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Desafio da Semana das Crianças

Posted by Kbeça on 27 de outubro de 2012 08:00 in , ,
Eu entre 3 e 4 anos.

Em algum lugar eu li uma frase muito interessante que era "só se descobre o quanto somos fortes, quando a nossa única opção é ser forte". E é sobre isso que se trata a minha lembrança.

Quando eu era pequeno, por volta dos seis anos de idade, minha mãe fazia fisioterapia nas mãos, pois tinha operado o Túnel do Carpo. Para irmos da nossa casa até o hospital viajávamos vinte quilômetros.

Por eu ser muito pequeno, minha mãe entrava pela porta de trás do ônibus, onde tinha a roleta e o cobrador, e eu entrava pela porta da frente. O ônibus que pegávamos, tanto na ida, quanto na volta, era o 474. Ele era verde e branco com detalhes laranja.

Pois bem. Um dia, como todos os outros, fomos para o hospital e na volta fazia muito calor e o sol estava forte. Eu já estava mais que cansado de ficar em pé no sol esperando pelo ônibus e devia estar reclamando muito disso. No que minha mãe grita:
- É ele! Vamos! - E ela correu para a parte de trás do ônibus;

Eu olhei para cima e vi um ônibus vermelho e branco de número 435. Como minha mãe já tinha corrido eu ainda gritei:
- É esse?
- É! Anda!

E entrei pela porta da frente, me sentei e fiquei esperando por ela passar pela roleta. O problema foi: ela não passou E (maiúsculo mesmo) o ônibus começou a andar.

Não me recordo se comecei a gritar "Mãe!", ou "Cadê a minha mãe?", mas um casal de velhinhos me agarrou pelo braço e me mandou ficar "sentadinho e quietinho". Eu ainda expliquei que tinha perdido a minha mãe, mas eles insistiam. O medo foi crescendo e uma voz na minha cabeça me mandava fugir dali. Sendo assim, na primeira parada que o ônibus deu, eu saí correndo para a rua e, depois de estar fora, no sentido contrário que o ônibus trafegou. Não precisei ir muito longe para me afastar do mesmo, porque ele começou a andar no instante que eu desci.

Me vi sozinho num lugar estranho para mim. Olhei a minha volta e vi umas crianças de rua e comecei a pensar que, em breve, eu seria mais uma. Óbvio, eu comecei a chorar. Imaginei nunca mais ver a minha mãe, nunca mais ver meu pai, meus avós, meus amigos... E mais uma vez a voz na minha cabeça falou. Mas, desta vez, ela pedia calma e mandava voltar.

Olhei para rua e vi um túnel. Eu lembrava que o ônibus havia passado por dois túneis depois que saiu da porta do hospital. Comecei a andar na direção dele. Passei o primeiro e continuei andando.

Encontrei um gari lendo uma revista na rua e fui pedir informações da localização do hospital.

Quando me aproximei ele levou um tremendo susto. Motivo: ele estava "lendo" a Playboy.

Perguntei como chegar no hospital e ele me indicou, mas dizendo que era muito longe para ir à pé era perigoso para uma criança do meu tamanho. Eu agradeci e comecei a andar. Depois de um tempo, atravessei o segundo túnel. Andei mais um pouco e... Voilá! Cheguei no ponto que tinha partido.

Procurei pela minha mãe, mas nada. Deduzi que ela tinha ido para casa. Então decidi ir também e encontrar com ela lá. Esperei pelo 474. Fiz sinal (naquela época eles paravam). Perguntei ao motorista se era 474, se ia para o meu bairro e, depois de confirmar, entrei.

Daqui para frente eu só lembro de flashes: cheguei em casa e perguntei para minha avó onde estava a minha mãe e ela falou que tinha ido me procurar. Pedi para ela avisar a minha mãe, quando chegasse, que eu estava em casa e fui brincar na rua.

Depois de um tempo, voltei para casa e no momento que estava voltando, minha mãe estava entrando com uma vizinha chorando e falando alto que tinha perdido o filho.

