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Na Segunda Caverna de Zenthor (A Guerreira e o Ogro - capítulo 3)

Posted by Marcinha on 2 de junho de 2013 06:00 in , , , , ,
Assim que terminou a mistura que resultou em um vasilhame repleto de tinta vermelha, o ogro selou o pote colando a tampa com cera quente, para que não entornasse no caminho. Em seguida, ele tomou um alforje grande onde colocou a tinta e algumas ferramentas e, jogando-o às costas, fez sinal para que a guerreira o seguisse. Ela agarrou a espada e prendeu-a a cintura, sem parar de caminhar, acompanhando o ogro que andava a passos largos. Em vários trechos Markka teve de apressar o passo a fim de não ficar para trás, enquanto se perguntava como uma criatura pesada a ponto de fazer o chão tremer sob seus pés podia ser ágil daquela maneira.
Depois de um quarto de hora seguindo por uma trilha em meio à vegetação alta, o ogro parou e olhou atentamente a toda a volta. Depois de ter certeza que estavam sozinhos, ele afastou a densa trama de cipós e folhagens que se dependurava sobre a pedra, revelando uma rocha enorme que estava solta da parede. Ele a moveu para o lado com um pouco de esforço, revelando a entrada da caverna. Fez um sinal para que a guerreira entrasse, e selou a entrada novamente, trancando-os por dentro.
O coração de Markka acelerou um pouco, e ela roçou o braço discretamente no punho da espada, só para sentir a presença de sua arma. Respirou fundo, a fim de dissipar a apreensão que ameaçava dominá-la, e que já fazia a cabeça doer um pouco. Olhou em volta, tentando deliberadamente se distrair.
A caverna era imensa em seu interior, e modestamente iluminada por uma abertura no teto, há uma boa altura do chão. Alguns cristais dispostos estrategicamente, refletiam o sol que fluía pela abertura, propagando a luz por todo o interior. A guerreira ficou bastante admirada com a engenhosidade do ogro.
Zenthor depositou o alforje sobre uma bancada de pedra e dirigiu-se ao fundo da caverna, onde havia um grande volume oculto por uma espécie de lona, inteiramente costurada com o couro de vários animais. O ogro removeu a lona com um puxão para o alto e esta esvoaçou, revelando uma sólida carroça de madeira.
– Aí está. – disse o ogro finalmente.
Markka olhou admirada a imensa carroça a sua frente, robusta como se o ogro a tivesse projetado para suportar qualquer intempérie ou guerra. Ela encarou o ogro, e assentiu com um leve arquear de sobrancelha, então pôs-se a circundar o veículo sem nada dizer.
A carroça era alta e confortável, com dois sólidos bancos de madeira dispostos um atrás do outro, onde seis poderiam se sentar com folga. Mais atrás havia um bom espaço, notadamente um compartimento de carga. Toda a carroça era coberta com uma estrutura retrátil em madeira e couro, permitindo que o veículo pudesse ser usado com teto ou sem. Por baixo do corpo da carroça corriam dois eixos robustos que sustentavam quatro rodas de madeira maciça, com mais de um palmo de espessura, visando dar maior estabilidade. Markka se deteve quando percebeu que, nas sólidas rodas de madeira, o ogro havia entalhado em cada uma um desenho que lembravam uma grande estrela de cinco pontas.
– Qual a função do desenho nas rodas? – perguntou ela, intrigada.
– Apenas estética. – respondeu o ogro, satisfeito com o interesse dela.
