Vem me tirar daqui....

Aline nem conversou. Arrancou a bolsa e os cadernos do colo da menina, jogou para fora do ônibus. Atônita, a guria levantou e gritou:
- Minhas coisas!

Aline deu um sorriso indolente e disse: 
- Vá buscar, queridinha... assim você entra no final da fila e tudo ficará bem...

A menina levantou, pronta a tomar alguma atitude. Mas ao perceber os olhares à sua volta e sentindo-se intimidada, preferiu não reagir. Desceu do ônibus e resolveu ficar na calçada, esperando o próximo.

Passados alguns dias e já esquecida do ocorrido, Aline voltava para casa quando viu a manchete do Meia Hora. Arregalou os olhos e sorriu satisfeita por finalmente estar na mídia!









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Uma longa jornada de volta para casa - by sammyfreitas [crônica]






Copacabana... Reveillon... Duas palavras diferentes, mas que no RJ, estão intrinsecamente ligadas.

Muita gente vem de fora para conhecer a famosa queima de fogos. Eu nunca liguei. Embora seja carioca da gema, assistia sempre de casa, no conforto do meu sofá com ar condicionado ligado a mil. 

Justamente por ter sido um ano diferente, fui convidada por amigos e no fim, apesar de todo o pavor de multidão e muvuca e não me sentir confortável no meio de tanta gente, armei-me de coragem e fui. 

Que fique claro... Não sei se sou capaz de descrever tudo o que senti quando estava lá. Diante dos fogos. Eu me sentia uma criança assistindo um grande presente de natal. As imagens, as explosões, vinham na minha direção, e mesmo eu estando tão longe, me sentia num filme em 3D cujas imagens saltam da tela na nossa direção. Tudo que a gente vê ali, é emoção em forma de luzes. E eu nem estava assim, assim animada para assistir. Seja quais forem as expectativas que você leve, olhar os fogos supera todas. Desliguei do mundo e ouvir o assobio seguido de ligeiros pipocos iluminados... Explosões acima de explosões...  Não dá para não sentir nada. Então, fecho esse parêntese para dizer que qualquer coisa que tenha acontecido depois, não foi suficiente para embotar a magia que senti nos 17 minutos em que os fogos duraram.

Então, embriagada de felicidade, por volta de 3 da manhã resolvi voltar para casa. E foi aí que começou uma longa jornada de volta para casa. 

O primeiro passo, foi pegar o metrô. Estava cheio, mas nem tão lotado assim. Fiquei com medo de ser arrastada para fora do metrô. E de fato, numa certa estação, eu fui arrastada para fora com a multidão. Até tentei voltar, mas sabe aquelas cenas de desenho animado em que a pessoa se vê tentando pegar o ar... Pois é. Se meus planos eram ir até a Saens Pena, quando me vi fora do vagão, mudei de idéia. Até que ficar na Central não era mau negócio. E de ficar tanto tempo embaixo da terra sob a iluminação ofuscante, quando comecei a sair, quase fiquei surpresa por ainda estar tudo escuro...

Geral entrou na grande estação Central do Brasil. Tudo muito civilizado, por mais incrível que isso possa parecer. Eu não tinha me informado como seria a operação especial de ano novo e foi uma grata surpresa encontrar os trens em funcionamento.

Corri toda serelepe para as catracas e rá! Passei! Parei e sorri para o guarda, que sorriu de volta quando lhe desejei Feliz Ano Novo e ofereci um chocolate. Fui até a plataforma e até vi uma luz saindo, mas logo fiquei bem surpresa! No "meu" trem havia uns 12 lugares para sentar! Mal tinha começado 2015 e não podia acreditar na minha sorte!

Sentei num vagão novo, com ar condicionado, poltrona confortável e até mesmo virada para o lado em que o trem seguiria... Porque a poltrona que fica de costas sempre me dá enjôo.

Passaram-se alguns minutos e as portas permaneciam abertas. Já ia levantar e procurar alguém que pudesse informar quando o som da voz eletrônica saiu dos microfones fazendo os anúncios.

Vou repetir as palavras EXATAS, porque eu as ouvi de 3 em 3 minutos até a saída do trem...