Eu fui andando atrás delas falando "mãe!", mas ela estava se lamentando tão alto que não me ouvia. E a vizinha, dona Marlene, ia dizendo "Calma, calma. Ele vai aparecer!". Depois de as seguir por um tempo, chegamos a porta da minha casa e quando a minha mãe se virou para se despedir da dona Marlene, é que ela percebeu que eu estava ali.

"MEU FILHO!!!" foi o que ela gritou. Por eu estar todo sujo, ela achou que eu passei os piores momentos da minha vida. Me abraçava, me beijava, chorava, ria, agradecia à Deus e perguntava se estava tudo bem.

Quando todos se acalmaram eu contei a história toda e ela ficou aliviada. Depois ficaram impressionados. E a partir daquele dia, eu ia e voltava da escola sozinho. :)

Bom é isso. Tenho outras lembranças, mas essa é a mais forte, e mais longa que eu me lembro. Daquele dia em diante eu aprendi a sempre perguntar as coisas, e prestar atenção no caminho. Hoje eu tenho um ótimo senso de direção, mas não deixo de pedir informações.

"Só se descobre o quanto somos fortes, quando a nossa única opção é ser forte".


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Sherlock Sheldom 02

Posted by Baltazar Escritor on 21 de outubro de 2012 11:30 in , , ,


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Lembranças de uma infância feliz

Posted by Olhos Celestes on 20 de outubro de 2012 11:03 in , , , ,

Resposta ao desafio da Paty, da semana das crianças:


Eu era uma criança aventureira, ou pelo menos assim eu gostava de pensar que era. Meu avós moravam em chácaras e as viagens para lá eram sempre adoráveis e, pra mim, cheias de aventura. Me lembro de muitas coisas da minha infância, tenho uma memória que considero muito boa, mas quero deixar registrado tudo que acontecia nas chácaras, pois acho que é a parte da minha infância que mais sinto falta.

Na chácara da vó Lidia, a mãe do meu pai, não tinha tanta diversão assim, meus pais não me deixavam andar muito lá pelo mato, tinha muita urtiga e o terreno era bem irregular, eles tinham medo que eu caísse no rio ou em algum buraco e ninguém me achasse, pois lá não haviam tios dispostos a fazer uma caminhada pela floresta com os sobrinhos como na outra chácara. Então lá eu ficava mais em terreno aberto, próximo à casa, jogando bola ou simplesmente conversando com primos que eu não gostava muito.

A única grande aventura divertida que tive lá foi quando dois primos mais velhos decidiram que levariam os mais novos para andar no mato e cuidariam deles, então fomos, os dois mais velhos, eu e minha prima mais nova, e até que foi divertido e “aventureiro”. Escalamos o morro pequeno agarrando as árvores, lá em baixo o rio (claro que não era tão alto e o rio não era fundo o suficiente para nos afogarmos, mas quando se tem 7 anos a experiência parece bem mais assustadora), depois atravessamos o rio por cima de um tronco de árvore, e sim, ele estava mesmo a uns 2 metros acima da água, deu medo, e o pior é que minha prima mais nova, que tinha entre 4 e 5 anos, ficou com muito medo e eu tive que atravessar com ela montada nas minhas costas, pois meus primos mais velhos não quiseram ajudar, ficaram rindo da nossa cara. Depois andamos mais um pouco e por um momento nos vimos perdidos, sem saber como voltar para a casa, minha prima começou a chorar e irritar a todos, mas no fim achamos rápido o caminho de volta.

De resto são lembranças meio ruins, como o dia em que peguei meu tio bêbado apontando a arma para meu pai e para meus outros dois tios, eles haviam brigado, ouviu-se um tiro, que graças a deus foi para o alto, e eu corri desesperada para chamar minha mãe e tias. Ou das tantas vezes que meu tio bêbado enfiava o caminhão numa valeta qualquer e fazia o maior drama, fazendo todos pensarem que ele estava morto ou muito machucado. Ou das vezes que ele tentava me agarrar quando eu ainda era uma criança...