E a estética não parara por aí, como a guerreira bem pode constatar. Haviam aparadores sobre cada uma das rodas, com o intuito de reter a lama desprendida com o movimento. Mas, longe de serem apenas peças funcionais de madeira, elas foram cuidadosamente esculpidas em formato côncavo, depositando-se como conchas emborcadas nas laterais, cada uma sobre sua roda.
A frente do veículo haviam dois varões robustos de madeira entalhada, entrelaçados por filetes trançados de couro. A guerreira deduziu que eram arreios para mais de um animal.
– Já possui os animais para puxá-la? – indagou a guerreira.
– Ainda não, mas pretendo adquiri-los em breve. Há alguns dias recebi a resposta de um criador do norte, dizendo que os bisantes agora já tem idade para serem negociados. Quero comprar dois machos jovens, e para isso precisarei viajar. – explicou o ogro – Não quero perder este lote, ouvi dizer que esta é a ninhada com as pernas mais robustas que ele conseguiu desde que começou a cruzar esta nova linhagem.
– Com que outro animal ele tem cruzado os bisantes comuns?
– Acho que nunca se saberá. Muitas moedas de ouro já foram gastas em cerveja de primeira, mas o velho nem assim revela seu segredo. É desse mistério que ele vive.
A guerreira assentiu, e tornou a rodear a carroça, investigando os detalhes, sentindo o relevo entalhado enquanto deslizava a mão pela superfície. O ogro a observava, satisfeito com a reação dela, sentindo-se orgulhoso em ver seu trabalho admirado.
Quando ela se voltou para falar, os olhares se encontraram e ela ficou constrangida por um breve momento. Sentia-se um pouco devassada quando a observavam daquela maneira. Respirou fundo e voltou ao que ia dizer:
– Você fez realmente um belo trabalho nessa carroça, Zenthor. – disse ela – É bastante habilidoso. Espero que os animais que irá adquirir sejam belos e robustos como o veículo que irão conduzir.
– São bizantes quase comuns, guerreira, com a típica cabeça roliça e baixa, os chifres enrolados, a pelagem comprida e espessa, só diferenciados pelas pernas troncudas. Segundo o mercador há novilhos castanhos e negros com ele e preciso me decidir sobre quais pretendo comprar, para que possa comprar o couro dos bancos  na mesma viagem. Talvez traga couro a mais para trocar toda a capota. Quero que combinem. – explicou o ogro, com naturalidade.
A guerreira sorriu discretamente. Começava a admirar o perfeccionismo do ogro.
– Por que não viaja comigo? - disse o ogro, repentinamente.
– Para que eu iria? É uma longa viagem, se bem me lembro onde os criadores do norte se estabeleceram. Além do que dois viajantes significam despesas em dobro... e problemas em dobro também.
– Pense no lado bom das coisas. – insistiu o ogro – Você poderia me ajudar a escolher os animais e o couro que melhor combinasse com a carroça; duas cabeças são melhores do que uma. Além disso...
– Mas Zenthror...
– ... preciso de um segundo cavaleiro. Como vou montar dois bisantes na viagem de volta?
Markka sabia que os bisantes poderiam seguir tanquilamente em caravana, se Zenthor apenas atrelasse o segundo animal a sua montaria. O fato é que ele insistiria até que ela concordasse com a viagem. Alguém com persistência suficiente para construir sozinho uma carroça tão rica em detalhes tinha mesmo de ser um cabeça-dura-insistente. Mas em vez de se exasperar, ela começava a achar isso um pouco engraçado.
– O que me diz? – insistiu o ogro mais uma vez – Me ajuda a trazer os bizantes na viagem de volta? Ou acha que não conseguiria montar um deles?
– Ah, sem essa hein! – ela teve de rir – Esta bem, chato. Um viagem longa, gélida e exaustiva. É. Por que não?