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 57 minutos".

Pensei logo! Que legal! Saindo em 7 minutos. Maldita surdez seletiva. 

Rapidamente a 'mocinha' do microfone desfez meu engano e repetiu meu martírio:

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 54 minutos".

Dessa vez eu ouvi. E quase surtei. Perguntei para o senhor a meu lado: "Ela disse 54 minutos???"

Ele suspirou desanimado e explicou com um pesar no coração: "Sim... são trens funcionando em horário especial. Normalmente nem temos trens de madrugada, eles estão saindo de hora em hora. Um saiu alguns segundos antes que eu e você chegássemos aqui."

É sério que eu tinha perdido o trem por segundos? Nunca me arrependi tão amargamente de ter parado e sido gentil em desejar um Feliz Ano Novo!

Encostei a cabeça na janela e fechei os olhos. Mesmo num estado de semi-consciência, ouvia todos os apitos e tomava cada vez mais raiva da mocinha que insistia em anunciar a cada três minutos...

"Atenção, o Trem Parador com destino a Santa Cruz está parado na plataforma 6F e sairá em 21 minutos".

Em algum momento que não consigo precisar, eu peguei no sono. Engraçado como a gente sempre acha que possui um timing interno para nos acordar. A última coisa que lembro ter ouvido na madorna foi "Próxima estação Marechal Hermes". Não era tão perto que me fizesse abrir de vez os olhos. Acabei pegando no sono para valer. E acordei assustada ao ouvir: "Próxima estação: Santíssimo..."

Com o perdão da palavra, meus olhos se abriram imediatamente e gritei um sonoro Puta que o pariu! Jura que já passamos de Padre Miguel? 

O mesmo senhorzinho olhou para mim, balançando a cabeça e me recriminando  com os olhos por palavras tão chulas no primeiro dia do ano... 

4 estações. E nem podia voltar, porque né? Os trens extras eram para ir para Santa Cruz. Para ir à Central, o primeiro trem no feriado, sairia às 4:40 e depois somente 5:40. Olhei rapidamente para o relógio, fazendo meu cálculo mais rápido de mulher grogue ainda virada do Ano Novo... Eram 5:10 - o que significava que o trem tinha acabado de passar - merda... eu e meus erros na janela de tempo... Teria que esperar pelo menos mais 1h pelo próximo. 

Não ia rolar. Sai da estação e fui à rua principal. Sou safa nesse tipo de situação e mesmo com a mente ainda ligeiramente embotada pelo cansaço, rapidamente cheguei à Av. Santa Cruz e sabia que 90% dos ônibus que passam por ali, chegam ao Shopping de Bangu. Nem sentei porque tinha grandes esperanças que viesse logo um ônibus (e vamos ser honestas... se eu sentasse, poderia facilmente pegar no sono de novo!)

Logo avistei o 397 - Campo Grande x Carioca (via Brasil) tomei o cuidado de ver passando na frente do ônibus a palavra "Bangu" - opa! servia! Dei um sorriso maroto, fiz sinal e entrei.

Sentei toda feliz enquanto o ônibus corria alucinadamente - "Vou chegar rapidinho em casa!"

Só queria banho e cama... Mas não... a vida... a vida é uma caixinha de surpresas... O ônibus saiu do caminho que estava percorrendo e virou na direção que julgo ser a da Avenida Brasil. Fiquei apavorada! Tanto sacrifício para sair da Central do Brasil, imagina voltar para o Centro agora!

E aí, gente, me desculpa, mas fui OBRIGADA a soltar baixinho uma série robusta de imprecações. Levantei em tempo recorde e corri até a trocadora, me equilibrando da melhor maneira possível no ônibus que voava pelo asfalto e já subia um viaduto....

- Moça! Moça! (até agora não sei o porquê de tê-la chamado de moça... no fundo, eu não sei, talvez por educação, talvez por pressa - mas a triste realidade é que a trocadora parecia ter uns 200 anos!) Esse ônibus não passa no Shopping Bangu???

Ela olhou para mim e aquele hiato de poucos segundos pareciam horas quando via o viaduto terminando e a possibilidade de saltar seja lá onde eu estivesse, se extinguindo...