Enfim, não estou aqui para contar lembranças ruins afinal de contas. Na chácara da vó Olinda, a mãe da minha mãe, era só alegria! Meu tio Roque sempre levava a gente pra andar no mato, tinha trilhas, era divertido, íamos até a cachoeira, passando por lugares que em época de cheia era um caminho estreitíssimo que de um lado via-se um lamaçal e do outro água e mais água, também dava medo de cair, mas era a aventura que eu sempre buscava. Meu tio Paulo sempre levava a gente para uma volta de carroça, íamos pela estrada até a igreja em época de natal para ver o presépio, íamos pela plantação, atravessávamos o rio com a água entrando pela metade da carroça, eu e meus primos gritávamos.

Umas duas vezes fomos acampar lá, na primeira meu pai fez uma barraca improvisada usando lona de caminhão, da outra tínhamos barracas de verdade. Íamos em época de páscoa posar lá, meu avô (já falecido) contava histórias de terror que me deixavam horas sem dormir, ele também me ensinou a jogar pife, a fazer uma peteca e a usar o estilingue. Uma vez fui passar uma semana lá,  foi minha primeira viagem sem meus pais, fui com  a minha tia, eu tinha 10 anos. Morria de medo de dormir no escuro lá, o quarto era cheio de furos no forro então a luz da lua entrava de um modo assustador, a luz da vela também era assustadora naquelas condições. Fui nas novenas a semana toda, a noite, rezavam em polonês e eu não entendia nada, mas achava lindo. Levava minha lanterna para voltar pela estrada escura, as pessoas da região riam de mim e do meu medo do escuro.

Sempre que íamos para lá eu colhia algumas flores do jardim da minha avó e fazia um vasinho para ela, lá haviam flores lindas. Subia nas árvores, jogava bola, minha avó fazia uma bolacha caseira que eu adorava, e antes de ir embora ela sempre dava uma sacola de bolacha e doces para cada neto levar embora. As lembranças de lá são sempre muito boas, pegar ovos no galinheiro, comer milho cozido, milho assado, virado de feijão, tomar gasosa, comer aquela carne assada fresca do porco ou do boi que acabara de ser morto, e assim vai, pegar frutas direto do pé e sair correndo e gritando quando alguém me dizia que tinha uma taturana na minha roupa (essas lagartas me perseguiam ein!), foi divertido até a vez em que eu sentei num formigueiro e tiveram que tirar toda a minha roupa e eu ainda voltei pra casa cheia de alergia.

São lembranças muito boas, e eu queria muito que minhas avós ainda morassem em chácaras pois as aventuras na natureza eram maravilhosas e mesmo meu irmão não pôde aproveitar isso, minha filha também não vai aproveitar, e assim por diante. Gostaria de voltar àquele tempo só por um dia, para brincar mais!

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Desafio da Semana das Crianças

Posted by Nanda Cris on 19 de outubro de 2012 10:00 in , ,

A Paty nos desafiou para que postássemos um texto em homenagem à Semana das Crianças. Cada membro criaria um texto contando uma história verdadeira de algum fato da sua infância (que se lembre ou que contaram).
Já espremi meu cérebro, pois queria dar um testemunho meu, das minhas lembranças, mas ele não parece querer colaborar com nenhuma estória digna de nota da minha infância, só penso em flashs, então, vai de flashs mesmo.





Me lembro de uma viagem que fizemos, eu e minha mãe, para uma Colônia de férias do BCN (banco em que ela e meu pai trabalharam). A gente acordava e sentia aquele cheiro maravilhoso de café com leite, que até hoje quando eu sinto, me faz lembrar de lá. Aí a gente sentava na mesa e na cestinha tinham 4 pães. Minha mãe comia 2, retirando o miolo. É, mania de gordo, sempre de dieta. Eu comia 1, também tirando o miolo, o adulto faz, a criança copia. E sobrava 1 pão inteiro com vários miolos. Aí a gente saía do refeitório com aquilo embrulhado em um guardanapo e ia até o lago onde os patinhos estavam para jogar o miolo/pão para eles. Era a festa. Ficamos lá por alguns dias, logo todos já estavam fazendo o mesmo, os patos devem ter engordado bastante naquele verão.