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(Nota da Autora: os seguimentos anteriores desta saga podem ser lidos nos links a seguir: Capítulo 1 e Capítulo 2 .)


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Matizes e Cores (A Guerreira e o Ogro - capítulo 2)

Posted by Marcinha on 26 de maio de 2013 06:00 in , , , , ,
Em pouco tempo o sol começou a se recolher fora da caverna, espalhando um azul profundo por todo o firmamento, graciosamente pincelado por nuvens matizadas de dourado e rosa.
Markka permanecia sentada à entrada da caverna já há algum tempo, contemplando o espetáculo que a natureza lhe oferecia. Nesses raros momentos ela conseguia atingir a calma, contemplando passivamente crepúsculos, tempestades, marés furiosas. Imersa nos sons, odores e belezas destes espetáculos naturais ela esquecia a si mesma, como se sua essência pudesse tocar de leve outra atmosfera, bem mais sublime que este mundo de atrocidades e desonra.
A guerreira se virou para observar o interior da caverna. O ogro recolhia alguns pertences, organizando o local que ele chamava de lar. Em seguida atiçou o fogo, a fim de aquecer a refeição para eles. Markka se aproximou da fogueira, acompanhando com o olhar seu anfitrião, que por fim lhe entregou uma cuia de caldo fumegante.
– Também gosto de ver o por do sol. – afirmou ele casualmente, e se sentou em seguida, levando a cuia à boca.
Markka o observava em silêncio, enquanto parecia concentrada na sopa. A cada momento aquele ogro a intrigava mais.
Pouco tempo depois o ogro se deitou, em uma segunda cama que havia ao redor da fogueira. Ele havia dito à guerreira que encerrava seu dia cedo, para que estivesse descansado e pronto para trabalhar assim que o dia clareasse.
A guerreira decidiu dormir assim que o ogro se deitou, tencionando acordar antes dele. Embora ela estivesse mais a vontade na presença dele, ele ainda era um ogro, e ela não se esqueceria do perigo que ele podia representar.


O dia seguinte chegou, mostrando um céu perfeitamente limpo. Markka se levantou de um salto quando, olhando à volta, percebeu que o ogro não estava.
Ela se aproximou da fogueira já quase extinta, e achou sobre a bancada um pedaço de pão torrado. Roendo o pão, ela se aproximou da entrada da caverna e lá permaneceu por um bom tempo, esperando a volta do ogro.
Zenthor não tardou a regressar, trazendo pequenas bolsas de couro cheias de ervas tenras e pequeninas frutas avermelhadas.
– Ainda bem que achou o pão. Precisei sair muito cedo. – disse o ogro enquanto passava pela guerreira na porta da caverna.
– O que é isso? – perguntou ela, mesmo com a boca cheia, para manter a conversa.
– Frutas que contem uma excelente pigmentação vermelha, e ervas suculentas que soltam uma espécie de... baba. Uso as ervas como aglutinante para a pigmentação vermelha. – explicava o ogro, enquanto esvaziava as bolsas –  Desse modo consigo uma tinta espessa e resistente. 
– O que vai pintar com isso? – indagou Markka, observando o ogro que começava a macerar as ervas.
– Estou construindo um veículo grande, o primeiro que faço para mim. Por ser meu, pretendo pintá-lo.
– Por quê?
– Para que fique bonito. E me deixe satisfeito. E orgulhoso. – respondeu o ogro.
– Hã... – ela se limitou a dizer.
O ogro a observou, sem deixar de macerar suas ervas. Ela, por sua vez, estava atenta ao modo como ele socava as plantas com um cilindro de madeira dentro de uma cuia larga, resultando em um salpicado verde que já soltava um líquido viscoso e transparente.
– Sou artesão, como lhe disse ontem. Fabrico carroças. – disse o ogro, enquanto ela o olhava – Gostaria de ver o meu trabalho?
A guerreira quase esboçou um leve sorriso, mas permaneceu sóbria. Sem dúvida ela havia ficado curiosa sobre o que ele fazia desde que ele se apresentara como artesão. A guerreira também possuía algum talento; e adorava criar coisas. Sua vida não era feita apenas de batalhas e sangue, ela admirava as invenções e as artes, e encontrava um enorme prazer em ver sair de suas mãos algo que não existia antes no mundo. Ela via a criação como algo extremamente prazeroso, e costumava dizer que entendia por que Deus fora tão insaciável na diversidade de sua criação.
– Posso levá-la até lá, se desejar. – continuou o ogro, já que ela nada dissera.
– Sim, eu gostaria de ver no que está trabalhando. – respondeu Markka, tentando não parecer ansiosa, mas por dentro a curiosidade a espetava como uma lança.

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(Nota da Autora: O primeiro capítulo desta saga pode ser lido clicando aqui .)

