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Desafio de Halloween by Marcinha

Posted by Marcinha on 31 de outubro de 2013 06:00 in , , , , , ,
Olá leitores e Retalhenses!
Fizemos um espécie de sorteio entre as autoras do blog, para que cada uma de nós fosse desafiada por uma companheira. E minha desafiante foi a Paty Deuner! As cinco palavras com as quais ela me desafiou foram:

trambiqueira 
jumento
algar 
vassoura
ora-pro-nobis

A titulo de explicação (pois eu não sabia, e calculo que meu leitor também possa não saber), algar é um espécie de cova profunda, um abismo, um cratera (http://www.dicionarioinformal.com.br/algar/) e ora-pro-nobis é um erva, muito usada na culinária mineira ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Ora-pro-nobis).

Obrigada, Paty, querida! Pelo desafio e pela ajuda com as palavrinhas difíceis!

E... vamos ao texto!


Má Sorte

Sentada sobre uma sepultura, vestindo uma fantasia improvisada para a Noite das Bruxas, ela se sentia simplesmente ridícula. Há muito reivindicava à família um tempo só para si, para fugir da rotinha, algumas poucas horas para ser apenas Dilza Tomazoni... na verdade para resgatar quem era ela. Sentia-se tão perdida, soterrada em sua rotina de cuidados e responsabilidades com os outros que julgava não mais saber quem ela era, nem do que ainda gostava. Escolhera a noite do Dia das Bruxas para se dar o direito a um pouco de divertimento, como boa fã de Anne Rice e Tim Burton e de toda atmosfera gótica. Mas seu intento não estava dando muito certo.

Suspirou enquanto olhava novamente para o vestido negro, o chapéu pontudo de cartolina que improvisara e a vassoura de piaçava que trazia consigo. Naqueles trajes já saiu de casa sentindo-se tão envergonhada que não chegara muito longe. E lá estava agora, sentada no cemitério, meditando entre a possibilidade de voltar derrotada para casa ou esperar por ali e ver se algo acontecia. Se um grupo de jovens aparecesse por lá e resolvesse fazer uma pequena bagunça ali perto, ela pelo menos veria algo e sua noite não seria totalmente em vão. 

"Um grupo de jovens", pensou com amargura. Só depois de formular esse pensamento, se dera conta do quanto um grupo de jovens era algo tão distante para ela. "Eu só tenho 22 anos", refletiu. "Quando me tornei velha dessa forma como me sinto agora?"

Pensou no marido, e no quanto ele havia mudado no pouco tempo juntos. De um parceiro atencioso e solícito, ele se transformara em alguém distante, quase um estranho, por vezes até cruel. Pensou em seu bebê, uma inocente alma dependente dela, mas que colaborava em muito para o estresse que já sentia. Pensou nos pais, dos quais sempre esperava um mínimo de aprovação, embora recebesse apenas reprimendas e críticas. Sentiu o peso da incompreensão, da falta de condescendência e colaboração, da falta até mesmo de uma palavra amiga. Sentiu os olhos arderem, no momento em que lutava para conter as primeiras lágrimas. 

Olhou em volta, tentando se distrair. Reparou pela primeira vez que, de uma árvore um pouco distante, um líquido escorria como seiva e brilhava refletindo a pouca luz da noite. As várias gotas reluziam como pequenos diamantes, de modo tão insistente para a pouca luz do local, que ela terminou por se levantar para olhar mais de perto. Examinou os entalhes no tronco, de onde a seiva escorria. Era uma inscrição, entalhada com uma lâmina, talvez um canivete. Parecia recente, e era óbvio que se tratava de uma travessura de Dia das Bruxas. A quadrinha, bastante pueril, dizia:

"Que a má sorte me abençoe!", três vezes repita;
Na Noite das Bruxas, se o medo, antes, vencer.
Se invocada três vezes, mesmo por quem não acredita,
Sua demônia-madrinha há de aparecer.

Olhou em volta, na vã esperança de ainda encontrar o adolescente que grafara aquelas letras. "Que bobeira", falou para si mesma. Mas já começava a rir com os devaneios que passavam por sua mente. "Um conto de fadas gótico; já pensou? Uma fada madrinha perversa, com um tridente e chifres. E que desejos concederia? Algo profano, com certeza. Que idéia absurda."