Uma das poucas pessoas que se mantinha acordada no ônibus (o cara estava lendo, ganhou meu respeito!) chamou e disse: "Senhora!" (e aí meu respeito acabou na  mesma hora!) Ele até passa no shopping, mas deve estar querendo adiantar a galera que está indo trabalhar e virou antes... Mas não se preocupe. Já, já passamos para o outro lado (e eu quase em pânico) e você poderá saltar em frente à estação Bangu. Sente aqui do meu lado que eu te aviso.

Fiquei MUITO aliviada, porque agora, já tinha noção de onde estava e o melhor, conheço super bem a área em que ia passar. 

Desci no ponto certo, ainda lembrando dos fogos e desejando Feliz Ano Novo!

E aí vocês pensam que terminou? Ora, mas é claro que não! Quem disse que as coisas são fáceis assim???

Atravessei todo o calçadão... não sem antes ver o estrago que o temporal tinha feito na véspera. Um cenário apocalíptico (se não acreditam, vejam link do vídeo que postei lá embaixo!) - uma pena meu celular estar totalmente sem bateria porque até árvore arrancada do asfalto e caída por cima das telhas do calçadão de Bangu, tinha ali pelo chão.

Já eram quase 6h e minha jornada não tinha terminado. Terminei de atravessar o calçadão e me perguntei se um ônibus que me deixasse em casa ia demorar muito... E aí... mototáxis! Corri até o primeiro e perguntei quanto custaria me deixar na porta de casa (trajeto curto, menos de 10min) e o mocinho pediu: R$ 15. Achei mega salgado. Em geral pago R$5! Mas era feriado, não eram nem seis da manhã e eu estava morta! Só queria chegar em casa. Pois sim. Quando entreguei a grana e comecei a subir na moto... Meu ônibus que eu não pagaria nada, devido ao bilhete único passou na minha frente.

Fechei a boca e antes que eu desistisse da moto, o rapaz arrancou, quase me jogando no chão!

O percurso foi super rápido e logo estava abrindo a porta de casa. Olhei para o relógio e ele acusou 6:13. Eu nasci no dia 13/06.

Achei o número bem cabalístico. 

É melhor acreditar que esse será um ano fodástico e de muitas conquistas mesmo que tenha começado com uma jornada torta...

Feliz 2015! Feliz Novo Ano para todos nós! E que venham mais inspirações para relatos doidos!










Link do Temporal em Bangu no dia 31/12/14

https://www.facebook.com/video.php?v=574562439354474&permPage=1




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Desafio Muito Desafiante by Marcinha

Posted by Marcinha on 11 de outubro de 2013 06:00 in , , , , , ,
Olá, retalhenses e leitores!
Nossa Paty bolou um "desafio muito desafiante" para nós todas. Nele, partiríamos de um mesmo início, para desenvolver uma aventura pessoal, cada uma ao seu modo. Eis aqui de onde partimos:

“Uma viagem inesperada de trabalho foi requisitada, e você só teve tempo de juntar algumas coisas pessoais e seu inseparável livro, que nos últimos dias ocupava não só grande parte do seu tempo quanto também de sua mente. Era uma viagem curta para uma cidade do interior, então você não precisou se preocupar com aparências, e deixou-se relaxar sobre a poltrona reclinável enquanto absorvia com avidez a escrita inteligente e sedutora da autora. Quando se deu conta do tempo, o sol já se recolhia no horizonte traçando linhas alaranjadas sobre o verde da paisagem, e sua mente viajou por aquelas imagens... e de repente tudo ficou escuro. Você só sentiu uma forte fisgada na nuca e o som brusco de uma freada.”

Me apaguei à idéia do livro, e quis homenagear uma autora da qual sou fã; tive a pretenção mergulhar em seu universo e contar minha história permeada em sua magia. Quis exalar a atmosfera, os sentimentos, os dilemas, a sensualidade e a visão que encantam em seus muitos volumes publicados. Espero ter conseguido.