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O Despertar Na Caverna (A Guerreira e o Ogro - capítulo 1)

Posted by Marcinha on 19 de maio de 2013 06:00 in , , , , ,
Quando ela abriu os olhos, percebeu que estava dentro de uma caverna. Manteve-se imóvel, enquanto tentava ambientar a vista para divisar o que havia à sua volta. Os instintos de guerreira sempre guiavam sua ações; precisava saber se estava sozinha ou se alguém a vigiava, antes de fazer qualquer movimento que demonstrasse que havia recobrado a consciência.
Percorreu com os olhos o interior da rocha bem iluminada por inúmeras tochas; havia vários utensílios de uso doméstico sobre uma bancada de madeira, alguns alforjes de couro encostados a uma parede, uma caixa de madeira com vários objetos de metal e uma imensa massa de combate. Mais adiante uma fogueira crepitava, e em frente ao fogo havia um ogro sentado de costas para ela. Era uma criatura imensa, vestida modestamente com roupas de couro bem surradas, que remexia o fogo lentamente com um galho seco. A guerreira o observou durante um tempo; o ogro parecia calmo e pensativo. Então ela se moveu lentamente, tentado enxergar o restante da caverna, e sentiu-se mais confortável ao ver que sua espada estava guardada na bainha e colocada no chão ao seu lado, ao alcance de sua mão. Ela esticou o braço para alcançar sua arma e houve um farfalhar neste momento, só então percebeu que estava deitada sobre peles com forro de palha.
– Finalmente acordou. – comentou o ogro em tom casual, com sua voz grave e baixa.
– Quanto tempo dormi? – indagou a guerreira, tratando de estabelecer prontamente um diálogo.
– Três dias. – respondeu o ogro, que se virou finalmente para olhar para ela. – E apenas hoje a febre e a palidez cederam. Como se sente?
– Estou ótima. – respondeu a guerreira imediatamente, mesmo sem ter certeza de como estava sua saúde; mas não iria demonstrar vulnerabilidade ao ogro.
– Que bom. – retorquiu o ogro, um pouco menos amistoso, por ter notado a hostilidade dela. – Se tiver fome, venha comer; há caldo de carne e raízes no vasilhame de pedra.
Tendo dito isto, o ogro voltou-se para o fogo novamente. Mas em vez de revolver as chamas com o galho, colocou-o no chão com um gesto brusco, e ficou imóvel, sentado com os cotovelos apoiados sobre os joelhos.
A guerreira se levantou da cama improvisada onde dormira, e olhou para sua espada num momento de dúvida que durou apenas um instante. Então pegou a arma e prendeu a bainha à cintura; era melhor estar segura do que demonstrar gentileza. O ogro a olhou por sobre o ombro quando percebeu o que ela fizera, depois voltou a fitar o fogo novamente.
Ela se aproximou do vasilhame que continha a sopa, ainda estava quente. Destampou-o e sentiu o cheiro da carne cozida, dando-se conta então do quanto estava faminta. Serviu-se numa generosa cuia de cerâmica, e se sentou para comer perto da fogueira, há uma distância segura do ogro, que ainda fitava o fogo. Só então ela pode perceber o ogro com nitidez; era enorme e corpulento, com mãos grandes e calejadas, com dedos nodosos e unhas incrustadas de sujeira. Tinha a cabeça totalmente lisa, e orelhas grandes demais, em contraste com os olhos pequenos que ficavam praticamente escondidos à sombra da testa proeminente. A boca enorme estava contraída e, acompanhando o cenho franzido, demonstrava a quantidade de pensamentos que deviam agitá-lo naquele momento. Entretanto, o ogro não parecia sentir raiva, nem demonstrava agressividade. Ele parecia sombrio, com uma expressão torturada de quem carregasse todo o peso do mundo sobre seus ombros.
A guerreira sentiu compaixão por ele, mas logo respirou fundo e voltou à postura defensiva. Precisava pensar com praticidade, saber como havia chegado ali e descobrir se conseguiria partir com o consentimento do ogro ou se precisaria usar de violência para isso. Perguntou então, como quem apenas inicia um conversa casual:
– Como cheguei aqui?
– Eu a trouxe. – respondeu o ogro – Eu estava de passagem pelos ermos quando a vi de longe; vi quando perdeu os sentidos, então a recolhi e trouxe para cá, para que pudesse ser cuidada.
