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Uma nova vida - desafio musical

Posted by Denize Ternoski on 17 de fevereiro de 2013 06:00 in , ,

Resposta ao meu desafio musical, proposto pela Sammy
musica Mais Uma Vez - Legião Urbana



Uma nova vida

Eu tinha uma vida normal, pelo menos era o que eu pensava. Era diretor de uma das maiores empresas do Brasil, um homem bem sucedido, era assim que eu me classificava. Mas era bem sucedido no que? Não tinha uma família, não ligava para meus pais, não tinha uma religião, minha crença era no dinheiro, e em tudo que eu poderia comprar com ele.

Num dia como qualquer outro em que voltei para casa depois do trabalho, tomei um belo banho na minha banheira da hidromassagem, senti uma pontada no peito, mas não era nada demais, terminei meu banho e fui dormir, mas algo totalmente inesperado aconteceu. 

Acordei num lugar escuro e úmido. Comecei a me debater para saber onde estava e percebi que estava preso por correntes, pés e mãos atados. Eu estava num colchão bolorento, o que me causou nojo já de cara, e ao olhar em volta percebi que não havia mais nada naquela sala escura, a não ser uma vela no canto oposto. De onde eu estava também não enxerguei nenhuma porta.

Lutei contra minha consciência, dizendo a mim mesmo que aquilo era um pesadelo, apenas um pesadelo... eu acordaria em breve. Mas não, eu tinha sensações, sentia o cheiro do bolor por toda a sala, sentia meus pulsos doendo pelo atrito das correntes. 

Como fui parar ali? Quanto tempo havia se passado desde que adormeci na minha casa? O que significava tudo aquilo?

Um sequestro, é claro! Afinal eu era um empresário muito rico, o que mais poderia ser? Mas como alguém conseguiu entrar na minha casa, com todo o sistema de segurança, alarmes, câmeras, cães?! Era um pesadelo, só podia ser...

Eu não tinha o que fazer,  comecei a suar frio, não podia nem mesmo me levantar. Comecei a gritar e gritar, até não sentir mais meus pulmões dentro de mim, até minha garganta queimar.
Só depois que parei de gritar, uma voz me respondeu, uma voz forte e precisa, parecia um tambor, e não consegui identificar de onde vinha, pois parecia preencher toda a pequena sala. A voz me respondeu:

- Não adianta gritar, isso não vai te salvar. Você vai ter que aceitar o seu destino.

- Que destino?! – Gritei de volta. – Se você quer dinheiro, diga o quanto, qualquer quantia! Eu digo como conseguir, mas me tire daqui!

Nenhuma resposta.

Comecei a chorar. Porque eu, porque? Foquei meu olhar na pequena vela do outro lado da sala, a chama bruxuleante. A vela parecia exatamente igual, não derretia. Pensei estar começando a ficar maluco, então me veio uma musica na cabeça, e comecei a cantar baixinho para acalmar um pouco os pensamentos.
“...Mas é claro que o sol

Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem



Tem gente que está
Do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar...”

Comecei a perceber como a música fazia sentido. Eu estava, afinal, num lugar escuro, mas poderia ser pior, se não tivesse aquela pequena luz da vela ali, e eu tentava não endoidecer. 

Mas, aquilo também me fez pensar na minha família, em como eu havia abandonado meus pais depois de ficar rico, como nunca mais havia ligado ou mandado uma carta. Sim, eu estava do mesmo lado das pessoas  mesquinhas e egoístas, e era eu que estava machucando alguém, machucando meus pais, por ter esquecido de amá-los.

Aquela revelação doeu muito dentro de mim. Ali, no escuro, comecei a chorar mais alto, chorar por tudo de errado que havia feito, e a musica foi se misturando aos soluços.

“...Tem gente enganando a gente

Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia
A gente aprende


Se você quiser alguém

Em quem confiar
Confie em si mesmo


Quem acredita

Sempre alcança...”