 Viagem Sombria


Depois de tanta correria, finalmente havia me acomodado na poltrona do ônibus de viagem. Jogara uns poucos pertences dentro de uma mochila; minha agenda, meus celulares, o livro que venho devorando nos últimos dias. Pretendia ficar fora apenas dois dias, o que seria mais do que suficiente para fazer o orçamento da personalização de três carros antigos de um único dono, em Paraty. A insistência do homem, seu entusiasmo por ter conhecido meu trabalho e a enorme bonificação em dinheiro que me oferecera apenas pela minha visita e orçamento me fizeram largar tudo e viajar.

Recostei-me na poltrona do ônibus assim que pegamos a estrada, e abri meu livro mais uma vez. Mergulhei nas sedutoras páginas de Anne Rice, com sua visão poética e melancólica do mundo dos vampiros. Que imaginação ela possui, e que sensibilidade! Seres sobrenaturais com dilemas totalmente humanos. Me fundi mais uma vez ao segundo volume das Crônicas Vampirescas, esquecendo do mundo ao meu redor.

A medida que a luz do dia baixava, tornou-se impossível continuar a leitura. Aproveitei o quanto pude e, em dado momento, abracei-me ao livro e passei a observar a paisagem. O céu exibia o belo azul profundo que antecipa a noite e havia pouquíssimo movimento naquele trecho da estrada, o que permitia que a cantoria das aves permeasse tudo à volta. Muitos e muitos metros para trás e para a frente do ônibus só havia estrada e mata nativa. Apenas a natureza, intocada, gigantesca... e um ônibus intruso, cruzando uma solitária pista de asfalto, como única marca de civilização naquele trecho selvagem entre a serra e o mar.

De repente, ouvi um barulho seco, como metal partido, e uma freada. Senti uma forte fisgada na nuca e a escuridão desceu sobre mim como um véu. Nem mesmo compreendi o que acontecia.

Em dado momento, abri os olhos, pesadamente, tentando me situar. Sentia-me como se tivesse acordado de uma longa noite de sono. Estava escuro. Entre as árvores pude ver as estrelas no céu, bem a minha frente. Deduzi que estava deitada no chão; mexi os braços, tateei o chão molhado, a terra e as folhas caídas formando uma espécie de lama. Tentei me levantar, não consegui. Tentei novamente erguer meu corpo, me apoiando no cotovelos. Dor. Todo o meu corpo doía horrivelmente. Respirei fundo e desisti por um instante, tentando recobrar as forças. Comecei a ouvir os gemidos dos outros passageiros. Um acidente. Um acidente bem feio pelo jeito. Comecei a entrar em pânico, me sentia fraca, e não conseguia mais respirar com naturalidade. Meus olhos se encheram dágua.
 
Então eu o vi. Caminhou em minha direção, um homem vestido de cinza escuro, e se agachou ao meu lado. Não exibia ferimento algum, nem me lembrava de tê-lo visto antes no ônibus. Achei que vira o acidente e viera ajudar. Ele me olhou fundo nos olhos e toda a dor que eu sentia saiu da minha mente. Ele tinha olhos azuis que pareciam cintilar em tons de violeta, e cabelos loiros densos e cacheados que tocavam seus ombros. Fiquei imaginando se aquele belo anjo viera me buscar.

- De certa forma, sim, vim buscar você. - ele me respondeu, como se lesse claramente meu pensamento - É sua única chance, Márcia. Não há tempo.

- Tempo? O que houve? - indaguei, confusa.

- Você perdeu muito sangue. E não há socorro a não ser a quilômetros daqui. Não há tempo para você.

- Não! - protestei, e me ergui nos cotovelos com minhas últimas forças.

Finalmente percebi a mim mesma. Estava presa nas ferragens do ônibus, com ele tombado de lado na mata, cobrindo metade do meu corpo. A lama na qual eu estava deitada era meu próprio sangue.

- Lhe darei a vida eterna, se você desejar. - ele me disse - Será sempre bela e sedutora como é agora, e me terá para sempre ao seu lado. Apenas peça. Peça para ser como eu.

Desatei a rir. Bela e sedutora, eu? Sim, claro, ainda mais imersa em uma poça de sangue, eu deveria estar um tesão. Eu não conseguia parar de rir, e já começava a me engasgar e cuspir sangue.