– Por que eu perdi os sentidos? – indagou, confusa – O que viu naquele dia?
– Você tentava mover sozinha uma pedra que daria trabalho a dois homens. – respondeu o ogro – Em meio ao esforço caiu, e quando me aproximei a palidez dos mortos estava no seu rosto. Seu cenho estava franzido, acredito que estava sentindo muita dor.
– Eu sangrava? Estava ferida?
– Examinei você o melhor que pude, e não encontrei nada. Não aparentava estar ferida, e não havia nenhum membro quebrado ou mesmo luxado. A única anormalidade é que sua testa queimava... pra dizer a verdade, a cabeça inteira estava quente como a lâmina de um espada esquecida ao sol.
– Ah. – disse ela, assim que compreendeu do que se tratava, e praguejou – Maldição.
– Você sabe o que aconteceu.
– Que pergunta tola, é claro que não. – retorquiu a guerreira, na defensiva.
– Não foi uma pergunta. Você sabe. – o ogro a encarava, fazendo uma pausa enfática – Mas não é obrigada a me contar.
– Eu não sei! – mentiu ela, odiando as dores constantes na cabeça que constantemente a inutilizavam por dias – E também não é da sua conta!
– Não há motivo pra se alterar. Baixe a guarda, está bem? – afirmou o ogro, com um tom decidido e uma expressão dura e repreensiva.
Ela pensou em pelo menos três respostas desaforadas no minuto seguinte, mas acabou por manter-se calada. Um conflito gratuito com o ogro não a levaria a lugar nenhum, e a afastaria das informações que precisava. Respirou fundo, e decidiu ficar calada por algum tempo, enquanto tomava a sopa que já esfriara, esquecida, em seu colo. Em dado momento, olhou para o ogro discretamente, e arriscou mais uma pergunta.
– A pedra que eu tentava mover... eu consegui?
– Não.
– A gruta ficou aberta. – ela lamentou, a voz era um sussurro para si mesma.
– Não. Eu a fechei. Está selada, não se preocupe. – afirmou o ogro.
– Por quê? – ela indagou, aliviada e perplexa ao mesmo tempo – Por quer se deu ao trabalho de fechar algo que... que não significava nada para você?
– Porque eu olhei lá dentro, e compreendi por que você se esforçou até a exaustão para fechá-la. É um sepulcro, não é?
– É. – respondeu ela, com uma expressão sombria, os olhos fixos no chão.
– Quem jaz lá dentro? – indagou o ogro, com real interesse.
– Sepultado lá está tudo que eu já fui um dia. – respondeu ela, cada vez mais sombria – Meu passado. Meu coração. Minhas lágrimas. A dor lancinante no meu peito. Minha alma. – ela ergueu os olhos e encarou o ogro. – Arranquei tudo de mim e enterrei lá.
O ogro fez um silêncio reverente. Compreendia perfeitamente o que ela dissera. Não ficou decepcionado em saber que o sepulcro era simbólico, nem demonstrou escárnio, como por um momento ela temeu que ele fizesse. Em vez disso ele se calou, partilhando por um momento da dor dela. Então, finalmente, a inquietação que ela sentia em relação ao ogro se afastou.
– Ninguém sabe sobre o sepulcro. – ela afirmou, sustentando o olhar dele quando ele despregou os olhos do chão. – Agora você é o único além de mim que sabe que ele existe e o que ele significa. Gostaria que tomasse essa revelação como um agradecimento.
– Não precisa me agradecer a acolhida. – afirmou o ogro com sinceridade – Muitos outros viajantes poderiam ter feito o mesmo por você se a tivessem encontrado primeiro.
– Eu agradeço, sim, por me acolher e por me cuidar; mas estou agradecendo principalmente por se importar. Foi honrado de sua parte se dar ao trabalho de selar um sepulcro. E seu gesto preservou o que há lá dentro; objetos e lembranças que eu não gostaria de ver violados ou saqueados. Tem minha gratidão e meu respeito, ogro – e, dito isto, ela pôs o punho fechado sobre o coração, e se curvou em reverência – Meu nome é Markka, guerreira da Costa Alta, nação que escolhi para mim.
– Sou Zenthor, ogro artesão nascido no Planalto Árido. Minha caverna é sua morada enquanto precisar. – e logo se corrigiu – Pode partir quando quiser, é claro, mas acho que ainda não está forte o bastante.
– Se eu não for um fardo, aceito a oferta. Não tenho pressa de partir.
"Não mais", pensou a guerreira consigo mesma.