Nesta mesma viagem, estávamos na piscina que era bem distante da pousada. Estou contando na perspectiva de uma criança de uns 7, 8 anos, então não sei se era realmente tão distante assim. Mas, enfim, o importante é que, para mim, era bem distante. Do nada, me deu uma vontade louca de ir ao banheiro. Pedi para mamãe para voltar pro quarto, porque eu queria fazer cocô. Ela me disse que eu poderia fazer no banheiro das piscinas, e lá fui eu, desesperada, pro tal banheiro. Chegando lá, era tudo tão molhado e sujo que não pude me obrigar a usar o banheiro, voltei correndo, já trançando as pernas e pedindo por favor, por favor, para voltarmos pro quarto. Ela falou: vai na frente porque não vou poder acompanhar o ritmo. E lá fui eu, correndo descalça pela rua de terra, de biquine, molhada e chorando, porque eu realmente estava nas últimas e não estava conseguindo me segurar. No meio do caminho, sem eu nem mesmo perceber, escapuliu. Chorei ainda mais, corri ainda mais, cheia de vergonha, pensando que o biquine não estava cobrindo a sujeira. Cheguei na recepção e, entre soluços, pedi a chave do quarto. Lá chegando, corri para a pia com a parte de baixo do biquine na mão para poder lavá-la, porque estava com muito medo da minha mãe brigar comigo. Olhei pela janela e vi ela chegando, a cara cheia de preocupação. Eu não conseguia parar de chorar.

Me lembro de um aniversário, eu devia ter uns 3, 4 anos. Minha avó me mostrando um saco enorme de plástico bem abarrotado de coisas dentro. Eu perguntei o que era. Minha avó falou que eram presentes. “Tudo pra mim?” “Sim, minha filha, tudo para você”. “Posso abrir?” “Só no final da festa” Eu não via a hora da festa acabar.

Quando eu era pequena, usei botinha por um bom tempo para corrigir meus pés tortos. Eu pisava para dentro. No colégio tinha um menino, o Dudu, que eu sempre o convencia a fazer o que queria chutando ele com as minhas botinhas. Até o dia que fui fazer isso com outro menino, o Leonardo. Ele me bateu de volta. Eu não chorei. Mas também nunca mais bati no Dudu.

Sempre que eu chegava do colégio, minha irmã corria para o toca-discos e botava Elvis para tocar. Eu queria ouvir Xuxa, mas nunca tinha direito, ela sempre era mais rápida. Cresci ouvindo Elvis e Good Times 98 (um programa de música antiga que tocava na rádio que era o favorito da mamãe). Deve ser daí que provém meu bom gosto musical, rs.

Quando eu chegava do colégio, minha avó botava um prato de comida com arroz, feijão, carne e algum legume. Eu comia tudo, menos o legume. Minha irmã mais velha era responsável por me fazer comer. Ela brigava comigo, me botava de castigo, tudo para me fazer comer o legume que eu sempre deixava no prato. Um dia ela me fez picar sentada em frente ao prato, enquanto eu não comesse o legume não poderia sair. Eu não comi. E demorou muito tempo até ela me liberar, bem contrariada e, com certeza, pensando em outra estratégia.

Minha irmã me pagava para fazer uma parte das tarefas domésticas dela. Exploração infantil total.

Um dia eu pedi uma bicicleta para o Papai Noel e quanto eu cheguei na porta de casa (onde sempre ficavam os presentes), não tinha uma bicicleta, mas um monte de presentes, muitos, muitos mesmo.  Todos baratinhos, mas na época eu só me importava que eram muitos! O que eu mais gostei foi um Snoopy que ensinava a amarrar cadarço, abotoar botão... lembro dele até hoje.

Perguntei para a minha avó o que o Papai Noel comia, já que ele era tão gordo e sempre que ia lá em casa deixar os presentes, não beliscava nada na nossa mesa. E ela me respondeu, numa sacada de mestre, que Papai Noel comia o cheiro da comida. Eu me senti muito importante por ter essa informação confidencial.