- Você quer ser como eu? Me responda agora! - exasperou-se o belo loiro agachado ao meu lado.

- E o que você é? - indaguei, em desafio; coisas impossíveis se passavam na minha mente.

- Você sabe, e sabe quem eu sou. Diga. - ele me observou, severo - Diga!

- Lestat... o vampiro. - respondi, desistido de enfrentá-lo; eu estava a ponto de desfalecer.

- Boa menina. - ele pareceu aliviado - Diga que me quer, como eu a quero. Diga que quer ficar comigo. É a única saída pra você. Diga, agora.

Pensei em meu marido. Pensei em nossa convivência, cheia de harmonia e amor nos últimos tempos. Pensei em nossos planos, na vida boa que teríamos juntos depois que todos os problemas que juntos enfrentávamos fossem resolvidos. Pensei em todas as nossas conversas, todos os sonhos, todas as metas. Tudo o que significávamos um para o outro. Meu companheiro, "eu e ele contra o mundo", ele me disse sempre. Pensei que ficaria com ele para o resto da vida. Mas agora eu estava morrendo.

Pensei na minha irmã, e em todas as vezes que ela disse que me amava, e eu sabia que era verdade. Pensei em mamãe, a mãe do meu marido, que me acolheu no coração como se eu fosse filha dela. Pensei nas minhas amigas de blog, e como elas nunca saberiam que pensei nelas nessa hora, inclusive naquela que não está mais no blog, mas está sempre nos meus pensamentos. Pensei em mais algumas pouquíssimas pessoas que habitam meu coração. Nunca mais as veria. Eu estava morrendo.

- Vai se entregar ao pó, sem lutar? - exasperou-se novamente - Você pode viver! Pode viver por mais tempo e mais intensamente do que viveria em dez vidas mortais! Apenas me diga que quer! Diga, agora!

- Lestat... eu quero. - respondi com dificuldade.

Ele me envolveu em seu abraço, com urgência. Senti a perfuração da garganta, como a espetadela de duas agulhas. Então a paz... um bem estar indescritível se apossou do meu corpo, como um êxtase, como se eu pudesse tocar o paraíso se apenas esticasse os dedos. Agarrado a mim ele sugava o pouco que havia restado do meu sangue, levando-me a fronteira da morte, onde nossos corações rufavam juntos como tambores em meus ouvidos.

Afastou-se de mim bruscamente, como se o fato de se obrigar a me soltar fosse doloroso para ele. Então rasgou a própria garganta com uma unha, e tornou a me abraçar, oferecendo-me o sangue que vertia do corte.

- Beba. - ele ordenou; sua voz era pura sensualidade.

Colei os lábios em seu pescoço, e o suguei como em um beijo selvagem. Sentia o sangue quente e espesso descer-me a garganta, matando a sede que me ressequia. Bebi dele longamente, sentindo a pele lisa do pescoço, os cachos loiros a roçar-me o rosto, o cheiro da sua pele, que me lembrava amêndoas. O sangue doce que me alimentava e preenchia toda a minha existência, dava sentido a tudo, e eu poderia beber dele eternamente. Tudo que eu fui, tudo que senti, tudo o que almejei ia se apagando em mim rapidamente. Se havia Paraíso ou Inferno, o que era ou não pecado, se as Grandes Leis foram realmente ditadas por Deus, nada disso me importava. Não havia mais nada em minha mente que não fosse aquele anjo negro que me oferecera uma nova existência na hora de minha morte. Sentia seus músculos me apertarem contra si, com a paixão dos sobrenaturais, fundido-nos, como se fôssemos um só. Então ele me afastou suavemente.

- Já chega. - ele disse.

Soltei um profundo gemido quando ele se afastou. Olhei as estrelas novamente, quando me prostrei no chão, exausta e saciada. Eram luzes fulgurantes, que pulsavam cada uma a seu ritmo, e eu compreendia que elas compunham uma sinfonia a medida que piscavam entre si. O vento acariciou meu rosto como mãos de fadas, e agitou as folhas nas copas das árvores com uma graça e perfeição que eu jamais vira. As árvores pareciam dançar lentamente, como amantes a meia-luz.