Releu a mensagem e, num ímpeto, resolveu que faria uma loucura. Sim, queria fazer uma loucura! Faria a invocação, três vezes. Ou nada aconteceria e ela riria a valer, ou então estaria ferrada de verdade.

- Que a má sorte me abençoe! Que a má sorte me abençoe!! Que a má soooorte me abençoeeee!!! - gritou para cemitério, a plenos pulmões.

Nada aconteceu.

Esperou um pouco mais, sentindo-se quase tonta pelo que acabara de fazer. Seu coração estava acelerado, e sua mente oscilava entre o alívio e a decepção.

Encarando a árvore, releu a mensagem mais duas vezes, como se tentasse entender o que dera errado. Mas quando percebeu seu pensamento, sentiu-se uma perfeita idiota. Virou-se num rompante para ir embora, e quase colidiu com uma mulher alta que estava de pé silenciosamente atrás dela.

- Olá, meu bem. - saudou-a a estranha.

Dilza recuou tão rápido que bateu de costas na árvore, e ali ficou paralisada a apenas dois passos da mulher. Sentia-se congelar de medo, enquanto avaliava a intrusa à sua frente. Além de alta, tinha um corpo sólido, e vestia preto da cabeça aos pés. Cabelos negros e muito lisos lhe escorriam pelos ombros e cessavam abaixo da cintura. Tinha um sorriso convidativo, mas seus olhos não sorriam... ao contrário, perscrutavam Dilza com a astúcia de um felino. Apesar do tom de voz amistoso que a recém chegada usara, havia uma advertência pungente em seu coração.

- Quem é você? - foi uma pergunta-clichê, mas num momento de total desamparo, não lhe ocorrera nada melhor.

A mulher de cabelos negros apontou para a árvore atrás dela, como se a resposta fosse óbvia. Sorrindo, afirmou:

- Sou sua demônia-madrinha.

- Xessuisss... 

- Bem, se era esse que você esperava, devia ter usado outra invocação. - comentou, enquanto conferia a aparência das próprias unhas de modo displicente. - Mas, vamos ao que interessa. Em que posso ajudá-la, meu bem?

- Em nada! Eu... eu não preciso de ajuda. Está tudo perfeito na minha vida! Além do mais... - ela tomou coragem, e disse num só fôlego - Não acredito que seja quem diz.

- Meu amor, eu não estaria em um cemitério na noite do Halloween, aproximando-me de você como uma autêntica aparição, se eu fosse apenas uma trambiqueira. Concorda comigo?

Dilza chegou a abrir a boca para dizer algo por duas vezes, mas não tinha argumentos. E começava a sentir medo de verdade.

- Escute, eu preciso ir. Está tarde...

- Me diga como está sua vida "perfeita", e eu a deixo ir. Aliás, eu adorei a ênfase, foi muito convincente. - satirizou a demônia.

- Por favor... - ela implorou - Eu preciso ir. Meu marido vai ficar uma fera se eu demorar demais...

- Aquele jumento pode perfeitamente tomar conta de um bebê que dorme como um anjo por alguns minutos a mais. Seu bebê está dormindo a sono solto agora e seu marido está navegando no computador, aparentemente calminho e bem entretido por sinal. Sim, eu posso vê-los, e estou lhe dando minha palavra sobrenatural de que está tudo bem na sua casa. Agora, me conte.

- Não quero lhe contar nada. - Dilza afirmou, a voz baixa como um lamento, as lágrimas começando a irromper novamente.

- Mas precisa. - a demônia abaixou o tronco levemente, para que seus olhos ficassem na altura do olhar de Dilza, e a segurou de leve pelos braços, como se conversasse com uma criança - Você me invocou em um momento de angústia, imersa em tanto pesar que "fazer uma loucura" parecia valer a pena. Você pediu ajuda. Deixe-me ajudá-la. - a demônia se ergueu novamente, e a enlaçou pelos ombros, trazendo-a para si num abraço protetor. - Eu quero ajudá-la. Deixe-me ajudá-la.