Eu brincava dentro do condomínio com um monte de crianças que também moravam lá. Todo dia eu brincava com elas. Eu sempre tinha que subir às 18h, ou seja, quando escurecia. Mas eu não tinha relógio, então minha mãe ficava incumbida de me chamar. Quando começava a escurecer, eu não subia mais pra fazer xixi, nem beber água, e tentava ficar o mais quieta possível, para ver se minha mãe esquecia de mim. Às vezes dava certo, às vezes não.

Lembro do dia em que meu pai me ensinou a soltar pipa.

Ih, são tantas lembranças... eu poderia ficar aqui falando delas o dia todo. Devo admitir, gostei muito da minha infância. Vivi numa família de classe média, cercada de amor, sem grandes traumas.

Agradeço a Deus pela família que Ele me deu.

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Resposta ao desafio da Paty

Posted by Baltazar Escritor on 13 de outubro de 2012 00:01 in , ,

Uma casa de madeira, piso de madeira, paredes de madeira, em que as crianças estavam pensando em comer madeira também, em um terreno de uma tia com outra casa na parte da frente. Muito diferente da casa de madeira, a casa da frente, era branca e feita de tijolos firmes e, em frente da casa branca, você pode imaginar um lindo gramado com arbustos esculpidos pela natureza para parecerem mãos com todos os dedos apontando para o céu, mudas de beijinhos e sempre-vivas recém plantadas. Entre as duas casas tem outro gramado, diferente do gramado da frente, este é cheio de pedras e tem uma casa de cachorro e uma ameixeira e um abacateiro.
Na casa de madeira as crianças ainda estão com fome, a menina mais velha chama os dois menores, ela vai à casa branca, a casa da frente em que mora a tia, eles podiam pedir bolachas pra ela. Pra se chegar à casa da tia tem que subir uma pequena escada de concreto, depois da escada tem um portãozinho branco, a menina tenta abrir o portão. Ela força, respira fundo, empurra, mas percebe que tem um cadeado trancando o caminho. Ela chama a tia, ela não responde, os dois menores chamam também. Tia, tia,tia! A tia não ouve, tem uma música tocando, as crianças não conheciam, não sabiam cantar. Pra piorar a situação de dentro da casa branca vem o inconfundível cheiro de pão assando, pão fresquinho. Três barriguinhas roncam, três boquinhas batem, três pares de olhos choram. Elas chamam de novo, com soluços cortando as palavras. Tia, tia, tia! E novamente ninguém responde. A menina limpa o nariz de baixo pra cima com a palma da mão, depois limpa a mão no vestido rosa desbotado. Os dois menores, ranhentos até não poder mais, vão enxugando a cara com a manga da camisa, os beiços tremendo pra segurar o choro que teima em escorrer.
Eles entram na casa de madeira, com os semblantes caídos e as barriguinhas ainda roncando. Bebem água direto da torneira, isso alivia um pouco, diz a menina, a fome acalma. Os três tentam se distrair, brincam com caixas de papelão e uma ou duas pelúcias encardidas. A fome aperta, a menina lembra de uma coisa, arrasta os dois menores pra fora da casa de madeira, sim, lá atrás da casa de madeira tem um pequeno quintal, é lá que a mãe pega coisas pra comer. No pedaço de terra plantada tem umas mudas de alface e um pouco de cheiro verde. É melhor pegar os menores pra mãe não ficar braba da gente ter comido tudo, diz o do meio. O caçula arranca um pé de cebolinha e enfia na boca ainda com um grânulos de terra, mastiga fazendo uma careta e depois cospe tudo no chão, tinha um gosto bom quando a mãe cozinhava. A menina faz cara de apreensiva e arranca um pé de alface. Puxando os dois menores ela entra na cozinha e deixa o alface dentro da pia, liga a torneira, sacode as folhas verdes uma por uma e as coloca num prato. Vamos comer esse que a mãe não vai fazer falta. Eles comem as folhas com vontade, saboreando cada folha como se fosse a melhor comida do mundo, o que naquele momento era. A tarde passa, apesar da salada a fome ainda persiste. Os três, já cansados de brincar, ouvem a porta se abrir, são os pais voltando do serviço. Os dois estavam com cara de triste.
As crianças pensaram, e era de se imaginar, que os pais estavam tristes por eles terem mexido no quintal. O caçula chora. Desculpa mãe, desculpa pai. Desculpa do que filho? Era muita fome, a gente comeu as folhinhas que a mãe plantou. Não tem problema, a mãe responde com lágrimas escorrendo, tudo bem. O pai vai pro quintal, capinar as plantas com a luz do sol do horário de verão. A mãe vai pra cozinha e tira um embrulho de dentro de uma sacola. Ela coloca o embrulho na mesa e abre. As três crianças espiam pra ver o que é, é um troço verde cheio de pelinhos e com cheiro de fermento. A mãe abre uma gaveta da pia e tira uma faca, vai descascando o troço verde como se fosse uma laranja. As crianças sorriem de orelha a orelha quando vem o que tinha debaixo do troço verde, a mãe termina de cortar fora o bolor, era pão. O caçula se adianta. Mãe, me dá um pedaço? A mãe corta três fatias do pão, dá uma pra cada um, as crianças comem. Mãe, dá mais um? Não posso, ela responde chorando, é pra semana. Ela guarda o pão no armário e leva os três pro banheiro, escova os dentes. Hoje vocês oram, peçam pro papai do céu cuidar da gente.
Se ouvem na noite três améns, de três boquinhas felizes.