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Rumppelsthorn Cava-Rocha

Posted by Marcinha on 5 de maio de 2013 06:00 in , ,
 Embora não houvesse maneira alguma de ver o sol nascendo lá fora, o anão sabia, como todos os anões sempre sabem, que já era manhã. Rumppelsthorn, ou Rumppel, como era conhecido nos seus bons tempos, desceu os degraus de sua casa rumo ao trabalho. Havia saído pelo alçapão, habilmente escondido sob o tapete de pele no chão de seu quarto. Após fechar o alçapão atrás de si, apenas seu alforge com ferramentas e o candeeiro que carregava lhe fariam companhia enquanto descia os degraus de pedra da mina subterrânea há tempos escavada.
 O anão olhou a sua volta, e respirou fundo, enchendo os pulmões com o ar frio e úmido das entranhas da terra. O cheiro de terra e rocha molhada sempre o revigorava, o fazia sentir-se como nos tempos em que desfrutava do respeito de muitos de sua raça. Agora estava velho demais, e desacreditado demais; seu tempo havia passado, era o que muitos lhe diziam.
 Por outro lado, as coisas haviam mudado muito desde a Última Batalha; a vitória sobre o inimigo de sua terra havia cobrado seu preço a muitos povos, dentre eles, o seu. Os anões não haviam ficado de todo pobres, mas já não possuiam a riqueza de outros tempos, e isso havia dispersado a sua nação de uma maneira que incomodava o velho anão. Havia anos que muitos anões jovens haviam partido para outras terras, em busca de trabalho. Os jovens demais haviam ficado; mas já não levavam em conta os antigos valores, nem se detinham mais a dar atenção ao que os mais velhos falavam. E assim o prestígio dos mais sábios ficara esquecido e grandes anões, como ele fora um dia, agora figuravam em conversas onde o desdém e a zombaria estavam sempre presentes. E isso entristecia enormemente o velho Rumppel.
 Ele ajeitou o pesado alforge às costas com um solavanco, enquanto descia a escada estreita, ora dobrando à direita, ora à esquerda nos patamares de rocha que separavam os inúmeros túneis. Logo voltava a descer, uma escada após a outra, orientando-se pela frágil luz do candeeiro e pela agudeza de sua memória. Há vários dias fora difícil encontrar o antigo caminho, mas agora estava acostumado a ele mais uma vez. A vontade de encontrá-lo o havia guiado através dos túneis, sem nunca desistir.
 Rumppel chegou ao fundo da trilha, à parte que ele escavara sozinho nos últimos dias. Colocou o alforge no chão e pendurou o candeeiro em um gancho que instalara na parede. A tímida luz iluminou a parede de rocha, que ele analisava demoradamente enquanto retirava as ferramentas. Observou a rocha molhada à sua frente, que ele escavara tão fundo, metros incontáveis abaixo da superfície. Sentia que estava perto. Algo lhe dizia que estava próximo de encontrar o que procurava, embora não soubesse exatamente o que era. Mas, incontestavelmente, buscava algo que lhe devolvesse o prestígio de seus velhos tempos. Queria mostrar a todos os anões que ele ainda era Rumppel, o grande; intrépido e desbravador como nos tempos de sua juventude. Os anões não lhe davam o devido valor, assim como não davam valor à sua própria terra e suas origens, afastando-se de sua nação em busca de fortuna em outros reinos. Rumppel lhes mostraria como os anões de verdade se erguiam, explorando e mineirando a terra sob seus próprios pés, como seus antepassados haviam feito quando todas jóias possuídas já não eram suficientes para satisfazer-lhes a sede de riqueza. Ele reviveria os túneis que sua família escavara, os veios abertos para a prosperidade da terra que fizeram o nome do clã Cava-Rocha na era de ouro dos anões.
 O velho anão enfiou sua barba ruiva, quase toda tomada por fios prateados, no desgastado cinto, preparando-se para o trabalho. Tocou a rocha molhada com seus dedos nodosos, tentando sentir diferenças de temperatura ou vibrações, procurando pistas de em que direção deveria cavar. Foi então que ele sentiu um pulsar. Retirou subtamente a mão, com assombro, e logo recolocou-a na mesma velocidade, temendo perder a sensação que sentira. Mas o pulsar estava lá, nítido, sob a rocha. Rumppel agarrou sua picarenta e começou a cavar com avidez, um golpe após o outro, sem parar um instante até que um objeto se revelou à sua frente. Ele continuaou a escavar seu entorno, usando ferramentas menores, a fim de não danificá-lo. Após algumas horas de trabalho, Rumpell retirou da rocha um objeto antigo e desgastado, que revelava em seu interior o pulsar que ele havia sentido.
 O velho anão examinou o objeto à luz do candeeiro, era um urna de aparência antiga, até mesmo ancestral, diria ele. O recipiente esculpido em pedra escura e muito lisa se assemelhava a um jarro com tampa, ricamente ornado com desenhos e símbolos em baixo-relevo por toda a superfície. De cada lado havia uma alça circular, por onde Rumppel o segurava, e inscrições em um dialeto que o velho anão não conseguia reconhecer. Ele respirou fundo, comtemplando seu achado, que ainda transmitia o mesmo pulsar à sua mão, e  experimentou a tampa; estava trancada. No mesmo instante foi tomado de inquietação, o que ele ainda estava fazendo debaixo da terra? Já havia encontrado algo, provavelmente uma grande descoberta, a julgar pelo aspecto misterioso e o fato de estar trancada. Isso sem contar aquele rufar pulsante que não cessava! O velho anão recolheu as ferramentas ao alforje; logo em seguida, mudando de idéia, despejou-as todas no chão novamente. Então, com todo o cuidado, colocou apenas a urna no interior do alforge; amarrou-lhe a boca e jogou-o as costas com delicadeza. Em seguida recolheu o candeeiro da parede de pedra e partiu, escada acima.
 À medida que subia, Rumppel tentava pensar rapidamente no que deveria fazer. Não podia anunciar sua descoberta abertamente, sem ao menos saber do que se tratava. Precisava encontrar alguém que abrisse a urna, que parecia estar selada magicamente, já que não possuía nenhuma tranca ou fechadura visível. Também deveria de ser alguém de confiança, para não lhe roubar o achado. Além disso seria interessante ter um mago por perto, com poder suficiente para algum imprevisto; pois aquele pulsar constante o estava deixando bastante inquieto.
 O velho anão ruivo subiu todos os degraus sem nenhuma pausa, no mesmo ritmo frenético de seus pensamentos. Entretanto, quando alcançou o alaçapão no chão de seu quarto, Rumppel já sabia exatamente a quem devia procurar.