Dilza abraçou de volta a mulher que a acolhia da forma como ela tanto precisava. As lágrimas rolavam enquanto ela contava por alto sobre alguns dos problemas mais brandos com seus pais e com seu marido. Achou que contar apenas um pouco, sem devassar tanto a sua intimidade, seria o bastante para que a misteriosa mulher parasse de insistir. Mas, uma vez tendo começado seu relato, foi como se uma represa se rompesse.  A pobre jovem falava sem parar, contando várias histórias dolorosas para ela, enquanto o choro só aumentava e aumentava. Houve um momento em que as palavras não podiam mais ser entendidas, e ela chorava emitindo um som contínuo, quase como se uivasse de dor. Engasgou-se algumas vezes, de tão estrangulada que estava a garganta, por toda a mágoa que a oprimia. Então passou um bom tempo calada, apenas soluçando em meio ao seu choro convulsivo, abraçada àquela mulher alta como se agarrasse sua tábua de salvação. A demônia apenas a acalentou, afagando os cabelos loiros e curtos da jovem mulher em seus braços... esperando.

Quando finalmente Dilza pareceu se acalmar, a demônia segurou seu rosto entre as mãos, um rosto vermelho que mais parecia o de uma boneca de porcelana recém-cozida. Secou-lhe as lágrimas e beijou os olhos inchados pelo choro com delicadeza.

- Eu posso te ajudar. Eu posso realmente te ajudar, e você verá que os problemas com aqueles que você ama serão todos resolvidos. Eu só preciso que você peça. Diga que quer a minha ajuda, meu bem. Você só precisa dizer.

Dilza estava completamente consciente de tudo o que acontecia. A demônia não a encantara, apenas a convencera com palavras e afeto. Tudo o mais se esvaziava de sua mente, como se fossem coisas tão distantes. "Todos os problemas com aqueles que você ama serão resolvidos". Era tudo o que Dilza desejava, tudo o que fazia sentido naquele momento.

- Diga que quer que eu a ajude. - repetiu a demônia.

- Eu quero sua ajuda. - Dilza afirmou, sem pensar duas vezes.






A demônia tirou de um bolso um ramo de erva ainda verdejante que Dilza reconheceu como sendo ora-pro-nobis, e debulhou algumas folhas, macerando-as em seguida entre as palmas das mãos. Então, segurou um dos pulsos de Dilza e, com habilidade e rapidez, usou um anel para fazer um diminuto corte na pele da loira. Quando esta protestou, a demônia justificou-se, divertida: 

- Hoje é dia das Bruxas, e um pacto em grande estilo tem de ter sangue!

Então misturou algumas gotas do sangue de Dilza com as ervas maceradas. Usou a mistura para escrever dois X com a ponta do indicador, um na testa de Dilza, outro na sua própria. No momento seguinte a mistura de ervas e sangue desapareceu de suas testas e das mãos da demônia, sendo completamente absorvida pela pele.

- Está selado nosso pacto. A parte fundamental da magia já está em andamento, para resolver suas aflições. A segunda parte do pacto é que estarei sempre com você, lhe ajudando a resolver seus problemas com eles, para que tudo se resolva de uma maneira mais branda. Mas, de um modo ou de outro, nenhuma das pessoas que te afligem te incomodará por muito tempo.

Estas últimas frases foram preocupantes. Dilza começou a sentir o peso de sua imprudência, de ter aceitado ajuda sem saber exatamente em que termos essa ajuda viria. Estava completamente apreensiva quando perguntou, articulando as palavras lentamente:

- O que acontece a seguir? Que parte da magia já está em andamento? 

- Como poderei explicar? Bem, é simples. Estão todos amaldiçoados, condenados a morte a partir desse instante, todos aqueles que a fazem sofrer hoje e qualquer outro que vier a fazê-la sofrer no futuro. Terão apenas um ano de vida caso não parem de te atormentar.

Dilza caiu de joelhos no chão do cemitério, sem forças nem mesmo para respirar normalmente. Seu coração acelerara de tal maneira que ela pensou por um instante que fosse morrer. Sentia-se como estivesse se equilibrando na borda de um algar, e a tivessem empurrado em queda livre nesse momento.

- Como?... morrer... amaldiçoados... - a respiração se tornava cada vez mais curta e rápida - Eu vou perder todos? Todos vão morrer, é isso que está me dizendo?! - ela gritava agora, beirando a histeria.