Essa, eu acho, é a lembrança mais forte da minha infância. A maior parte do que está escrito não é fiel nos detalhes, queiram me desculpar pois eu era realmente muito novo, mas lembro fortemente de algumas coisas, se pensar bem ainda posso sentir o gosto do pé de cebolinha e do pão embolorado.

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Eu penso...

Posted by Kbeça on 11 de outubro de 2012 08:00 in , , , , , , , ,
Eu penso muito. O tempo todo. Minha cabeça não pára nunca. Os erros que cometi, as pessoas que magoei, as lágrimas que provoquei, os problemas que não resolvi, os males que causei, as vergonhas que passei, inundam a minha mente a todo instante. Antes eu pensava que isso era uma punição, uma maldição até, mas hoje compreendo que é uma certa "benção", pois é o quê me mantém na linha. Todas as vezes que penso em algo ruim do passado e que eu não pude resolver, consertar, ou o que valha, eu me policio e evito um novo incidente.

Avaliando toda a minha vida até o momento não sinto orgulho de nada. E para muitos isso seria uma catástrofe, mas para mim não. O orgulho não é bom. Aliás, corrigindo, sinto orgulho sim de muita coisa, mas um orgulho pelos outros e não de mim, ou por mim.

Uma vez eu hostilizei dois caras, numa praça que eu jogava RPG. Apenas porque os meus "amigos" os hostilizavam. Só que eu levo tudo ao estremo. E neste caso não foi diferente. Chegou o ponto da praça se dividir em quem me apoiava e quem apoiava os caras. Certo dia no meio da inundação pensei "Porra, afinal, por que eu não gosto dos caras? O que eles me fizeram?", e sabe qual foi a minha resposta? Nada! "Nada" foi resposta. Os caras não me fizeram absolutamente nada. E aquilo se tornou mais uma "ondinha" na minha inundação, e foi aumentando enquanto eu não falei com os caras. Por dias eu ia na praça e perguntava por eles. O pessoal estava achando que ia sair briga, o primeiro deles chegou a fechar os punhos e assumir uma postura de defesa quando eu finalmente o encontrei. A cara de espanto dele está gravada na minha mente quando eu disse "Cara, me desculpe por tudo. Por toda raiva, toda a hostilidade, e qualquer mal que lhe causei, De verdade.". Ele não acreditava. Por alguns segundos ele ficou me olhando nos olhos, até relaxar e finalmente apertar a minha mão e, sem precisar, me pedir desculpas também. O boato que eu entrei para igreja, que eu virei "evangélico" nasceu naquele dia. O segundo veio me procurar. Usei as mesmas palavras, o mesmo gesto, ele foi mais receptivo que o primeiro, e tudo ficou bem. A praça voltou a ser uma unidade. A paz reinou.