Parecia que não era só eu que cantava aquela musica. Comecei a ouvir um coro de vozes que vinham do outro lado da parede, de todos os lados na verdade, todas as vozes sofridas como a minha, pareciam cantar para se salvar.
- Aceite o seu destino, e confie em si mesmo! – aquela voz poderosa me falou.
- Que destino?! – gritei em resposta, mas a voz nada disse.
Na minha cabeça aquela ultima frase ficava martelando “quem acredita sempre alcança...” Mas não era eu, eram aquelas vozes todas repetindo sem parar aquela frase. Com a cabeça girando, tentei me focar naquela pequena luz da vela e lembrar o resto da música.
“...Mas é claro que o sol

Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Nunca deixe que lhe digam:
Que não vale a pena

Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos
Nunca vão dar certo
Ou que você nunca
Vai ser alguém...”

Sairia dali, eu sabia que ia sair, estava começando a acreditar no que a musica que saída dos meus lábios dizia, e aquilo começou a puxar meus pensamentos a uma realidade avassaladora.
Eu estava apenas em uma sala escura, preso por correntes à realidade que eu mesmo criei para mim, sozinho, preso na minha ganância. Mas haviam pessoas que estavam passando fome, frio, sofrendo com doenças terminais, realidades em que o estupro e a dor já faziam parte do cotidiano. Essas pessoas estavam numa escuridão muito maior que a minha, mas ainda assim tinham esperanças. Tentei pensar, no que elas tinham esperança?
- Em Deus, claro! – concluí.
Eu devia ter esperanças em Deus, foi Ele que me ajudou a conseguir realizar meus sonhos, a me tornar um empresário de sucesso, Ele me perdoaria se eu tentasse me desculpar, Ele me livraria dessa escuridão.
As vozes ao meu redor continuaram a música:
“...Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar

Mas eu sei que um dia
A gente aprende
Se você quiser alguém
Em quem confiar
Confie em si mesmo!

Quem acredita
Sempre alcança!”

- Eu sei! – gritei. – Eu sei que em minha ganância machuquei tanta gente, tanta gente que me amou! Meu Deus, me perdoe! Me tire dessa prisão, eu prometo melhorar!
E dessa vez a voz respondeu.
- Não sei se isso será possível Manoel... Isto não é apenas uma prisão, é o purgatório, onde você pagará por seus atos até ser digno de ir para o céu.
- Purgatório? Como assim? – Comecei a tremer com a idéia.
Então a voz dizia que eu morri? Mas eu sentia meu corpo, sentia fome, sentia frio. Ouvia as vozes repetindo desesperadamente o resto da música “Confie em si mesmo! Quem acredita sempre alcança!”
- Você teve um infarto, Manoel, não se lembra? – a voz ecoou na sala. – por isso está aqui.
Meu mundo começou a girar, tantas lembranças, tantos pensamentos. Eu podia mesmo ter morrido? Bom, o que mais explicaria  eu ter acordado ali, naquela sala estranha?
- Você precisa me deixar voltar!
- Daqui, meu filho, você irá para o céu, ou para o inferno, de acordo com suas decisões do que pretende ser.
- Não! E minha família? – comecei a chorar alto – Não posso simplesmente morrer, e nunca pedir perdão. Eu mudei, eu aprendi!!!
- Mudou mesmo? – perguntou a voz, ainda mais forte.
- Sim! – eu gritei. – E eu confio em mim mesmo!
De repente entendi o que as vozes me diziam, elas me diziam para continuar, elas cantavam para que eu confiasse na minha mudança, para que Deus também pudesse confiar em mim. Pediam desesperadas para que eu acreditasse em mim, e alcançasse a graça que Deus poderia me conceder.
- Eu mudei! – gritei para ele – Eu mereço algo melhor do que essa prisão, eu mereço a chance de me redimir, eu acredito!
- Que assim seja. – a voz respondeu.
Por um minuto nada aconteceu, então fiquei surdo, depois cego. De repente uma luz muito forte ofuscou minha visão, e aos poucos pude perceber pessoas de branco que andavam de uma lado para o outro e mexiam em mim, não entendia o que diziam, apenas uma frase:
- Ele voltou, conseguimos.
Adormeci sem sonhos, e tempo depois acordei numa cama de hospital, agora mais consciente. Percebi que minha mãe estava ao meu lado, chorando.
- Mãe? – chamei.
Ela me olhou, os olhos vermelhos e inchados.
- Filho? Por Deus, você está mesmo vivo! Depois do infarto, achamos que íamos mesmo perder você, os médicos disseram que foi um milagre! Graças à sua governanta que voltou a noite para falar com o senhor, e o encontrou desacordado no corredor.
“No corredor?” pensei, então nem mesmo cheguei a deitar na cama e dormir? Mas e minha mãe? Apesar de tudo ela estava ali, apesar de todas as mágoas, ela veio rezar por mim.
- Mãe, me perdoe por tudo que fiz. De hoje em diante serei bem melhor. Eu voltei, Deus me deu a chance de voltar, para reparar meus erros.
Choramos juntos, de alegria.