- Ei! se acalme. - ordenou a demônia, de modo autoritário, tentando conter o crescente descontrole da jovem ofegante, jogada ao chão - A maldição é real, e isto já está feito. Mas é um plano B. O plano A é que você se entenda com eles nesse espaço de um ano. E nisso eu irei ajudá-la. Estarei sempre com você, e apenas você poderá me ver, eles não. Vou aconselhá-la momento a momento, em cada embate, em cada discussão. Juntas, faremos com que você se imponha, que trace limites, que argumente com eles de igual para igual. Se tiver sucesso nessa empreitada, eles respeitarão e amarão você, as brigas se transformarão em diálogos onde as pessoas conversam sem se agredir, reivindicam sem se acusarem, falam e não gritam, se solidarizam em vez de atribuir culpas.

- Eu não posso fazer isso. Eu não sei me impor. Eu não vou conseguir. - a loira balançava a cabeça em negativa, e chorava copiosamente, já derrotada por seu infortúnio.

- Vai conseguir se os ama, pois a sobrevivência deles agora depende inteiramente da sua mudança de atitude. - afirmou a demônia, muito séria - Ou vai se acovardar e se livrar do problema do modo mais fácil? Todos eles morrem e param de te aborrecer; não deixa de ser uma saída.

- Mas eu não quero que morram; eu os amo! – Dilza gritou, em desespero.

- Prove! - ordenou a demônia, e tinha um olhar tão severo que a fez calar-se - Prove que os ama e os quer. Lapide-se! Mude! Por eles! Por você mesma!

- Eu não sei fazer... não sei como...

- Eu vou te ajudar. - afirmou a demônia com plena convicção.

- Você jura?

- Eu juro, meu bem. Juro pelo meu coração negro e eterno. Vamos fazer isso dar certo.

Dilza pensou por um momento, ponderando se devia fazer uma última pergunta.

- Você os condenou a morte por que é uma demônia? Sente algum prazer em fazer isso?

- Condenei-os por que uma calamidade foi a única forma de tirar você da inércia. Você estava acomodada e conformada. Sentindo-se vítima das fatalidades, com pena de si mesma. Preciso fazê-la agir de modo tão intenso, por que não há tempo para pensar; um ano é um espaço curto de tempo para curar cicatrizes de vários anos. É tudo ou nada. Ou você se dedica a conservá-los, impondo a eles seu desejo de construir um relacionamento saudável, ou os perderá. É com você.

- Eu vou me dedicar.

- E eu desejo que você tenha sucesso. E farei tudo que puder por você, meu bem.

A demônia tomou a mão da loira e, de mãos dadas, elas caminharam para a casa de Dilza.






Dilza entrou em casa, com a demônia atrás de si, logo após esta ter repetido que não podia ser vista por mais ninguém. Avançou até a sala, onde o marido ainda navegava no computador, com vários lenços de papel usados e amassados ao seu lado.

- Aonde estava até essa hora?! - ele indagou rispidamente, e logo teve outra crise de tosse, que só cessou quando ele cuspiu mais um bocado de sangue em um novo lenço de papel - Você devia estar em casa, cuidando da sua família. Não vê que fiquei doente esta noite? Em vez de ter uma mulher em casa para cuidar de mim, você zanzava pela rua, negligenciando suas obrigações...

Dilza sentia o sangue inflamar dentro dela numa fração de segundo. Mas que droga, nunca tinha tempo pra si mesma, sem que fosse acusada e cobrada por isso. Começava a sentir-se injustiçada e diminuída, e já ia começar a protestar e chamá-lo de egoísta, e a chorar como de costume.

- Não grite e não se abale. - ordenou a demônia - Responda com calma e convicção, ok? Como você se sente? Diga a ele. Mas esqueça as mágoas. Argumente, converse. – sua expressão era de fé e encorajamento – Vá em frente.

Dilza olhou a demônia por um momento, o que para seu marido pareceu apenas um olhar perdido. Sentiu que pela primeira vez alguém apostava nela, de verdade. Então tomou fôlego e disse ao marido: 

- Bernardo, estamos todos cansados, eu e você. E você visivelmente precisa de descanso e cuidados agora. Vamos pra cama, sim? Por favor? Amanhã conversamos.