- Oh... então isto é o Dom Negro? - sussurrei - Tudo... é belo... demais...

- Sim, minha criança. É meu presente para você.

- Quero me levantar. - afirmei - Estou presa. Me ajude.

- Mova o ônibus, Márcia. Você tem força para isso.

Lembro-me de ter sorrido. Sim, eu tinha força para isso e muito mais. Ergui a carcaça retorcida do ônibus sobre o meu corpo e o empurrei para o lado. Pus-me de pé.

Olhei para mim mesma, no reflexo de uma das janelas do veículo. Eu havia emagrecido e ostentava um corpo volumoso e torneado, e parecia completamente saudável. Meus cabelos à altura da cintura haviam se cacheado por completo, como sempre foram antes do alisamento. E, sobretudo, o detalhe que mais me seduziu: eu possuía presas. Duas presas agudas e vampirescas assumiram o lugar dos meus caninos mortais. Eu parecia mais selvagem do que nunca.

- Quero caçar com você, Lestat... como li em seu relato, no livro. Aliás, nunca pensei que tudo o que estava escrito fosse verdade, que "O Vampiro Lestat" fosse realmente um livro de memórias. Afinal, então... quem é Anne Rice?

- Minha "ghostwriter". - ele afirmou, com um sorriso travesso.

- Ah, Lestat de Lioncourt... sempre vivendo entre humanos. - brinquei.

- Interagindo entre humanos, sim, minha bela, mas somente isto. Não é possível viver entre eles, ou me apegar tanto a eles quanto eu precisaria. Sou um monstro e, mais cedo ou mais tarde, essa verdade acaba prevalecendo. Preciso de amor de minha própria espécie.

- Ainda não conseguiu isso, não é? - indaguei me aproximando dele, acariciando sua face branca e perfeita como uma escultura de mármore - Magnus, Gabrielle, Armand, Louis... até mesmo Claudia... foram amados por você, mas não conseguiram amar você como precisava.

O anjo loiro baixou a cabeça, pensativo. Ergui seu rosto gentilmente, com ambas as mãos, e beijei os lábios do meu amante eterno.

- Eu o amarei, Lestat. Tenho em mim a mesma ânsia desesperada por amor. Sei exatamente como se sente. Por isso sei que posso amá-lo como você deseja.

Lestat me olhou nos olhos, como se conversasse com a minha alma. Havia amor, gratidão, desejo, cumplicidade e uma promessa eterna naquele olhar azul que iluminava o rosto do meu anjo das trevas. Ele acariciou meu rosto e me disse mentalmente "dois anjos da morte, juntos para sempre".

Então ele me conduziu pela mão, e saltamos para dentro da mata, quase voando. Estávamos indo caçar pela primeira vez juntos. Tomaríamos uma vida juntos, eliminaríamos alguém da face da terra hoje, como faríamos noite após noite para todo o sempre. E eu escolheria minhas vítimas como Lestat sempre o fizera, entre os criminosos, os sem caráter, os malfeitores, os traidores, os desonrados. Sorri de lado, satisfazendo-me antecipadamente com a minha escolha. Eu sabia exatamente quem morreria esta noite.




 


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DESAFIO MUITO DESAFIANTE - by Sammy Freitas

Posted by Aptos on 10 de outubro de 2013 06:00 in , , , ,
Foi-nos proposto um desafio pela nossa querida Paty Deuner conforme você pode conferir aqui.

“Uma viagem inesperada de trabalho foi requisitada, e você só teve tempo de juntar algumas coisas pessoais e seu inseparável livro, que nos últimos dias ocupava não só grande parte do seu tempo quanto também de sua mente. Era uma viagem curta para uma cidade do interior, então você não precisou se preocupar com aparências, e deixou-se relaxar sobre a poltrona reclinável enquanto absorvia com avidez a escrita inteligente e sedutora da autora. Quando se deu conta do tempo, o sol já se recolhia no horizonte traçando linhas alaranjadas sobre o verde da paisagem, e sua mente viajou por aquelas imagens... e de repente tudo ficou escuro. Você só sentiu uma forte fisgada na nuca e o som brusco de uma freada.”