Para quem não sabe eu não tenho religião. Diferente do ateu, eu acredito em Deus, mas não tenho religião. O problema é que eu acredito em Deus, Zeus, Odin, Buda, Alá, Brahma, Deusa, Oxalá, G.A.D.U. e por aí vai. Acredito que independente do nome Ele vai te ouvir. O que te reserva no final da vida são as tuas escolhas e os seus atos. Mas, acima de tudo, eu acredito em uma entidade de amor. Multiplique o amor de mãe (a que cria, educa, alimenta, protege, ensina) por infinito. Multiplicou? Esse valor não chega nem a um infinitésimo perto do amor Dele. E como todo amor verdadeiro (vide os cachorros) o perdão está em primeiro lugar. Você vai errar milhares de vezes e milhares de vezes ele vai continuar te olhando com amor e bondade, disposto a lhe perdoar e lhe ajudar assim que você estiver pronto para pedir perdão e ajuda.

E tudo o que eu faço de "bom", que seria um motivo de orgulho, é, como disse uma médium do G.E.I.D., "é minha obrigação". Não fiz nada mais, nada menos, que minha obrigação.

Um amigo me pediu ajuda: minha obrigação ajudar. Um estranho me pediu ajuda? Minha obrigação ajudar também. Alguém se aproximou de você queixando-se de vida. o que você faz? Ouça. Sorria. Dê as suas melhores palavras de conforto e incentivo. Como o povo lá sempre diz "é fácil conviver com um monte de gente legal. O difícil mesmo é conviver com os problemáticos. Eles sim, são as nossas verdadeiras provas".

Hoje faltou luz no bairro que eu moro. Saí para buscar a Nanda no ponto de ônibus com uma lanterna no bolso. No meio do caminho passei do lado de uma moça toda atrapalhada tentando colocar a chave do carro na fechadura da porta do mesmo. Parei, olhei para ela e disse "quer uma luz aí?". Ela, assustada e com medo, no meio do escuro, nem conseguia ver meu rosto, recusou dizendo que estava tudo bem. Eu, calmamente, do lugar que estava, retirei a lanterna do bolso e iluminei a porta do carro dela. Ela sorriu, abriu a porta, entrou, agradeceu e foi embora. E eu? Continuei a minha vida. Não me custou nada. Não me doeu nada. Talvez eu tenha ganhado um tijolinho na minha casinha do céu (como diz a minha amiga Renata), talvez não. Afinal era minha obrigação ajudar. Ela conseguiria acertar a fechadura em algum momento, mas não custava ajudar.

E as orações? Já passei, e passo, por muito problemas na vida. E muitos, se não todos, foram suportados através de orações alheias (obrigado Paty, Drica, Marcinha e quem mais orou por mim), então o que custa parar o que você está fazendo na hora por, sei lá, cinco minutos, um minuto, trinta segundos, que seja, e, sinceramente, pedir um "up" por aquela pessoa? Mesmo que você nunca a tenha visto na (nesta) vida? Um simples "(coloque aqui a deidade de sua preferência) ajuda aquela pessoa.", desde que sincero, fará muita, se não toda, a diferença. Mas, faça de coração. Se não for de coração, não faça.

Sinceramente, sou direcionado a conhecer pessoas com problemas. É como se eu fosse testado o tempo todo. "Olha aqui. Mais uma pessoa com um problema. O quê você vai fazer? Ficar, ou correr?". E do começo ao fim eu penso: não sou eu falando, não sou eu agindo, é a vontade e providência divina. Há muito tempo atrás participei de um "conven" e uma das regras era: fazei de ti presença de Deus, pois só assim funcionará. Jesus disse "vós sois deuses". Se podemos ser influenciados para o mal, porque não abrir as portas para sermos influenciados para o bem?