- Excelente. - encorajou-a a demônia.

Bernardo parecia atordoado, pois era a primeira vez que sua mulher se dirigia a ele nesse tom, firme e conciliador ao mesmo tempo. Chegou a pensar em retrucar, mas sentia as costas doerem pela tosse súbita e insistente que o castigara a noite toda. Resolveu apenas levantar-se em silêncio, e acompanhá-la até o quarto.

- Isso, amor, vamos dormir. - afirmou Dilza, enquanto o conduzia para o quarto, sentindo-se mais confiante. - Amanhã conversaremos. Aliás, amanhã teremos muita coisa mesmo o que conversar.



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Desafio duplo respondido!

Posted by Unknown on 29 de janeiro de 2013 06:00 in , , , ,
Resposta ao desafio das 5 frases e de imagem.
Frases:

Me dá só um momento que estou tentando pensar!
O brilho do aço cruzou o céu como um relâmpago.
Não dava para entender nada do que ele dizia.
A boa música sempre faz milagres.
E crescia cada vez mais.

Imgem:

A Maldição da Faia

Quando António Augusto decidiu construir seu palácio, o Palácio e Quinta da Regaleira*, há uma centena de anos atrás, imaginou que muitas histórias se passariam ali. Histórias místicas, dotadas de personagens corajosos, até sobrenaturais. Mas nunca imaginou que uma história com esta poderia acontecer em seu palácio...
Joanah e Jonas eram irmãos gêmeos. No auge de seus dezesseis anos, ambos tinham corpos atléticos e eram ruivos. Seus pais eram Irlandeses, mas fugiram de sua terra natal assim que os gêmeos nasceram, pois devido a uma maldição, o povo unanime, desejava a morte das crianças. Puseram-se em um navio e foram parar em Portugal, um pais de língua e costumes diferentes, e desde então vinham tentando viver em paz ali.
A casa humilde ficava nos arredores de Braga, numa vila pacata chamada Vila Verde. Os pais trabalhavam num mercadinho de alimentos e os gêmeos cresceram sem nunca frequentar uma escola, pois a família não tinha dinheiro para pagar uma. As crianças tinham uma dificuldade enorme para aprender a ler e escrever, então os pais teriam que pagar uma escola especial para eles, e sem o dinheiro necessário os gêmeos cresceram sem serem alfabetizados.
Mas apesar desse pequeno problema, tudo fluía bem. Mal sabiam eles que, mesmo não estando em sua terra natal, a maldição se realizava.
Ao nascer os filhos gêmeos ruivos de uma gêmea ruiva nascida em Cork, a árvore da discórdia nasceria. A árvore da discórdia era uma faia**, cujos frutos eram castanhas que cresciam envoltas em uma bolota de espinhos. A diferença é que nessa faia específica, sua bolotas eram de um vermelho vivo, muito chamativas.
Tudo não passava de uma desavença muito antiga. Havia em Cork uma bruxa, ela não fazia mal a ninguém, mas ela adorava essas castanhas específicas, mas a árvore é um tanto rara e havia apenas uma pessoa que ela conhecia que tinha em seu quintal uma árvore dessas. Era uma mulher ruiva e que tinha um irmão gêmeo. A bruxa sempre ia até a casa da mulher pedir-lhe castanhas, e esta nunca lhe dava uma sequer.
A mulher teve dois filhos, também gêmeos, e tentou ensinar-lhes a odiar a bruxa. A bruxa, que era muito boa de coração, sabia que não era culpa das crianças que sua mãe tivesse esse preconceito com ela, e começou a tentar se aproximar das crianças, trazia-lhes presentes que fazia, roupas, brinquedos de madeira e pães, e as crianças começaram a sentir a gentileza da bruxa.
Um dia contaram a sua mãe que a bruxa lhes visitava e que era uma mulher muito boa, pediram que ela não tivesse mais preconceito. A mulher, irada, foi até a casa da bruxa, que estava sob a luz do luar fazendo uma oração ao lado de uma pedra-altar em seu jardim. O brilho do aço cruzou o céu como um relampado, e sem aviso nenhum a mulher enfiou  uma faca em seu peito, dizendo que ela deveria pagar com seu sangue por ter se aproximado e encantado seus filhos com bruxaria.