Quando meu chefe me chamou na sala no fim da tarde eu já desconfiava que alguma coisa tinha acontecido. Adorava quando tinha que viajar a trabalho, mas dessa vez eu estava tão cansada, que meu desagrado ficou estampado no meu rosto. Nem mesmo quando me foi prometida uma folga meu rosto se abriu. 

Paciência... desde que eu tinha ganhado o kit babaca júnior composto por celular e laptop da empresa, eu sabia que as chamadas fora de hora e as viagens seriam constantes. 

Olhei para o ônibus desalentada. Quatro horas de viagem apenas para conferir se as gigantescas engrenagens da usina de pelotagem haviam chegado com as medidas conforme nossas especificações. Milhões de dólares investidos, portanto, qualquer erro era fatal.

Acomodei-me na poltrona esticando os pés cansados. Minhas exigências foram claras: Só viajaria de semi-leito e bem confortável... Observei o rapaz na poltrona-leito ao lado da minha e ele parecia uma biblioteca ambulante. À sua volta, uns doze livros e ele parecia em dúvida sobre qual ler primeiro. 

Abri minha mochila sorrindo e peguei o item mais importante. Estava lendo "O livro do amanhã" da Cecelia Ahern. Estava amando a história! Imagina que barato um livro com o poder de te contar o que vai acontecer no dia seguinte! Era o segundo livro que eu desejava este ano. O primeiro era o Death Note. Pois é... eu não era tão boazinha assim... 

As luzes do ônibus piscaram duas vezes e apagaram. Tudo ficou escuro e o motorista deu uma freada e tanto e parou. Abriu a porta da frente no exato momento em que eu lia entretida um trecho do livro: "Oi mãe, sou eu. Saí de casa num ônibus cheio de livros e um rapaz simpático vai me levar até a cidade. Voltarei em algumas horas. No caso de eu não voltar, ele se chama Marcus Sandhurst, tem um metro e oitenta de altura, cabelos pretos, olhos azuis..."¹

Sorri diante da leitura da cena quando observei um casal subindo no ônibus. A menina falava ao celular e olhava o rapaz e suas palavras, faziam coro com o livro: "tem um metro e oitenta de altura, cabelos pretos, olhos azuis... Tatuagens?"

O rapaz levantou a camisa e ela continuou falando...

Abri e fechei a boca três vezes... comparei o que estava escrito no livro com o que acontecia na minha frente. Olhei para o rapaz que lia Stonehenge à minha direita e ao senhor que roncava ruidosamente à minha esquerda. Ninguém parecia perceber que o que estava acontecendo já estava escrito.

Fiquei em dúvida se "assistia" a cena que acontecia na minha frente ou se prosseguia a leitura. Optei por permitir que o livro se transformasse num filme na minha frente e sorri com Tamara e Marcus "viajando" para o México através da leitura dos livros cujas lombadas começara a sobressair no bagageiro. Quase levantei para "participar" da história, mas me mantive como mera expectadora. Estava achando o máximo a encenação! Fiquei me perguntando se não seria uma brincadeira do meu namorado ator, que não só sabia de minha paixão por livros como brincou com o título do meu livro... Recordei das palavras dele pela manhã...

- "O livro do amanhã"? Ruivinha, você estava lendo ontem, logo, esse livro é "O livro de Hoje"! e Amanhã, ele deverá se chamar: "O livro do Ontem"!

Lembrava perfeitamente da hora que joguei uma almofada nele e nos beijamos. Livros são maravilhosos, mas a vida real é ainda melhor. Por isso eu tinha optado por largar temporariamente o livro e assistir ao casal na minha frente... 

Depois de quase uma hora, as luzes piscaram novamente e o ônibus parou. Tamara segurava um livro grosso, com capa de couro e uma pequena fechadura quando ouvimos um grito:

- Tamara! Volte para nós, criança!²

A jovem gritou:

- Eu vou voltar. Só saí há uma hora!

Foi então que o momento mágico aconteceu. Aquele momento em que a ficção toca levemente a realidade. Tamara olhou nos meus olhos como se soubesse que eu realmente estivesse ali. Ela estendeu o livro e sussurrou:

- Guarde-o para mim... Minha tia não pode vê-lo... - ela aproximou-se e empurrou o livro para dentro da minha manta. 