Para finalizar, deixo um vídeo que vi outro dia e gostei muito. Tanto pela atitude, quando pela inspiração que ele nos proporciona.


Tradução livre feita por mim:
1. Escrever uma carta pessoal para os policiais agradecendo tudo o que eles fazem por nós.
2. Levar sorvetes do McDonalds para todos os guardas parados no calor.
3. Dar garrafas de água a todos os jardineiros públicos e aos guardas de trânsito.
4. Limpar os para-brisas sujos em um cruzamento por uma hora.
5. Plantar uma árvore.
6. Lavar um carro aleatório de um estacionamento.
7. Ter uma conversa de coração com o faxineiro da minha cafeteria favorita.
8. Levantar a cancela para os guardas enquanto eles jantam.
9. Escrever uma carta de agradecimento para os professores por escolherem ensinar, ao invés de ter outros empregos.
10. Limpar todo o lixo jogado no chão da universidade.
11. Distribuir guardanapos de papel para todos os estudantes na cafeteria da universidade.
12. Imprimir panfletos "motivacionais" e distribuir pela universidade e seus arredores
Panfleto: Fique calmo(a) e sorria. Você é lindo(a).
13. Dar sucos em caixinha para todos os jovens andando no calor, que nós encontramos na rua.
14. Dar passagem a qualquer um na rua que queira passar.
15. Distribuir maçãs para os trabalhadores que não encontraram nenhum trabalho diário.
16. Dar uma carona para os alunos de intercâmbio para que eles não voltassem andando para o lar.
17. Distribuir rosas amarelas e panfletos motivacionais para as enfermeiras do hospital local.
18, 19, 20, 21 Não puderam ser filmados.
Eles incluem:
Ajudar um taxista na beira da estrada.
Dar ternos para os funcionários de um restaurante porque eles não tiveram um dia de folga no Eid (não sei o que é Eid, deve ser algum feriado, ou data comemorativa local).
Dar para minha mãe e meu pai um abraço especial por eles serem os melhores pais do planeta.
Dar para uma criança de rua de 12 anos sorvete, batatinhas e Milo, porque ele me disse que gostava deles.
22. Distribuir balões no orfanato local.
Mensagem final: Vamos criar uma sociedade em que, mesmo que os governos e as corporações trabalhem contra nós, ainda teremos uns aos outros. Vamos ser gentis.

Sabe o que é mais legal? Eu fiquei tão agradecido com o vídeo que mandei uma mensagem de agradecimento para o autor. Sabe o que aconteceu? Ele gentilmente respondeu.



  • 26 de Setembro
    Anderson Ramalho
    • Hi, I'm from Brazil.
      Just watched your video and found it amazing. I hope that more people can be inspired by seeing him.
      I want to thank you for your act of kindness. And I wish you to receive many good things in your life.
      Brotherly hugs.

    • Thank you Anderson for all the kind words. It was very sweet of you to take out time and write out to me. I'm truly honored.

    • The honor is mine. Again: thanks for your great video and ispiration.



Tradução:

Anderson Ramalho
Oi, eu sou do Brasil.
Acabei de ver o seu vídeo e o achei incrível. Eu espero que mais pessoas possam se inspirar assistindo-o.
Eu quero lhe agradecer pelo seu ato de gentileza. E desejo que você receba muitas coisas boas em sua vida.
Abraços fraternais.

Syed Muzamil Hasan Zaidi
Obrigado Anderson por todas as palavras gentis. Foi muito gentil da sua parte tirar um tempo e escrever para mim. Estou verdadeiramente honrado.

Anderson Ramalho
A honra é minha. Mais uma vez: obrigado por seu ótimo vídeo e inspiração.

Desejo o melhor à todos e "Caso a gente não se veja: Bom dia, Boa tarde e Boa noite!"


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Filosofia do cão

Posted by PatyDeuner on 8 de outubro de 2012 07:39 in , ,












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