A bruxa, que até então tinha feito tudo de bom coração, nunca cometera uma ato de maldade e tentava ao máximo não usar seus poderes se não fosse para ajudar o próximo, ficou extremamente irada e magoada com a atitude da mulher em querer sua morte.
Nos segundos em que ainda suspirava para a morte e esvaia-se em sangue, lançou uma maldição: sempre que filhos gêmeos ruivos nascessem de uma gêmea ruiva, uma arvore da discórdia nasceria para cada um deles, e a cada ano que completassem mais uma arvore nasceria em algum lugar, e a única forma de acabar com a maldição viria do coração dos gêmeos.
Quando finalmente morreu seu sangue irrigou a terra e ali mesmo no outro dia via-se uma árvore grande e cheia de frutos. As pessoas começaram a colher seus frutos, mas cada uma que tocava em algum fruto ou na árvore em si, era dominado por uma ira incontrolável, e começava a brigar com qualquer um que estivesse em sua frente. Quem se espetasse com os espinhos do  fruto causaria repulsa nas outras pessoas e teria que viver sozinho pelo resto da vida, sofrendo um preconceito inexplicável. Já quem conseguisse comer o fruto adoeceria e teria uma morte lenta.
Aquela foi a primeira árvore, para que todos soubessem que a maldição era verdadeira, e muitos tentaram cortar a árvore, mata-la, mas só crescia e crescia cada vez mais. Desde então o povo começou a caçar todo filho gêmeo oriundo de uma gêmea já ao nascer, para que não se espalhassem muitas árvores dessas pela cidade. Sendo assim haviam apenas umas quatro delas, de quatro crianças que nasceram e foram tiradas dos seus pais e mortas com facadas no coração, mas suas árvores continuavam crescendo fortes e belas.
Os moradores as cercavam e colocavam placas impedindo o acesso às árvores, mas sempre tinham alguns que ignoravam a maldição e se aventuravam a tentar pegar seus frutos, que eram extremamente mais vistosos que qualquer outro.
Os pais de Joanah e Jonas acreditavam que se tirassem as crianças de sua terra natal a maldição não prosseguiria, e só no aniversário de 16 anos dos gêmeos, quando ao amanhecer, encontraram uma faia enorme bem no meio do quintal, que crescera da noite para o dia ali mesmo, em Portugal, e já dava frutos, é que perceberam que o esforço fora em vão. A maldição prevalecia e tinha alcançado a eles.
Os pais avisaram aos filhos que jamais tocassem em qualquer coisa oriunda daquela árvore, e quando os filhos pediram explicações o pai, Mathews, começou a xingar e dizer pragas em português, inglês e até numa língua um pouco mais antiga, não dava para entender nada do que ele dizia. A mulher, Alicia, tentou em vão controlar e acalmar o marido, que de tão irado que estava com a maldição, sofreu um infarto e morreu ali, na frente da família.
Os filhos deixaram passar apenas dois dias do enterro do pai, e inconformados que estavam, pediram a mãe uma explicação plausível sobre o que realmente estava acontecendo, e esta lhes contou tudo sobre a maldição, e disse-lhes que a essa altura já deveriam ter outras 31 árvores espalhadas pela Irlanda (considerando que não tivesse nascido mais nenhum gêmeo), e que o país deveria estar em guerra e muito debilitado, se muitas pessoas já estivessem tocado em seus frutos até então.
Os gêmeos pensaram, pensaram, e chegaram a conclusão que um deveria matar o outro, com uma facada no coração, para que a maldição acabasse. Por sorte a mãe descobriu o plano antes que se completasse, acabando com a burrada dos dois.
- Ora, e vocês acham que mataram os nenês gêmeos como? Isso não resolve, a solução tem que ser outra. – ela disse, e concluiu. – Sei de um lugar não muito longe daqui, e mesmo que tenha sido construído aqui, faz parte da cultura do nosso povo. Lá talvez vocês encontrem a resposta.
E a mãe levou-os numa viagem até Quinta da Regalia, um lugar muito, mas muito misterioso e lindo. E lá deixou-os, eles deveriam seguir sozinhos pelo poço iniciático, para ter as revelações de que precisavam, pelo menos era nisso que a mãe acreditava.