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Texto Inspirado em Sonho

Posted by Marcinha on 23 de janeiro de 2013 13:17 in , , , , ,
Não costumo me lembrar com detalhes de meus sonhos, embora desde sempre eu ache essa "vida interna" que todos nós temos fascinante. Quase sempre, por mais que eu faça um esforço consciente, só me recordo de cenas rápidas e soltas.

A exceção são os raros sonhos que me marcam muito, quase todos pesadelos.

No dia treze deste janeiro tive um desses pesadelos. Acordei tão impressionada (e feliz, devo acrescentar) que precisei escrever um texto que eternizasse minha aventura daquela noite.

Compartilho com vocês minha saga épica!

O guerreiro

Quando dei por mim, estava dentro das muralhas da cidade. Havia tumulto entre os guardas, que se movimentavam rapidamente, correndo pelas ruas de pedra. Deduzi que já tinham conhecimento da minha presença. Precisaria ser ainda mais cuidadoso.

Ouvi rosnados impregnados de raiva, e o estalar de ossos se partindo juntamente com o dilacerar da carne lavada em sangue. A fera, que eu não podia ver enquanto me ocultava atrás da amurada, estava se alimetando da vítima que acabara de abater. Com um sorriso de desdém, pensei, "se tantos sentinelas não conseguiram me parar, não será a besta que mandaram para me caçar que o fará". Esgueirei-me para a extremidade da amurada, e então pude vê-lo.

O animal tinha uma aparência deformada e terrível. Era algo parecido com um cão, mas a ausência de pelos e o formato encalombado do crânio o tornavam repugnante. Possuía fileiras de dentes expostos, pontiagudos e manchados de sangue, e músculos enormes para um animal daquele porte. Seja lá quem tenha feito isto, mago ou alquimista, havia modificado aquela criatura para tansformá-la em uma máquina de matar.