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ela correu e desceu do ônibus. Sumiu com a mesma velocidade que surgiu. O ônibus iniciou novamente sua marcha e eu levantei a manta devagar, temendo que tudo tivesse sido fruto de minha imaginação.

Não tinha nenhum livro dentro da manta. Até levantei, olhei em volta, procurei no vão das poltronas, pelo chão... Mas realmente não o achei. Suspirei novamente. Delírios de uma apaixonada por livros, só podia ter sido isso...

Desci em Itabira e peguei minha mochila ultra pesada. Um carro me aguardava para me levar ao hotel. Conversei com o motorista, mas sem tirar Tamara da cabeça. Teria sido um sonho??

Registrei-me e subi para tomar um banho. Quando abri minha mochila... uma surpresa...

Um livro de capa grossa de couro. Sentei atordoada na cama quando vi a pequena fechadura. 

Estava curiosa, mas ao mesmo tempo, eu tinha medo de abrir o livro. A curiosidade venceu... Peguei o chaveiro e fui testante se alguma de minhas chaves ajudaria a abrir. A menorzinha encaixou no fecho. Olhei assustada. Não lembrava desta chave no chaveiro...

Abri o livro e sorri encantada. Desta vez, Theo, meu namorado realmente tinha caprichado na surpresa. Tamara tinha sido mesmo apenas fruto do meu sonho e imaginação delirante, porque dentro do livro, havia algo que eu jamais ia imaginar...




Um anel e um bilhete: "Casa comigo?"






¹ Pág. 78 - O livro do amanhã
² Pág. 86 - O livro do amanhã








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DESAFIO MUITO DESAFIANTE

Posted by Unknown on 5 de setembro de 2013 06:00 in , , , ,
Venho propor um desafio muito desafiante. Na verdade é muito parecido com aquele do “tempo e espaço”, mas resolvi agregar algumas novas regras para tornar o desafio mais interessante.

A ideia é a seguinte:

1- Vou descrever uma situação inicial que deverá ser seguida por todas as desafiadas, ou seja, todas partirão do mesmo tema e circunstância.
2- O texto deverá ser desenvolvido na 1ª pessoa, e a personagem principal será você. Sim meninas... quero que vocês mesmas vivenciem essa aventura!
3- Todos os textos devem ser postados na mesma semana, em dias subseqüentes, para evitar a indução de idéias (já que provavelmente todos os textos estarão prontos). Essa data poderá ser combinada posteriormente.
4- Eu também vou participar do desafio! Sei que é um pouco injusto com vocês já que eu mesma criei esse começo e obviamente já tenho uma ideia de continuação, mas... Vocês podem levar o tempo que precisar para desenvolver esse desafio.

                Então vamos a situação inicial da estória:


“Uma viagem inesperada de trabalho foi requisitada, e você só teve tempo de juntar algumas coisas pessoais e seu inseparável livro, que nos últimos dias ocupava não só grande parte do seu tempo quanto também de sua mente. Era uma viagem curta para uma cidade do interior, então você não precisou se preocupar com aparências, e deixou-se relaxar sobre a poltrona reclinável enquanto absorvia com avidez a escrita inteligente e sedutora da autora. Quando se deu conta do tempo, o sol já se recolhia no horizonte traçando linhas alaranjadas sobre o verde da paisagem, e sua mente viajou por aquelas imagens... e de repente tudo ficou escuro. Você só sentiu uma forte fisgada na nuca e o som brusco de uma freada.”

Essa é a situação que vocês estarão vivendo no começo dessa estória meninas! Mas a parti daí vale tudo! Pode ser uma estória realística, imaginária ou fantástica. A intenção é justamente saborearmos as várias possibilidades que cada uma de nós consegue imaginar (ou que gostaria de viver... quem sabe?). Acho que vai ser divertido ler as diferentes propostas para um mesmo começo de estória. A imagem que escolhi também pode servir de inspiração para o texto.

          Nanda, Sammy e Marcinha...CONTO COM VOCÊS!!!


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