E eles desceram por uma imensa escadaria em espiral, imaginando que aquela descida não acabaria nunca, e quando finalmente chegaram ao chão pisaram em uma estrela de oito pontas, simbolizando a perfeição e o poder da Mãe Terra, e ali sentiram um poder gigantesco repuxar cada membro de seus corpos.
Seguiram então pelos corredores labirínticos e escuros, que eram o caminho de volta para a superfície, ambos totalmente calados, cada um sentindo dentro de si como se fossem mais poderosos, mas sábios. Mas ainda não haviam encontrado a solução.
Jonas então parou, no meio daquela escuridão, e desabou exausto no chão úmido. A irmã tentou levantá-lo pelo braço, também estava exausta, mas sentia que a resposta estava muito perto.
- Me dá só um momento que estou tentando pensar! – Jonas a repreendeu, angustiado.
- Não pense, - Joanah respondeu. – lembre da maldição e siga apenas o seu coração, esqueça os pensamentos.
Jonas suspirou e com muito esforço se pôs em pé e voltaram a caminhar. Agora, tentando se concentrar em seus sentidos, também sentiu a força que Joanah estava sentindo, caminharam as escuras sentindo aquela força até uma parede, sentiam a força vindo dali, mas não encontravam porta alguma. Joanah, levada por seus sentimentos, começou então a tatear a parede e uma porta secreta se abriu, entraram, mas num primeiro momento não viram nada além de mais escuridão e ouviram o baque da porta fechando-se atrás deles.
Só então perceberam algo brilhando em meio a escuridão. Aproximaram-se, era um linda harpa dourada. Primeiro os dois olharam maravilhados para o instrumento, e então, sem aviso nenhum, Jonas (que nunca havia tocado nenhum instrumento em sua vida) começou a dedilhar a harpa e uma melodia muito linda surgiu. Ele tocava freneticamente e Joanah, por instinto,  começou a cantar em uma língua muito antiga, que só em seu coração entendia o que dizia a musica. Era uma bela musica de amor e reconciliação.
De repente não estavam mais no meio das pedras e da escuridão, estavam de volta à frente do Palácio, ao lado de Alicia, tocando. Uma lágrima escorreu dos olhos da mãe e eles pararam.
Conversaram por pouco tempo, os irmãos contando-lhe o que haviam descoberto, eles tinham o dom para a musica, e aquela harpa era um presente mágico, provavelmente se outros gêmeos estivessem vivido encontrariam a harpa em qualquer outro lugar, enquanto seguiam seu caminho de sabedoria. Disseram à mãe que voltariam à terra natal e acabariam com a maldição, a mãe temeu por seus filhos, mas em seu coração sabia que eles conseguiriam.
Quando lá chegaram, a Irlanda estava realmente tomada por conflitos e mortes, e quando o povo mais antigo viu os gêmeos, na hora souberam que eram os que fugiram, e vieram até eles prontos para mata-los, com ódio nos olhares. Os gêmeos rapidamente começaram a tocar e cantar, e as pessoas que antes estavam tomadas pelo ódio, começaram a dançar alegremente.
Os gêmeos continuaram a tocar, e por todo lugar que passavam as pessoas ficavam alegres e se abraçavam, ou dançavam.
Quando chegaram então a árvore da discórdia mais antiga, a primeira, puseram-se a cantar mais freneticamente. A árvore começou a chacoalhar-se, seus galhos pareciam ter vida, e de um vermelho vivo ela começou a se transformar num verde maravilhoso, um verde alegre.
Ao terminar a canção, os gêmeos foram os primeiros a colher, cada um, um fruto da árvore, e comeram. Nada aconteceu, a castanha estava doce e maravilhosa. A maldição tinha acabado e todas as árvores antes malditas, agora davam frutos maravilhosos.
- Papai sempre dizia, a boa música faz milagre. – Jonas disse, e os dois se puseram a rir aliviados.

*A Quinta da Regalia fica em Sintra, Portugal. Para saber mas clique http://www.cm-sintra.pt/Artigo.aspx?ID=2907
**Faia é um nome dado para várias árvores, a que escolhi para o texto é popularmente conhecida como castanha portuguesa. Visualize-a clicando aqui (antes) e (depois) Aqui




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