O animal farejou o ar, e voltou o olhar e uma passada na minha direção. Saquei a espada das costas, e a segurei com firmeza na frente do corpo, sentindo os músculos dos braços se retezarem na expectativa. Havia atravessado grande parte da cidadela incógnito, eu ainda não havia provado sangue naquele dia. Senti que minha espada estava limpa por tempo demais.

Recuei alguns passos, até me aproximar de um aldeão bêbado que caíra na rua. A fera me olhava, medindo-me. Cravei a espada no peito do bêbado, atravessando-o até as costas. Não deve ter sentido nada, o pobre bastardo. Entretanto, me forneceu o sangue de que minha espada precisava para atrair a criatura. Avancei em direção a fera, com a espada apontada para a face hedionda. A fera inalou o sangue grosso e alcoólico que gotejava de minha lâmina, parecendo hipnotizada. Rosnou novamente, enquanto acompanhava o movimento da lâmina ensaguentada com o olhar. Assim que abriu a boca para um urro intimidador, eu o golpeei com rapidez, introduzindo a arma pela boca da fera numa estocada profunda e seca, que lhe atravessou o crânio. Girei a espada com força e ouvi os ossos do crânio de partirem, enquanto o corpo do animal tombava sem vida. Puxei minha espada de volta, empurrando a carcaça com a sola de minha bota para longe. Um breve olhar para a minha arma me encheu de prazer; ensanguentada afinal. O cheiro metálico do sangue fresco excitava todos os meu sentidos. Eu estava pronto e ansioso para começar a matança.

Caminhei a passos rápidos pelas ruelas de pedra, subindo, rumo ao castelo. Os sentinelas corriam em direção a mim e logo tombavam. Girando o corpo, eu os golpeava com agilidade, sentindo meus cabelos grudarem no rosto com o suor da batalha. Dezessete homens eu golpeei, mandando-os para o inferno, antes de alcançar o castelo.

Por três vezes me atirei contra a porta de madeira maciça. A tranca se rompeu, e a porta cedeu, mostrando o imenso salão real. No trono onde o rei deveria estar, sentava-se um homem rude vestido de peles, os cabelos ruivos trançados segundo o costume do seu povo. Maldito seja, conquistador infame. Movendo seus exércitos como uma nuvem de gafanhotos, arrasando povoados, pilhando riquezas, sem nunca se satisfazer. Sua era de terror acaba hoje, no gume da minha espada. Vá pilhar o inferno, não a terra onde eu nasci!

Ele se levantou de um salto ao me ver entrar; era imenso e selvagem, com seu cabelo cor de fogo. Avancei a passos rápidos em sua direção, o ódio me queimando por dentro, me endurecendo como um homem que não teme nada. Ele urrou; o grito de guerra de um animal, e correu para mim com o brilho da loucura no olhar. Brandia um machado com fúria, cortando o ar com a mesma gana com que pretendia dilacerar-me a carne. Arremessei minha espada com rapidez, antes que se aproximasse o suficiente. A arma zuniu pelo ar, rodopiando, e atravessou a testa de meu inimigo, espalhando sangue na saída atrás do crânio. O gigante ruivo tombou aos meus pés. Cuspi nele. Retirei minha arma daquela face imunda e escrevi minha incial com a ponta da minha lâmina no peito dele. Minha presa. Abatida.

Retirei uma faca da bota, e comecei a cortar a pele do crânio. Ele é meu, eu o matei. Quero levar esse cabelo de fogo comigo.

Amarrei meu troféu pelas tranças, como um nó apertado no meu cinto. Olhei a carcaça do meu inimigo no chão por uma ultima vez, a expressão de horror que lhe ficou na face na hora da morte, seu crânio perfurado e descarnado. Cuspi nele novamente, e me voltei para a saída.

Limpei a lâmina da espada na cabeleira que pendia do meu cinto, e guardei minha arma na bainha às minha costas. Está feito.

Parti em silêncio.

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The Fantasy World Map

Posted by PatyDeuner on 1 de outubro de 2012 10:03 in , , ,
Registrando esse mapinha que achei muito legal!^^

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