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7 comentários:

  1. Gostei do texto, embora eu seja muito reticente a textos religiosos e envolvendo redenções baseadas em crenças divinas.

    Correções:
    Um sequestro, é claro! Afinal eu era um empresário muito rico, o que mais poderia ser.
    - o que mais poderia ser, é uma pergunta, então cabe um ponto de interrogação...

    Porque eu, porque?
    Por que eu? Porquê? (regrinha dos porquês, depois de mando em pvt ;-)

    o fogo bruxuleante. - Se era uma vela, o fogo que está no pavio, tem um nome em específico, é CHAMA... Deixe para usar "Fogo" com extensões maiores de fogo/calor.

    "Ele não sabia que eu me tornaria tão arrogante"
    Aqui existe uma incoerência de idéias. Todas as crenças divinas, são de que Deus sabe de todas as coisas. Passado, presente e futuro, e permite, através do livre arbítrio que as pessoas tomem suas próprias decisões. Sendo assim, ele sabia sim que o personagem tornaria-se arrogante. Porém permitiu que isso acontecesse para que ele tivesse sua lição.

    "...nem mesmo cheguei a deitar na cama e dormir, aquilo fora um sonho."
    Outra incoerência... Se ele nem chegou a dormir, como pôde ser um sonho? E pelo decorrer da história, ficou com cara de experiência quase-morte...

    Trechos interessantes!
    "Eu estava, afinal, num lugar escuro, mas poderia ser pior, se não tivesse aquela pequena luz da vela ali, e eu tentava não endoidecer." - OLHA O JOGO DO CONTENTE AÍ, GENTE!!!!

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  2. Dê, adorei a história... o texto ficou bem dramático! Ele transmite desespero e mantém o mistério, não dá pra saber que é uma experiencia quase morte até ele acordar no hospital. O encaixe da música ficou muito boa, com outras vozes cantando, deu uma aura bem mística a cena. Adorei a idéia como um todo. Que bom que ele teve uma segunda chance. Muito bom, Dê, parabéns!

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  3. Um texto bem interessante Olhos. O começo parecia bem previsível, tipo: um homem rico e arrogante que não se importa com ninguém...e quando ele acorda acorrentado já estava bem claro que aquilo poderia ser a chance de sua redenção. Mas você conduziu o sofrimento dele com bastante destreza e puxou a curiosidade do leitor para o que viria a seguir. A música realmente parece uma espécie de "acordar para a vida" e vc encaixou-a muito bem.
    Parabéns! Gostei bastante da história.

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  4. Ficou lindo e, realmente, é uma lição. Ficou ótimo, adorei! :D

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  5. "Não se pode servir a dois senhores. Ou servimos a Deus, ou servimos a Mamom (dinheiro)" - Acho que essa frase sintetiza bem o seu texto. :-)

    Jogando o jogo do contente, hem?
    "Eu estava, afinal, num lugar escuro, mas poderia ser pior, se não tivesse aquela pequena luz da vela ali, e eu tentava não endoidecer."

    Achei o texto bem legal, por ele ter tido uma segunda chance. Nem sempre temos uma.

    Quantas pessoas vagam no umbral querendo voltar e não conseguem? Tem que se se arrepender, ser resgatado, se recuperar na colônia, esperar uma chance pra reencarnar... e ainda volta sem lembrar de nada! Correndo o risco de errar tudo de novo! Que merda, né??? Manoel voltou lembrando de tudo e totalmente motivado a mudar. A chance dele acertar é maior do que a nossa, que estamos aqui às cegas, nos perguntando qual o grande objetivo das nossas vidas.

    Já vi muitas reportagens de experiências de quase-morte que mudam a vida de uma pessoa. Ótimo tema e bem desenvolvido.

    Ok, esse meu comentário ficou meio filosófico demais... vou parando por aqui, rs.

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